Inspiração

O início da folia: como e quando surgiram os principais carnavais do Brasil

Vitor Paiva - 28/02/2019 | Atualizada em - 06/02/2021

Se hoje o Carnaval parece parte natural e essencial do que o Brasil efetivamente é – como uma utopia encarnada da alegria e do convívio que também somos mas que principalmente sonhamos ser – houve um tempo não muito distante em que a festa simplesmente não existia no país, ou que acontecia somente enclausurada nos salões com a timidez e o recato dos bailes europeus. Em meados do século 17 os primeiros bailes de máscara já eram registrados em solo brasileiro, mas o Brasil só foi se tornar Brasil de fato – ao menos nessa perspectiva carnavalesca – no século 19, quando as primeiras festas de rua começaram a acontecer.

Pintura de bailes do passado no Brasil império

Da Bahia para o Rio

O samba nasceu na Bahia mas logo foi para o Rio – e se desenvolveu. O primeiro “Rancho carnavalesco” – que daria origem, anos depois, aos blocos e às escolas de samba – foi o Reis de Ouro, fundado em 1893 na capital carioca pelo pernambucano Hilário Jovino Ferreira como uma derivação da festa da Folia de Reis. O Reis de Ouro apresentou novidades que até hoje permanecem, como a ideia de enredo, o uso de instrumentos de corda e junto de instrumentos africanos como pandeiros, tantãs e ganzás, e o casal de mestre-sala e porta-bandeira. Por mais que o samba e as festas de rua fossem então criminalizados, as autoridades gostaram do Reis de Ouro, e no ano seguinte à sua fundação o rancho veio a desfilar diante do presidente Deodoro da Fonseca.

Hilário Jovino Ferreira, de casaca preta e segurando o chapéu

O apreço do presidente não tirou, no entanto, os desfiles da marginalidade, e Hilário chegou a ser preso algumas vezes por sua dedicação carnavalesca. Reza a lenda que Hilário seria um dos compositores “de verdade” do dito “primeiro samba”, o seminal Pelo Telefone, de autoria atribuída somente a Donga, mas que teria em Hilário, em Sinhô e em Tia Ciata seus parceiros.

Em 1889, aconteceram os primeiros registros de blocos autorizados pela polícia na cidade – como o Grupo Carnavalesco São Cristóvão, Bumba meu Boi, Estrela da Mocidade, Corações de Ouro, Recreio dos Inocentes, Um Grupo de Máscaras, Novo Clube Terpsícoro, Guarani, Piratas do Amor, Bondengó, Zé Pereira, Lanceiros, Guaranis da Cidade Nova, Prazer da Providência, Teimosos do Catete,Prazer do Livramento, Filhos de Satã e Crianças de Família, entre outros. Em 1918, o mais antigo bloco ainda em atividade do Rio de Janeiro foi fundado: o Cordão do Bola Preta é até hoje um dos maiores e mais populares blocos da cidade e do mundo.

O Bola Preta em seu início, com seu fundador, Caveirinha, de pé ao centro

Samba com sotaque paulistano

Em 1914 o carnaval também já era popular em São Paulo, e foi nesse ano que Dionísio Barbosa, que havia morado no Rio e conhecido os primeiros ranchos cariocas, fundou o Grupo Carnavalesco da Barra Funda, conhecido como o primeiro bloco da capital paulista.

Acima, Dionísio Barbosa aos 85 anos; abaixo, o Barra Funda, em 1915, um anos após sua fundação

O Cordão viria a se tornar a Camisa Verde e Branco, até hoje uma das maiores escolas do carnaval paulista. Em 1947 seria fundado na cidade o Bloco Esfarrapado, que é hoje uma espécie de Bola Preta de São Paulo, como o mais antigo bloco paulistano ainda em atividade.

O Esfarrapado de São Paulo

E, então, vieram as escolas de samba

Em 1928, no Rio, a Deixa Falar surgiu para se tornar a primeira Escola de Samba do Brasil, diferenciando-se dos blocos, que já existiam em método, organização e desfile. Seus membros ensinavam para a população e difundiam o samba de cada ano, e o desfile visitava outros bairros a fim de popularizar a agremiação.

Acima, a Deixa Falar em seu surgimento; abaixo, Ismael Silva em um desfile

Fundada e batizada no bairro do Estácio pelo imenso Ismael Silva junto de outros grandes sambistas como Bidê e Marçal, o sucesso da Deixa Falar – que viria a se tornar a atual Estácio de Sá – serviu como estímulo para a fundação de outras escolas ainda na virada dos anos 1920 para os anos 1930, como a Cada Ano Sai Melhor, Estação Primeira (Mangueira), Vai como Pode (Portela), Vizinha Faladeira e Para o Ano Sai Melhor.

Galeria de bambas: da esq. pra dir., Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal – fundadores da Turma do Estácio e da Deixa Falar

O Carnaval só seria reconhecido, oficializado e autorizado pelas autoridades cariocas, porém, em 1935, através de um decreto do prefeito Pedro Ernesto. A essa altura as escolas já eram populares a tal ponto que o jornal Mundo Esportivo, editado pelo jornalista Mário Filho (irmão de Nelson Rodrigues e que batiza hoje oficialmente o estádio do Maracanã) organizou, em 1932, o primeiro desfile competitivo de escolas de samba, vencido pela Mangueira – a Deixa Falar decidiu não participar da competição.

Desfile da Portela em 1932, ainda intitulada Vai Como Pode

Não podemos deixar de falar de Olinda e Salvador

É claro que o carnaval de forma alguma se restringe ao Rio e a São Paulo, e também no início do século, por volta de 1907, nasceu o que hoje ainda é uma das festas mais tradicionais e grandiosas do país: em Olinda, tinha início o Carnaval da cidade através do Clube Carnavalesco Misto Lenhadores. Em 1912 o Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas já trazia o frevo como característica do carnaval pernambucano. Os bonecos de Olinda apareceram pela primeira vez em 1932, com o surgimento do “Homem da Meia-Noite” na festa.

Acima, a sede do Clube Vassourinhas; abaixo, um desfile antigo com o Homem da Meia-Noite

Curiosamente o Vassourinhas seria fundamental no nascimento de outra marca fundamental do Carnaval brasileiro: o surgimento dos trios-elétricos em Salvador. Foi vendo um desfile do Vassourinhas com uma banda de fanfarra pelas ruas de Salvador, e diante da animação que contagiou o povo baiano no ano de 1950, que Dodô e Osmar decidiram subir em um carro, ligar um violão e um protótipo de guitarra na bateria do automóvel e tocar frevo pela cidade a todo volume.

O primeiro Fobica, de Dodô e Osmar em seu primeiro desfile, em 1950

O arremedo de trio incendiou o povo, e em 1952, através de um patrocínio, a dupla elétrica já estava em um carro maior. No ano seguinte, em 1953, com o surgimento de outros grupos, o termo “Trio Elétrico” se consolidaria pela capital baiana.

O trio, já patrocinado, em 1952

A marca da marginalização e perseguição policial ficou para trás, e hoje o carnaval é, em todo o país, além de uma verdadeira indústria, uma festa de dimensões gigantescas. Que o diga o Galo da Madrugada, bloco fundado no Recife em 1978, que disputa com o carioca Bola Preta o título de maior bloco do mundo. Em 2012, ambos os blocos teriam reunido cerca de 2,5 milhões de pessoas, mas o reconhecimento oficial é do Galo, que ostenta seu nome no Livro dos Recordes.

A imensidão do Galo da Madrugada em Recife

Mas o carnaval não precisa ser imenso para ser alegre, e também é composto dos pequenos blocos, das bandas amadoras, dos foliões solitários e das festas espontâneas – é feito, de fato, da alegria popular que se torna senhora do país enquanto reina a folia. Entre a metáfora e o destino, a utopia e a essência, o carnaval, em especial a festa de rua, parece sim propor a alegria e o convívio cutâneo como alternativas viáveis, possíveis e transformadoras para as mazelas que tanto nos endurecem enquanto povo. Em festas por todo o país o carnaval se estende como uma espécie de melhor símbolo nacional, encarnando d que o Brasil de fato é ou poderia ser – ao menos até chegar a quarta-feira.

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Fotos: acervo/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.