Inspiração

Linchada por imprensa e ‘haters’ por transar nas Olimpíadas, saltadora brasileira conta sua versão ao UOL

por: Kauê Vieira

Ingrid Oliveira deu um depoimento contundente sobre como o machismo pode acabar com a vida de uma pessoa. No UOL, a atleta dos saltos ornamentais mostrou que antes de tudo é ser humano como você.

Ela ficou conhecida não pelo talento, mas por ter transado. Isso mesmo, a jovem foi achincalhada por ter feito sexo em seu alojamento com o atleta da canoagem Pedro Henrique Gonçalves. O fato aconteceu durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

“Eu fui detonada pelo mundo inteiro. Eu fui assediada. Recebi pornografia. Recebi proposta para fazer programa – sexual, não de televisão. Eu perdi trabalhos. Fui atacada por jornais do mundo inteiro. Na Wikipédia, eu fui definida como a ‘A menina que fez salto com vara’”, escreve.

Ingrid teve a vida revirada por causa do machismo

Ingrid negou os fatos expostos pela imprensa de que havia expulsado Pedro do quarto. Ela diz ainda saber quem vazou a história, mas prefere não contar. “Eu sei quem foi e não vale a pena dizer. Também não tenho nada de ruim para falar do Pedro. Ele me apoiou totalmente, o tempo todo. Não foi machista”.

Ingrid Oliveira está com 22 anos. Ou seja, a garota nascida em 1996 foi execrada publicamente por algo corriqueiro na vida de qualquer pessoa. O sexo. O mesmo não acontece com atletas homens. Usain Bolt, por exemplo, ganhou fama de garanhão por dormir com uma mulher durante os jogos do Rio de Janeiro.

Eu não expulsei ninguém do quarto. Eu não fui expulsa da Olimpíada. Colocaram de uma forma que pareço uma desmiolada. As pessoas não sabem, mas nas Olimpíadas isso é normal. Vocês devem ter visto o número de camisinhas que eles distribuíram na Vila. Tinha no refeitório e em todos os lugares. Era para quê? Para fazer balão e sair voando? O Bolt levou a menina sem credencial para o quarto. Um bando de gente fez Tinder para ficar se pegando. Acreditem, lá isso é uma coisa normal. A diferença é que outros casos não vazaram. E não havia acontecido com uma atleta mulher para que pudessem apontar o dedo.

Segundo a atleta, o vazamento da história instaurou um clima de pânico no Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Em meio ao jantar, Ingrid foi chamada com urgência por um dos membros do COB e temeu ser expulsa. Isso não aconteceu, de acordo com a jovem, “porque tínhamos histórico impecável. Meu Deus do céu. Eu não sabia se chorava ou ficava feliz por não ser expulsa.”

A jovem teve que lidar com a repercussão e os rótulos

Os dois, de fato, passaram a noite juntos. Ingrid e Pedro se conheceram pelas redes sociais na época do Pan de Toronto. A relação estreitou durante os Jogos Olímpicos.

“Vamos jogar a real, ele é um cara bonito. Não fui só eu quem achou. A gente ficou uma vez, duas vezes… Antes da cerimônia de abertura, falei para minha dupla e colega de quarto na época que iria levá-lo para lá. Ela deixou. E não era uma coisa que só eu fazia. Ela, e muitos outros, também já fizeram isso em várias competições”, recorda.

As arestas com o COB foram aparadas, no entanto o pior ainda estava por vir. Ingrid Oliveira tinha 19 anos e estava abalada, mas não fazia ideia da exposição que enfrentaria até o desabafo no UOL.

“Depois de alguns dias, o COB nos chamou de novo: ‘vai sair no jornal amanhã’. Eu não dormi. Acordei às 5h, li a matéria e chorei para caramba. Em poucas horas, já tinha saído em todos os lugares do mundo. Alemanha, França, Portugal, Chile, Estados Unidos, Austrália. Meu Instagram passou de 90 mil para 250 mil seguidores. Um bando de gente me xingando, me xingando, me xingando. Eu ia apagando um comentário por um”.

Ofensas e xingamentos. O tribunal das redes sociais não desapontou. Ela foi, de bate pronto, condenada e fadada ao rótulo de (você sabe o que). “Devo ter perdido 15 litros em lágrimas”.

Escreveram coisas nojentas que não quero nem repetir. Sem contar uma porrada de nudes que me mandavam por direct. Eu abria a minha galeria e tinha um monte de nudes.  Teve até um que perguntou: “Quanto você cobra pra fazer sexo comigo?”. Ai que ódio. Minha vontade era excluir da humanidade. Tem essa opção? Abrir um buraco negro e jogar a pessoa lá? Todas as formas possíveis e imagináveis de escrever ‘bunda’ estão bloqueadas no meu Instagram. Bunda, bunnda, bundaa, bundda, buunda. Tem muita coisa… ‘polêmica’, ‘gostosa’. São tantos comentários idiotas que você fica: “Caramba. Não aguento mais ficar apagando esse troço. Que inferno.

Com Pedro foi diferente. Assim como Bolt, ele teve o privilégio de nascer homem em uma sociedade machista. Recebeu elogios dos seguidores. “Saiu uma foto no jornal em que está a cara dele com uma medalha de ouro e a minha foto dentro. O pior comentário que eu via era ‘sem foco’. Sem foco!? Nem um “vadio”. Nem um “puto”. Nada. As pessoas que tratam o homem como ‘o garanhão’ são as mesmas que chamam a mulher de vadia, de puta. Era ridículo”, protesta Ingrid.

Imprensa, machismo e falta de dinheiro

A imagem construída com o auxílio de alguns veículos de comunicação foi terrível para as ambições profissionais e pessoais de Ingrid. Ela só conseguiu se relacionar novamente com um amigo próximo.

Passou a ser vista como ‘piriguete’, perdeu patrocínio e a confiança das pessoas. Tudo isso porque se ‘atreveu’ a fazer sexo consensual com alguém. A atleta recebia dinheiro via Bolsa Atleta, mas enfrenta problemas com a burocracia para renovar o contrato.

Mesmo assim, nunca passou pela cabeça de Ingrid desistir do esporte

“Agora, estou há nove meses sem receber. Quando você se dá conta, está devendo a Deus e o mundo. Quando eu morei na casa da Dani, saí devendo R$ 4 mil por quatro meses. Agora, estou sem nenhuma bolsa”.

A questão é a confiança. Como atleta, ela sabe o trabalho duro que dá chegar em um palco tão importante como os Jogos Olímpicos. Imagine só ter a vida revirada com a velocidade das redes sociais? Os danos psicológicos são imensuráveis.

Um problema que ainda enfrento é que até hoje o povo me coloca na posição de uma pessoa vulgar. Não me vê como atleta. Não me viam antes e muito menos depois da polêmica da Olimpíada Como se eu tivesse escolhido esse papel. Nunca me perguntaram se eu queria ser a musa de alguma coisa. Eu não sou a “Musa do Pan”. Eu não sou a “bonitona dos saltos”. Sou a atleta Ingrid Oliveira.

Órfã de mãe, Ingrid Oliveira treina no Fluminense e muito embora tenha sofrido golpes duros, não passa pela cabeça abandonar o esporte.

“Eu sou feliz. Graças a Deus. Poderia ser mais, se ganhasse na Mega-Sena. Sou feliz pobre, mas sou feliz. Eu sonho com uma medalha olímpica. Eu gostaria do ouro, mas tenho os pés no chão. Nas chinesas tem que jogar urucubaca. Não tem como, gente. Elas não erram. A minha expectativa é de brigar numa final. Eu, com esse salto ajustado, tenho tudo para brigar por uma medalha. E vou levar o salto, aquele da nota zero. Medo eu tenho. Mas sou guerreira”.

Leia a matéria na íntegra no UOL.

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Fotos: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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