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Herança africana, crítica social e feminismo: conheça o Carnaval de 40 dias do Uruguai

por: Gabriela Rassy

O Uruguai passou a ganhar nossa atenção não tem muito tempo. Ainda com seu tamanho pequeno, o país vem se provando mais desenvolvido e de mente mais aberta que nós em toda nossa imensidão. Mas além de ideias de vanguarda, nossos hermanos do sul guardam tradições que nem sequer imaginamos. O Carnaval é uma delas e, pasme, é o mais longo do mundo.

Todo brasileiro sabe que nosso Carnaval vai pr’além do oficial, começando no primeiro fim de semana de janeiro e indo até um ou dois fins de semana depois das datas do calendário. Já no Uruguai, a festa dura oficialmente 40 dias. E os ensaios nunca param, já que as seletivas para os eventos começam em outubro. Haja amor!

O Desfile de Llamadas de 2019 levou 46 comparsas à Avenida Isla de Flores

A Avenida 18 de julio marca a abertura da festa. Em janeiro acontece sempre o primeiro desfile, que abre os trabalhos, com representantes de cada estilo dentro deste longuíssimo Carnaval. Os selecionados participam ainda das apresentações no Teatro de Verano, uma estrutura arquitetônica bastante particular, ao ar livre, onde acontecem etapas com quatro espetáculos diários. Em meio aos shows, onde os espectadores lotam as arquibancadas, acontecem ainda os Desfiles de Llamadas na Avenida Isla de Flores, entre o Barrio Sur e Palermo, ambos historicamente de forte presença negra.

Os tambores são aquecidos antes de cada apresentação para amaciar o couro

 

Assim, a festa do momo no Uruguai está dividida em cinco grupos clássicos: comparsas, murgas, parodistas, revistas e humoristas, sendo os dois primeiros os de maior público e destaque. É um Carnaval de espetáculos onde cada grupo monta uma apresentação para ser vista em um teatro.

As murgas e o feminismo

As murgas têm influência europeia, se relacionando de forma íntima com o Carnaval de Veneza e com músicas da cultura tradicional espanhola. Ela é uma mistura de coral, música e humor, fazendo fortes críticas sociais e políticas de fatos recentes do país. Devo dizer que é quase impossível para um estrangeiro entender as piadas, já que elas falam de causos e fatos ocorridos no Uruguai, com gírias e brincadeiras internas. De qualquer forma vale muito assistir as apresentações e sentir a potência vocal dos 13 a 17 participantes.

O grupo La Línea Maginot fez um espetáculo falando sobre como o uruguaio inventa desculpas para tudo

Críticas sociais e políticas são os principais temas das murgas

Reparei que os grupos eram formados quase exclusivamente por homens e questionei algumas pessoas. “Tradicionalmente, sempre foram apresentadas por homens, mas algumas mulheres estão tentando mudar isso”, me contou uma fotógrafa que registrava os bastidores. No dia da abertura do Carnaval, em janeiro, grupos de mulheres saíram na Avenida 18 de julio com suas murgas e um pano vermelho amarrado no braço. Nele dizia: “Sin nosotras no hay Carnaval”. A ideia era dar visibilidade ao papel da mulher no Carnaval Uruguaio.

Ora, mas tudo já foi protagonizado só por homens – o teatro, inclusive. “A medida que a sociedade for avançando para o feminismo, a arte não vai poder ficar de fora”, disse ao La Diaria Lucía Souza, integrante da murga Pelala que va al Pan e do Encuentro de Murgas de Mujeres y Mujeres Murguistas (EMMyMM), que aconteceu em 2018. Ela chama o machismo no Carnaval de “patriarcado com brilhantina”. No desfile inaugural deste ano, dos 345 murguistas, só 13 eram mulheres.

O Candombe e a herança africana

As comparsas tocam candombe e fazem apresentação que se assemelha ao nosso Carnaval. Com origem na cultura africana, esse estilo musical que mostra toda a potência dos tambores é Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco. O autêntico batuque, composto por três tipos de tambores, está na cultura uruguaia há 270 anos. Expressão negra já muito reprimida pelos espanhóis, o candombe é uma das grandes definições da identidade cultural do Uruguai, que nasceu no Barrio Sur, em Montevideu.

Quando os escravos finalmente conseguiram a liberdade, iam morar em cortiços pela cidade. Com seus tambores, representantes de cada cortiço ou bairro faziam suas chamadas. Assim as pessoas se aproximavam das festas. “O que os escravos faziam era uma recriação de sua cultura e tradição. Faziam tambores com barris e couro”, conta Matias Silva, diretor da comparsa C1080.

Tambores da comparsa C1080

A tradição na família começou com seu avô, Juan Ángel “Cacique” Silva, criador do toque de Cuarén, um dos três característicos dentro do candombe. Em 1953, ele cria a comparsa Morenada, junto com seus irmãos e com o artista e amigo Carlos Páez Viraló. Juan passou o bastão a seu filho, Wellington “Cachila” Silva, que criou em seguida a C1080, hoje dirigida por seu filho Matias. “Fico tranquilo por que meus filhos já demonstraram que podem fazer tudo, mas continuo contribuindo já que algo devo cantar neste ano”, explica o pai.

Juan Ángel “Cacique” Silva é um dos personagens mais importantes do Carnaval uruguaio

Matias Silva e seu pai Wellington “Cachila” Silva na sede da C1080

A performance do C1080 deste ano foi em homenagem ao centenário de Juan. “Nosso espetáculo é uma obra de teatro com tambores contando toda sua vida e representação dentro do candombe. Acreditamos que todas as pessoas deveriam saber quem foi meu avô e o que ele representou. Na sua época, quando saia para tocar tambor pelas ruas, como fazemos, estava proibido e as pessoa presa. Hoje tem 300 grupos de candombe, mas antes tinham 5, 6 e um era de meu avô. É um reconhecimento da sua história e do tanto que eles bateram de frente para que hoje seja uma festa”, conta Matias.

A C1080 se prepara para apresentação no Teatro de Verano

O chimarrão é componente indispensável de cada momento dos uruguaios

Maquiagem pronta para a apresentação da C1080

Nas apresentações, entram primeiro os porta-bandeiras, levando a identidade de cada comparsa. Os mastros com tecidos imensos passam por cima da cabeça de todos, em manobras dignas de malabarista, enquanto o público tenta tocá-los a cada giro. Eles chegam seguidos do corpo de baile, composto por diversas mulheres lindas e sorridentes.

O corpo de baile se prepara para entrar na avenida

Entram quase ao mesmo tempo o escobero e a vedette. Enquanto ele “varre” maus espíritos, abrindo os caminhos, ela encanta e seduz o público. A personagem feminina que antigamente ia atrás da bateria, passou a ter mais destaque com Rosa Luna e Marta Gularte, as mais importantes representantes do personagem. Marta foi a primeira vedette a passar à frente dos músicos e logo se inverteu a ordem de entrada em todos grupos.

Entram juntos, formando um par, a mama vieja e o gramillero. Ela se veste com traje que se assemelha ao das baianas, sempre com um leque, e representa a dignidade da mulher negra, dançando sempre como uma dama da nobreza. Já o gramillero representa o curandeiro africano, portando uma maleta cheia de ervas. Os dois são os anciões e sábios do grupo.

A ala composta por mama vieja e gramillero

O som fica por conta dos tamborileiros, que formam a bateria. Cada grupo tem 30 a 50 componentes nesta ala. Eles podem tocar os tambores piano, mais agudo; chico, com som grave; e o repique, que faz as brincadeiras no contratempo. Adornados e maquiados, eles que dão o ritmo na comparsa.

Tamborileiros fazendo sua chamada no desfile

Ouça aqui:

A Arte e o Candombe

Em outras representações artísticas, o candombe foi particularmente vivido e retratado pelo artista Carlos Páez Vilaró. Este que foi um dos grandes pintores e muralistas uruguaios, entrou de cabeça na cultura do candombe a partir de 1950. Autodidata, Vilaró encontrou no estilo a raiz de sua pintura. Montou seu ateliê no cortiço Medio Mundo, de Montevidéu, e produziu ali suas primeiras pinturas com óleo, principalmente sobre a vida de seus habitantes.

O artista dedicou boa parte de seus trabalhos à cultura africana na América do Sul, mas não só, ele viveu intensamente sua relação com o candombe. Ele tocava com a Morenada, de Juan Ángel Silva e era como parte da família. A C1080 fez seu desfile de 2016 em homenagem a ele, ganhando o concurso. “O conhecia desde pequeno. Era como um pai para mim”, disse Wellington “Cachila” Silva. “Carlitos foi para o Congo, conheceu a cultura negra e começou se interessar. Já no cortiço Medio Mundo fez todos os registros desta cultura”, conta.

Obra de Carlos Páez Vilaró no Museu do Carnaval de Montevideo

O candombe retratado por Carlos Páez Vilaró, em exposição na Casapueblo

As obras que refletem a visão e vivência de Vilaró podem ser vistas em sua residência de verão, onde viveu até os 90 anos, a Casapueblo. Sendo a própria casa uma obra de arte sua, o espaço localizado em Punta del Este abriga boa parte da produção do artista, com destaque especial para esculturas e quadros sobre as comparsas e os moradores do cortiço Mediomundo. Uma outra obra sua pode ser vista no Museu do Carnaval.

Carlos Páez Vilaró se dedicou a entrar totalmente na cultura do candombe

O museu, aliás, é outra parada obrigatória para os amantes das festividades. Por ali é possível conhecer em detalhes cada grupo, com destaque para as murgas e as comparsas. O Museu do Carnaval tem toda uma coleção de vestuários excêntricos usados ao longo dos anos, com trajes feitos de camisinhas, caixas de leite, materiais de hospital, entre outras formas criativas de adorno. Nos fundos, uma arena recebe espetáculos de todos os tipos de grupos da cidade de Montevidéu.

Trajes de murgas em exposição no Museu do Carnaval

As apresentações em teatros populares e palcos, chamados tablados, acontecem em todos os bairros da cidade e compõe a programação do Carnaval. O mais completo dos tablados é o Teatro de Verano Ramón Collazo, um anfiteatro aberto no bairro Parque Rodó. Ali que os jurados avaliam os grupos quem competem no concurso Oficial de Agrupaciones Carnavalescas.

Tablado montado no Museu do Carnaval para receber as apresentações

Teatro de Verano começa a encher antes das apresentações

Como curtir o Carnaval do Uruguai

O Carnaval mais longo do mundo dura 40 dias, mas recomendo fortemente a ida na época dos Desfiles de Llamadas. É o momento em que acontecem também os tablados no Teatro de Verano, assim dá para ver essas duas lindas manifestações culturais e vivenciar de perto a cultura uruguaia.

Para hospedagem, o Hotel Vivaldi está bem localizado, além de ter um café da manhã completo delicioso, funcionários atenciosos e uma uma piscina aberta na cobertura. O Vivaldi fica a 20 minutos de caminhada do Teatro de Verano, 15 minutos do Parque Rodó, onde fica o Museu Nacional de Belas Artes, e 15 minutos da Praia de Los Pocitos.

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Fotos: Gabriela Rassy


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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