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James Baldwin, o profeta do existencialismo negro, chega ao cinema com o diretor de ‘Moonlight’

por: Caio Delcolli

Embora tenha morrido há mais de 30 anos, nunca se falou tanto sobre o escritor norte-americano James Baldwin. Nos últimos anos, suas biografia e trajetória no ativismo dos direitos civis foram objetos de investigação do documentário indicado ao Oscar “Eu Não Sou Seu Negro” (2016) e, nesta semana, chega aos cinemas “Se a Rua Beale Falasse”, baseado em um de seus livros mais emblemáticos, lançado originalmente em 1974.

Indicado ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas nas categorias de atriz coadjuvante (Regina King), roteiro adaptado (Barry Jenkins, também diretor) e trilha sonora (Nicholas Britell), “Rua Beale” é centrado no conflito do jovem casal Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James). Ela, balconista em uma loja de departamento, está grávida, e ele, um aspirante a escultor, está atrás das grades, acusado sem provas de ter cometido um crime que, na verdade, não cometeu.

Mesmo com o apoio incansável da mãe, Sharon (King, cuja atuação tem sido destacada como um dos melhores aspectos do longa-metragem), Tish está em um embate com a família religiosa fundamentalista de Fonny, indisposta a oferecer apoio ao casal, e sem recursos ou provas concretas para provar a inocência do noivo. Ambientado no início dos anos 1970, no bairro nova-iorquino do Harlem, “Rua Beale” — tanto o livro quanto o filme — traz a carga política da obra de Baldwin e golpeia os Estados Unidos no nervo exposto da desigualdade racial no país — e, guardadas as devidas proporções, no do mundo todo também.

O nome da rua que dá título ao livro é uma referência à canção “Beale Street Blues”, composta por W.C. Handy, por sua vez inspirada na via de mesmo nome em Memphis, no estado sulista do Tennessee. Trata-se de uma rua icônica na cultura negra, visto que foi palco de intensa atividade comercial e política, quando o movimento dos direitos civis começava em Memphis. Rua Beale chegou às lojas anos depois dos assassinatos de Martin Luther King e Malcolm X e com os Panteras Negras já sob intensa perseguição do FBI sob mando de J. Edgar Hoover.

Praticado nas instâncias de poder e até nas ruas por policiais, o racismo institucional é peça-chave para entender o contexto sociopolítico das dificuldades que Tish e Fonny vivem; elas mostram, por meio da ficção, a discriminação racial que atravessa séculos e hoje é debatida tão intensamente no país governado por Donald Trump.

“O trabalho de Baldwin vive uma renascença”, diz Eddie S. Glaude Jr., professor de Estudos Africanos na Universidade de Princeton, em entrevista ao Hypeness. “Vemos um florescimento de bolsas de estudo sobre ele, o que sugere que ele estará por um bom tempo entre nós.”

Quem quer que descobriu a América merecia ser levado de volta pra casa acorrentado, pra morrer lá.

O acadêmico, que atualmente trabalha em um livro sobre a crítica social do escritor a ser lançado nos EUA pela Crown em 2020, antes da eleição presidencial, tem Baldwin como principal referência em sua pesquisa sobre racismo na América — e afirma que o legado da escravidão até hoje assombra o país. Esta é uma tese de Baldwin na abordagem que o escritor fez dos EUA enquanto projeto de país.

“Rua Beale”, conta Glaude, entra na subjetividade de seus personagens para explorar os “contornos” e a beleza do amor entre negros no contexto de um mundo cada vez mais carcerário. “Eu dei aulas sobre Baldwin durante as eleições de 2016 e no segundo ano da gestão Trump. Meus alunos têm se maravilhado com o quão presciente e profético Baldwin foi, com a escrita dele e frequentemente ficam desconfortáveis diante de sua raiva”, diz.

 

 

O romance que deu origem ao filme de Jenkins — vencedor do Oscar por “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, outra importante peça da cultura pop atual que examina fissuras sociais e emocionais causadas pelo racismo — não foi recebido com empolgação pela crítica daquela época. Anatole Broyard, por exemplo, escreveu no New York Times que o tema de “Rua Beale” é “datado”, sugerindo que Baldwin deveria “largar o osso” dos protestos dos direitos civis da década anterior. Mesmo o fato de ter se tornado best-seller não catapultou o livro ao sucesso dos trabalhos anteriores.

A mana começou a me chamar de Jezebel depois que arranjei o emprego na seção de perfumes da loja de departamentos onde trabalho agora. A loja achou que era bem ousado, bem progressista, dar essa função a uma moça negra. Fico atrás da porra do balcão o dia inteiro, sorrindo até meus dentes de trás doerem, deixando que as velhas e cansadas senhoras cheirem as costas da minha mão. A mana fala que eu chego em casa mais perfumada que qualquer puta da Louisiana.

“O livro faz um retrato muito duro da realidade americana, mas podemos facilmente traçar um paralelo com o Brasil de hoje”, diz Alice Sant’Anna, editora da obra na Companhia das Letras. “Baldwin retrata a desigualdade, a injustiça e a opressão de maneira única, complexa, com uma ampla gama de nuances. Ele era um escritor que podia tratar dos temas que bem entendesse, com total liberdade, sem precisar se ater ao que esperavam que ele fizesse.”

A nova casa de Baldwin no Brasil está tirando o pó das edições nacionais do autor, devolvendo-as revigoradas às lojas com novas traduções — a de Rua Beale é de Jorio Dauster — e projeto gráfico de Daniel TrenchTerra Estranha e O Quarto de Giovanni também foram retrabalhados.

O filme de “Rua Beale” estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (7), com distribuição da Sony. Assista ao trailer abaixo.

‘Algo está começando a se quebrar’

Nascido no Harlem em 1924, Baldwin cresceu com mais nove irmãos, a mãe e o padrasto, em uma família pobre. Ele dizia que o padrasto, um pregador da Igreja Batista a quem o menino chamava de “pai”, o tratava com mais dureza do que os irmãos. Aos dez anos, ele já se destacava na escola por demonstrar aptidão para ler e escrever. Após escrever uma peça de teatro escolar, a professora ficou tão impressionada que se ofereceu a levar Baldwin para ver peças; o padastro não gostou da ideia, pois a professora era branca.

Na adolescência, Baldwin percebeu que era gay e tinha tendências suicidas. Para cursar o colegial, ele conseguiu uma vaga na DeWitt Clinton High School, no Bronx, uma escola só para garotos que era bastante conhecida pela alta qualidade do ensino e por ter majoritariamente alunos judeus cujos pais eram de esquerda. Baldwin começou a colaborar com a revista literária da escola, The Magpie. Ele não fez faculdade.

Em 1948, sua presença em um restaurante em Nova Jersey que não aceitava negros foi impedida. Enraivecido, o escritor reagiu atirando um copo contra a garçonete, que atingiu e quebrou um espelho do bar. Ele decidiu deixar os EUA e foi viver na França, onde mergulhou na contracultura local.

Achei que não ia ser muito complicado, mas, cara, este país realmente não gosta de preto. Odeiam tanto os pretos, cara, que preferem alugar [um apartamento] pra um leproso. Juro.

Em 1956, foi lançado “O Quarto de Giovanni”, que mesmo antes do movimento dos direitos LGBTQ+ ganhar corpo e voz, trazia um protagonista bissexual apaixonado por um rapaz. O romance levanta outros temas, como exílio e crise existencial.

Como se atendesse a um chamado, Baldwin retornou aos EUA no ano seguinte, ao perceber que o movimento dos direitos civis crescia cada vez mais, liderado por Luther King e Malcolm X. O escritor já tinha renome na classe intelectual americana e fez a ponte entre brancos famosos e o movimento. Mesmo sendo assíduo e contumaz na militância por muitos anos, ele não era visto com bons olhos por Malcolm X e, posteriormente, pelos Panteras Negras, dado o fato de ser gay.

 

Com projeto gráfico de Daniel Trench, livros de James Baldwin voltam às lojas pela Companhia das Letras em novas edições

“Houve uma quebra no contrato social da vida no Ocidente”, disse Baldwin em uma de suas últimas entrevistas, em 1987, o mesmo ano em que morreu em decorrência de um câncer no estômago. “Algo está começando a se quebrar. Está claro para mim que, o que nós chamamos de vocabulário político desta época, não pode atender as necessidades desta época. Precisamos encontrar uma maneira de ir além de nossos hábitos debilitantes.”

Glaude reflete que estas palavras do autor podem descrever “facilmente” os tempos atuais. “Na verdade, elas devem descrever, porque nós falhamos ao ouvir o que Baldwin disse e veja só onde estamos agora. Ainda estamos nessa roda de hamster, correndo em círculos e círculos”.

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Divulgação (Companhia das Letras)


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