Roteiro Hypeness

Por que Toronto é uma das cidades mais diversas do mundo | Viaja Bi! #7

por: Rafael Leick

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Nos últimos tempos, muito se discute sobre um termo que esteve por aí por tanto tempo, mas só agora ganhou os holofotes, por debates controversos: diversidade. Essa palavrinha (que, pra alguns, virou palavrão) tem inúmeros significados novos, alguns bastante distorcidos.

Na minha concepção pessoal, sempre penso na diversidade como um grande caldeirão preparando uma sopa de letrinhas. Mas, como é diverso, além das letrinhas, você ainda inclui uma batata aqui, um tempero ali pra dar um gostinho especial.

Expandindo esse conceito pra cidades, que é meu interesse aqui, a gente pode imaginar grandes centros urbanos, com muitas vertentes de arquitetura, muitos nuances de cores e estilos, muitas opções de atividades e, por que não, muitos tipos e biotipos de pessoas.

Eu visitei Toronto em dezembro de 2018 e fiquei impactado. Quando se pensa em Londres ou Paris, facilmente lembramos do Big Ben ou da Torre Eiffel, elementos que caracterizam bastante a cidade. Ou das estações de metrô ou bistrôs, por exemplo. Quando pensamos em Toronto, pode ser um pouco mais difícil de identificar um símbolo ou marca. Para alguns, talvez venha à mente a CN Tower, que foi a torre mais alta do mundo por vários anos.

Centro de Toronto, com a CN Tower em destaque - Foto: Tourism Toronto

Centro de Toronto, com a CN Tower em destaque – Foto: Tourism Toronto

Mas sabe por que é mais difícil sintetizar Toronto ou pasteurizar sua cultura? Porque ela é extremamente diversa e é aí que mora o maior brilho da cidade.

Pra você ter uma ideia, o Censo 2016 do Canadá mostra que o país, que já tem uma alta população imigrante, tem quase 22% de sua população formada por pessoas que não nasceram lá. Se fecharmos um pouco mais, só pra Toronto, esse número mais do que dobra, totalizando 47%! Somando as pessoas que passam temporariamente pelo país, como turistas, por exemplo, sobe pra mais de 50%. Ou seja, mais de metade das pessoas circulando por Toronto não é de lá.

E eu comprovei isso na prática. Foi difícil encontrar canadenses por lá. Durante os 5 dias que passei na cidade, eu conheci o marido de um brasileiro que trabalha no The 519, um centro comunitário LGBT+, e mais uns 10 outros canadenses, acredito. Talvez um pouco mais porque não perguntei a nacionalidade de cada pessoa que conheci. Mas, alguns eram mais óbvios pelos traços étnicos e outros eu fui cara de pau e perguntei mesmo. Eu estava curioso, me deixa! 😉

Na lista de nacionalidades que conheci tinha brasileiro, estadunidense, paquistanês, indiano, egípcio, italiano, alemão, japonês, chinês, colombiano, entre outros…

Mural grafitado ao lado do centro comuntário LGBT+ The 519 - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Mural grafitado ao lado do centro comuntário LGBT+ The 519 – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Essa mistureba gostosa de gente traz um clima muito diferente para a cidade. Eu já visitei outras grandes metrópoles bastante diversas, como Berlim ou Londres, mas, sendo sincero, Toronto ganhou de todas elas. Nessas outras cidades, a gente sente que tem gente de todo lugar, sim, mas parece que as pessoas trazem um pouco da sua bagagem sem se misturar com o local.

Londres tem muita gente de várias origens, mas todos são quem são e Londres é quem é. Toronto tem ainda mais gente de todo canto e permite que cada cultura entre nas veias da cidade e a torne quem é.

Deu pra entender? É justamente a diversidade que faz Toronto ser tão incrível. E isso é muito difícil de sintetizar em uma imagem ou símbolo só. Tanto que o lema deles, real oficial, é “Diversidade Nossa Força”. E isso não é só um discurso da boca pra fora em fórum mundial, não. É aplicado na prática.

 

Canadá para os LGBT+

Casal gay se beija na Nathan Phillips Square, em Toronto - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Casal gay se beija na Nathan Phillips Square, em Toronto – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Falando especificamente da população LGBT+, dentro da qual me incluo “lyndamentchy”, o país é um paraíso. Se você analisar a história LGBT+ do Canadá como um todo, verá que a linha do tempo não foram só flores, não. Até 1969, era crime ser gay no país e nem se falava sobre “essas coisas aí” de trans, bi e outras letrinhas.

O processo de descriminalização da homossexualidade teve início em 1967, com um projeto de lei para reforma do Código Penal apresentado pelo ministro da justiça Pierre Trudeau (pai do atual primeiro ministro Justin Trudeau).

Na época, ele disse uma frase, que ficou célebre: “não há lugar para o Estado nos quartos da nação”. Dois anos depois, ser gay não era mais crime. Daí por diante, os direitos LGBT+ no Canadá foram evoluindo até chegar no lugar de destaque que o país tem hoje.

A história dos Trudeau com os LGBT+ foi seguida pelo atual primeiro-ministro Justin Trudeau que, em 2016 foi o 1º primeiro-ministro do Canadá em exercício a participar de um evento do orgulho na Parada LGBT+ de Toronto. No mesmo ano, anunciou recomendação de perdão concedido postumamente à última pessoa presa no país por homossexualidade.

Skyline de Toronto - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

No ano seguinte, pediu desculpas publicamente à comunidade LGBT+ na Câmara dos Deputados e começa um “processo de reparações” que, entre outras coisas, destruiria registros criminais de pessoas condenadas por sodomia, atentado violento ao pudor e relações anais (sim, você leu corretamente) e propôs um acordo de 110 milhões de dólares canadenses em uma ação coletiva que beneficiaria funcionários públicos e militares que perderam seus postos por conta da política discriminatória baseada na orientação sexual.

No finzinho de 2018, enquanto eu ainda estava representando o Viaja Bi! nessa viagem a Toronto, o primeiro-ministro aprovou lançamento de uma moeda especial de 1 dólar canadense para celebrar os 50 anos do fim das sanções criminais contra a homossexualidade. Ela será lançada em 2019.

 

E Toronto para os LGBT+?

Faixa de pedestre colorida na Church Street, a rua gay de Toronto - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Faixa de pedestre colorida na Church Street, a rua gay de Toronto – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Bom, depois de deixar bem claro que os LGBT+ podem sobreviver e viver tranquilamente hoje no Canadá, com boa parte de seus direitos garantidos, o que Toronto pode oferecer pra esse público?

O bairro Church and Wellesley é conhecido como o “gaybourhood”, ou seja, o bairro gay de Toronto. A Church Street é a rua mais gay da cidade. Literalmente… Você verá faixas de pedestre com as cores do arco-íris, que também estamparão as bandeiras penduradas em todas sua extensão e o logotipo de lojas como Starbucks ou The Body Shop, além de pet-shops e salões de beleza.

É ali que se concentra também a maior parte do fervo noturno, que vai das baladas à principal sauna da cidade, Steamworks. Foi em alguns dos bares e baladas dessa região que o famoso seriado gay “Queer as Folk” foi gravado. Pubs como Woody’s e Sailor e a balada hoje chamada de Fly 2.0 serviram de cenário para o clube fictício Babylon. A balada Crews and Tangos é talvez o maior point por conta dos famosos shows de drag queen. Há também restaurantes como o The Hair of the Dog, com garçons bonitinhos e bons sanduíches.

Mural com temática LGBT+ na lateral de salão de beleza também usando as cores do arco-íris - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Mural com temática LGBT+ na lateral de salão de beleza também usando as cores do arco-íris – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

Há também alguns hotéis que podem ser interessantes para o público LGBT+. Eu fiquei hospedado no Intercontinental Yorkville, que é lindo e dá pra ir caminhando pra Church Street (20min) e pra vários outros pontos turísticos, como o ROM Museum (só atravessar a rua) e o Bata Shoe Museum, um museu de sapatos bafônico que não consegui visitar dessa vez. A desvantagem talvez fique pelo preço, já que Yorkville é o bairro mais chique da cidade.

Tem outros dois hotéis que vale a pena mencionar. O Bisha Hotel, que dispensa justificativa por conta do seu nome, e tem decoração bem moderna, divertida, colorida, mas de bom gosto. Eu não conheci os quartos, mas jantei no restaurante Kōst, que fica no 44º andar e tem garçons gatos, comida boa, preço razoável e uma vista incrível da cidade. Vale a pena. E fica do ladinho da CN Tower. Dá pra dar close na piscina no rooftop com vista pra torre.

O Gladstone Hotel tem a vantagem de ficar na Queen Street West, a segunda área gay de Toronto e aos domingos tem uma atração imperdível. Rola, das 11h às 13h um drag brunch, um brunch que tem a drag queen Miss Moço (de origem portuguesa) fazendo seus shows e tendo, a cada domingo, uma drag convidada diferente.

A drag queen Miss Moço comanda o drag brunch do Gladstone Hotel, em Toronto - Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

A drag queen Miss Moço comanda o drag brunch do Gladstone Hotel, em Toronto – Foto: Rafael Leick / Viaja Bi!

 

É ou não é uma cidade incrivelmente diversa? Se não se convenceu, vá visitar. Acho muito difícil não gostar.

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Rafael Leick
Criador do Viaja Bi!, primeiro e principal blog de viagens LGBT do Brasil. Publicitário paulistano, fez intercâmbio em Londres e lá começou a escrever sobre viagem. Trabalhou com órgãos de promoção turística da Argentina, Espanha, Reino Unido, Curaçao, entre outros, e empresas como AccorHotels. Ministrou palestras no Brasil e no Peru e foi Diretor de Turismo da Câmara LGBT do Brasil. E, claro, é pai do Lupin.

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