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O Oscar ainda passa longe da inclusão. Mas a coisa melhorou bem de 2014 para cá

por: Janaina Pereira

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Quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar deste ano ficou evidente que novos tempos chegaram – finalmente – a Hollywood. A diversidade de gênero e raça, e as temáticas dos filmes que vão além de romances e fatos históricos, chamou a atenção e mostrou que o cinema pode e deve abraçar uma mudança de comportamento, abrindo espaço para todos, sem distinções.

Não é de hoje que o prêmio mais importante da sétima arte vem sendo atacado por sua parcialidade e falta de diversidade. Desde 1929, ano em que o Oscar foi criado, até o ano 2000, 95% das indicações nas categorias de atuação foram para atores brancos. Apenas 5% dos atores e atrizes indicados eram de outros grupos étnicos, como negros, latinos e asiáticos.

Outro fato que vem causando reclamações dentro do mercado cinematográfico é que 94% dos membros da Academia são brancos. Ao longo dos anos, o Oscar poucas vezes premiou negros, e quando isso acontecia era comemorado como ‘histórico’, vide as vitórias de Sidney Potter (1964), Denzel Washington (2002), Halle Berry (2002), Jamie Foxx (2005) e Forest Whitaker (2007), até hoje os atores negros que ganharam a estatueta dourada na categoria principal.

É importante frisar que, entre 2007 e 2017, cinco atrizes negras (Jennifer Hudson, Mo’Nique, Octavia Spencer, Lupita Nyong’o e Viola Davis) venceram o Oscar, mas na categoria coadjuvante – que até o século passado só tinha duas vencedoras negras: Hattie McDaniel (1940) e Whoopi Goldberg (1991). Entre os cineastas, apenas seis nomeações para diretores negros, que nunca ganharam o prêmio, sendo que Steve McQueen foi o primeiro negro a vencer na categoria melhor filme com “12 Anos de Escravidão”, em 2014.

O merecido boicote

Spike Lee durante filmagens de 'Infiltrado no Klan'

Spike Lee durante filmagens de ‘Infiltrado na Klan’

Em seus 91 anos de existência, menos de 1% dos prêmios da Academia foram para negros, somando todas as categorias. Como as coisas pareciam promissoras após 2014, foi de se estranhar que em dois anos consecutivos – 2015 e 2016 – nenhum negro estivesse entre os indicados. Isso não passou despercebido: um grupo de artistas negros boicotou a 88 ª cerimônia do Oscar, em 2016, e foi criado a hastag #OscarSoWhite (Oscar tão branco, em tradução literal), que invadiu as redes sociais desde que os nomeados daquele ano foram revelados.

O primeiro a falar sobre a ausência de negros na premiação mais relevante do cinema foi o cineasta americano Spike Lee, que recebera um Oscar Honorário em 2016, mas não compareceu à cerimônia. Na época, Lee usou seu Instagram para se posicionar. “Para mim, a batalha ‘real’ não está na cerimônia da Academia, mas nos escritórios de direção dos estúdios de Hollywood, nas redes de televisão e de cabo”, escreveu.

A resposta da Academia veio logo, quando sua presidente Cheryl Boone Isaacs – que é negra – anunciou o início de ‘mudanças históricas’ no quadro social até 2020, dobrando o número de minorias entre os votantes. Desde então, 1.500 novos membros, entre mulheres e negros, entraram para o seleto time de pessoas que escolhem quem vai ganhar a estatueta dourada.

Já na edição seguinte, o Oscar teve mais indicados negros, com vitórias expressivas nas categorias filme (“Moonlinght – Sob a Luz do Luar”), atriz coadjuvante (Viola Davis) e ator coadjuvante (Mahershala Ali). Mas foi também naquele ano que outros questionamentos se tornaram mais fortes: a presença das mulheres no cinema e os casos de assédio sexual.

A era #MeToo

Brie Larson de cabeça erguida após na aplaudir o vencedor Casey Affleck

Brie Larson de cabeça erguida após na aplaudir o vencedor Casey Affleck

Se os negros sempre foram minorias no Oscar, o mesmo se pode dizer das mulheres. Até hoje apenas cinco diretoras foram indicadas na categoria melhor diretor, sendo que a única vencedora foi Kathryn Bigelow por “Guerra ao Terror”, em 2010. Ela também é a única mulher a ganhar como melhor filme, entre 13 indicadas ao longo de 91 anos da premiação.

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Em 2015, Patricia Arquette fez um discurso defendendo a igualdade salarial ao receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante por “Boyhood”, “A todas que deram à luz neste país, a todas que pagam impostos, nós temos que lutar por direitos iguais para todos. Está na hora de termos salários iguais de uma vez por todas e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos”, disse.

Patricia levantou um tema que corrói os bastidores da indústria cinematográfica: não é de hoje que as atrizes ganham menos do que os atores, mesmo quando têm maior protagonismo nos filmes. E isso se estende para qualquer setor, em qualquer área e em qualquer profissão.

Além da desigualdade de gênero, o assédio sexual também se tornou foco dos protestos das mulheres que trabalham com cinema. Embora o assédio não tenha distinção de gênero, elas continuam sendo as maiores vítimas. Em 2017, a atriz Brie Larson se recusou a aplaudir Casey Affleck, vencedor do Oscar de melhor ator e acusado de assédio sexual (ele entrou em acordo com a vítima para não ser processado). O posicionamento de Brie repercutiu e a partir daí uma série de denúncias de assédio surgiram, incluindo famosos de Hollywood como James Franco, Morgan Freeman, Dustin Hoffman e Kevin Spacey.

Mas nada foi mais bombástico do que as acusações contra o produtor Harvey Weinstein, que na década de 1990 colocou seu pequeno estúdio, a Miramax, nos holofotes da Academia, se tornando um dos nomes mais poderosos do cinema. Responsável pelo lançamento de nomes como Gwyneth Paltrow e Jennifer Lawrence, Harvey recebeu 75 acusações de assédio sexual e estupro, está preso e pode ser condenado à prisão perpétua.

As denúncias de assédio sexual na indústria cinematográfica geraram os movimentos #MeToo e #TimesUp, que chegaram ao tapete vermelho das premiações no ano passado. Mas a desigualdade continuou entre os vencedores do Oscar: embora o melhor filme, “A Forma da Água”, tenha uma mulher como protagonista, apenas 23% dos indicados em 2018 eram do sexo feminino. Mas, vale ressaltar, pela primeira vez uma mulher concorreu na categoria melhor fotografia: a americana Rachel Morrison, pelo drama “Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi”.

O Oscar mais LGBT da história

'A favorita' levanta a bandeira LGBT no Oscar 2019

‘A Favorita’ levanta a bandeira LGBT no Oscar 2019

No início de fevereiro, quando todos os nomeados à estatueta dourada participaram do tradicional almoço pré-Oscar, a foto oficial do evento mostrou uma grande quantidade de mulheres. “Esse é o ano com maior número de mulheres indicadas. Ainda estamos longe da paridade e precisamos melhorar, mas a igualdade de gênero é uma questão de toda a indústria, não apenas da Academia”, disse John Bailey, atual presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Além do maior número de mulheres, negros e latinos também são destaque na premiação que acontece neste dia 24. Um dos favoritos, “Roma”, de Alfonso Cuáron, é o primeiro longa falado em espanhol a concorrer ao Oscar de melhor filme – e o quinto a concorrer como filme e filme estrangeiro. Até o momento, nenhuma produção não falada em inglês ganhou o principal prêmio. Seria hoje o dia de quebrar esse tabu?

Certo é que vai ser difícil tirar a estatueta de melhor diretor das mãos de Cuáron. Ele é o favorito absoluto na categoria, podendo dar ao México o quinto prêmio de direção em seis anos – o próprio Cuáron iniciou esse caminho em 2014, ao vencer por “Gravidade”. Seus amigos Alejandro Gonzalez Inãrritú (com dois Oscars) e Guillermo Del Toro (vencedor do ano passado) são os outros mexicanos consagrados como melhor diretor pela Academia. E, pela primeira vez na história do evento, três dos cinco candidatos à melhor direção não têm origem americana ou inglesa. Além de Cuáron, foram nomeados o polonês Pawel Pawlikowski (de “Guerra Fria”, que também concorre em filme estrangeiro) e o grego Yorgos Lanthimos (de “A Favorita”, outro forte concorrente, indicado em 10 categorias).

A nomeação de Alfonso Cuáron já é um feito e tanto para o cinema latino, que nos últimos anos vem ganhando bastante espaço em Hollywood. Ainda que as outras vitórias tenham sido com filme falados em inglês, tanto Cuáron quando Iñarritu e Del Toro sempre enalteceram suas origens e discursaram a favor dos imigrantes. E a diversidade do Oscar neste ano não para por aí: Yalitza Aparício é a primeira indígena na história da premiação, concorrendo como melhor atriz.

Disposto a ter a inclusão como um de seus legados, o Oscar 2019 foi além: segundo a organização GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation), este foi o ano com mais indicações de histórias LGBT de todos os tempos. Dos oito concorrentes a melhor filme, quatro possuem essa temática: “Bohemian Rhapsody”, biografia de Freddie Mercury, vocalista do Queen, que era bissexual; “Green Book: O Guia”, que aborda a homossexualidade do músico Don Shirley (Mahershala Ali); “A Favorita”, que gira em torno de três personagens femininas e o triângulo amoroso formado entre elas; e “Nasce Uma Estrela”, em que a protagonista Ally (Lady Gaga) trabalha em um clube de drag queens, fato que tem relevância durante a trama.

Ainda é muito, muito pouco. Mas é um começo

'Roma' tenta ser o primeiro filme não falado em inglês a vencer Oscar de Melhor Filme

‘Roma’ tenta ser o primeiro filme não falado em inglês a vencer Oscar de Melhor Filme

Embora a diversidade pareça um caminho sem volta em Hollywood, os números mostram que ainda há muito o que fazer na indústria cinematográfica. Uma análise feita pela Iniciação de Inclusão da University of Southern California, indicou que dos 100 melhores filmes de 2018, 16 deles foram dirigidos por negros, com apenas uma mulher: Ava DuVernay, de “Uma Dobra no Tempo”.

A pesquisa ainda mostrou que dos 1100 longas de maior bilheteria de 2007 a 2018, cerca de 4% tinham mulheres como diretores. Asiáticos representaram apenas 3,6% dos 100 diretores com maior bilheteria. Excluindo atrizes, 17% de mulheres trabalham com cinema – nesta porcentagem estão diretoras, produtoras, roteiristas e editoras. Desse percentual, menos de 2% são negras.

O curioso é que a mesma análise aponta que as mulheres compraram 52% dos ingressos em 2017. Outro dado é que metade do público que frequenta o cinema nos Estados Unidos não são brancos. Nas telas, porém, esses números não se repetem: apenas 33% dos filmes lançados em 2017 tinham mulheres como protagonistas, e 14% eram protagonizados por negros, latinos ou asiáticos.

Se o Oscar vai ajudar a modificar esses números, ainda é cedo para dizer. Mas certamente a premiação já está seguindo um novo caminho.

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Divulgação


Janaina Pereira
Jornalista e publicitária. Especializada em cultura - principalmente cinema - e gastronomia. Desde 2009 cobre os principais festivais da sétima arte, como Veneza, Cannes, San Sebastian, Berlim, Rio e Mostra Internacional de São Paulo. Participou dos livros "Negritude, Cinema e Educação" (escrevendo sobre o filme "Preciosa", de Lee Daniels) e "Guia de Restaurantes Italianos" (escrevendo sobre 45 restaurantes ítalo-brasileiros de São Paulo).


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