Matéria Especial Hypeness

Racismo e a falta de investimento fazem do Brasil o país mais violento do mundo para professores

por: Kauê Vieira

A proximidade entre racismo e a realidade de professores dentro e fora das salas de aula é maior do que se imagina. A discriminação racial potencializa a incitação da violência no ambiente escolar, que se tornam ambientes hostis e inóspitos para educadores e alunos.

O Instituto AMA Psique e Negritude realizou um longo estudo sobre os efeitos psicossociais do racismo na sociedade. O AMA é pautado pelo enfrentamento do racismo, da discriminação e do preconceito e atua de duas formas: politicamente e psicologicamente.

A longa exposição à situações de desvalorização causa efeitos múltiplos de dor, angústia, insegurança, auto-censura, rigidez, alienação, negação da própria natureza e outros, deixando marca profundas na psique.

Em SP, professores ficaram três anos sem aumento, Adriana Gasparini é psicóloga clínica e em entrevista ao Hypeness, disse que o preconceito e a exclusão social contribuem para o crescimento da evasão escolar. Contudo,  a profissional alerta para a desconstrução de uma estrutura que prejudica o trabalho dos professores.  

“A meu ver, questões estruturais e governamentais não priorizam  o trabalhador da educação, precarizando as condições de trabalho e as consequências afetam a saúde do trabalhador”.

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Para Adriana, o plano de educação deve investir mais no trabalho psicológico junto aos educadores e diretores escolares. “Promoção de ações de apoio e acolhimento ao profissional, orientação para motivar e perceber seu potencial, estimular a reflexão e criar estratégias para lidar com temas estressantes, incentivando a participação dos alunos e família e comunidade; realizando parcerias e apoio para propiciar mudanças no ambiente escolar, que contribuam para melhorias na saúde psíquica do educador”, finaliza.

No Brasil, os números de professores vítimas de casos de transtorno mental dobrou nos últimos anos. De acordo com a Globo News, os que lecionam em escolas estaduais são os mais afetados com os distúrbios. Entre 2015 e 2016, os casos subiram de 25 mil para 50 mil professores com algum tipo de problema. Isso faz do Brasil o país com o maior índice de violência contra educadores. É o que diz a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

SP lidera os registros de professores com problemas de saúde mental

“Violência; desrespeito, intenso envolvimento emocional com os problemas dos alunos; desvalorização do trabalho; dupla jornada de trabalho ( tempo para preparação de aulas); falta de motivação para o trabalho; exigência de qualificação do desempenho;classes numerosas; inexistência de tempo de lazer, extensiva jornada, estresse e esgotamento emocional. Uma pesquisa feita pela Unb mostra que 15,7% dos professores apresentam síndrome de Bornout”, analisa Adriana.

A síndrome de Bornout é comumente associada aos educadores por apresentar características como o esgotamento físico e psíquico. Os efeitos causam dores de cabeça, alterações no apetite, insônia e sensação de segurança. “Estes sintomas somatizam no corpo e desenvolvem patologias sendo necessário acompanhamento médico e psicológico”, alerta a psicóloga clínica Adriana Gasparini.

Para tentar conter os avanços do problema, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado (CE) aprovou o projeto (PLS 557/2013), de autoria da então senadora Marta Suplicy, que prevê a obrigatoriedade do atendimento psicológico aos alunos e professores de escolas públicas. O intuito é prevenir o bullying e a pressão vivida pelos educadores.

Psicólogos sublinham a importância da melhoria das condições de trabalho dos educadores

Adriana ressalta que os métodos devem abarcar técnicas de psicologia, pensando em dinâmicas de grupo e sistemas de apoio ao professor, como o trabalho junto aos membros das equipes de docência, coordenação psicológica e direção.

“Atualmente, existem algumas estratégias como o professor mediador escolar. Ele atua nas escolas estaduais com o objetivo de mediar conflitos entre alunos X alunos, professor X aluno e outros atritos do ambiente escolar, trazendo o diálogo, escuta e auxiliando os colegas. Como forma de pensar o tema, surgiu o  Seminário de Proteção Escolar (SP), que abordou temas como a violência escolar e de que forma os professores podem se defender. As Redes de Proteção pensam estratégias para casos complexos que acontecem nas escolas. Essas redes são compostas por educação, saúde e assistência social, onde a troca dos saberes permite lidar e pensar em outras possibilidades”.

Educação inclusiva

Em 10 anos, o Brasil presenciou uma mudança profunda no sistema educativo. A adoção de políticas públicas de inclusão social e racial proporcionaram aumento significativo na quantidade de pessoas dentro das salas de aula.

No entanto, ainda são poucos os projetos de democratização do ensino. Ainda nos dias de hoje, o ensino de qualidade, em muitos momentos, está associado com o poder aquisitivo. A falta de investimentos reais do Estado em uma estrutura de trabalho digna para o aprendizado estimula o aumento da violência e consequentemente a deterioração da saúde mental dos professores.

Eliana Oliveira é pedagoga, mestre em educação com doutorado em antropologia social e trabalha com educadores para a sensibilização das discriminações raciais dentro das escolas. Em conversa com o AMA, a pedagoga sublinha a urgência da escola se entender com um espaço de diversidade.

“A cultura brasileira está na sala de aula, principalmente na escola pública. Portanto, caberia à escola o compromisso fundamental de trabalhar a promoção da igualdade racial. Para se abrir à diversidade tem que haver diálogo. Diálogo entre as culturas”.

A luz no fim do túnel pode estar associada com a tecnologia. Agora, como ressalta Adriana, não adianta instaurar uma rede tecnológica avançada sem dar as condições devidas aos educadores.

Isso fica visível ao analisar São Paulo, onde são concedidas 372 licenças de saúde por dia, 27% delas por transtorno psicológico. No Estado mais rico da nação, um educador recebe em média R$2,5 mil reais ao mês, entretanto, segundo o Sindicato dos Professores paulista, a remuneração ideal deveria estar na casa dos R$ 3 mil.  

Não deixemos de pensar no papel exercido pelo racismo na deterioração da saúde mental

“O professor tem mais recursos pedagógicos para utilizar nas aulas, mas outras questões são necessárias para ajudar no combate, como um programa de cuidados ao educador, condições melhores de trabalho e sensibilização junto aos pais e alunos sobre o papel do professor na educação atual”.

O Hypeness falou sobre um exemplo positivo de integração entre alunos e professores. Wanderson Flor do Nascimento, professor de filosofia da Universidade de Brasília, criou o site Filosofia Africana, oferecendo obras de filósofos do continente.

O trabalho promove uma integração exemplar entre alunos e professores, mostrando que sim, é possível fazer das escolas ambientes de sanidade mental. Mais do que isso, dá pra transformar os espaços educativos em verdadeiras usinas de conhecimento.

“Considerando que a saúde e a educação são condições importantes para o desenvolvimento humano e social, é essencial atentar aos professores. Enfrentando os problemas e demandas atuais, esses profissionais precisam de competência pedagógica, social e emocional para estimular a construção crítica e reflexiva dos indivíduos para que aprendam a ser e a conviver na sociedade como sujeitos conscientes e participativos. Para isso, é fundamental que também estejam física e mentalmente saudáveis”.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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