Debate

Relato de Maria Flor sobre racismo e namoro com Jonathan Haagensen levanta debates importantes

por: Redação Hypeness


O textão escrito por Maria Flor nas redes sociais sobre a relação com Jonathan Haagensen é outra oportunidade para discutir racismo além da superfície. Dando detalhes sobre o relacionamento, a atriz citou a forma nem tão sutil assim de como o preconceito se manifesta.

“O Jonathan morava e ainda mora no Vidigal. Ele é negro, eu sou branca. A gente se conheceu em um filme e se apaixonou. Isso não tinha nada a ver com a nossa cor. E lá atrás, eu com 19 e ele com 20 anos, a gente não pensou sobre isso”, pontuou.

Ela narrou algo que muitos casais interraciais vivem. O estranhamento. Olhares tortos determinados em reprovar a equidade racial, são alguns dos ingredientes constrangedores. No caso de Jonathan, morador da comunidade do Vidigal, o cobertor do preconceito encurta.

Mais uma chance de tomar atitudes efetivas contra o racismo

“A gente foi percebendo que não era normal a gente junto em um restaurante, que não era comum a gente fazendo compras no mercado, que não era tranquilo ele dirigir o carro porque seríamos parados na blitz se ele estivesse dirigindo e não eu”.

A sociedade parece ter entrado em consenso acerca da descrição do racismo à brasileira. Não tem nada de delicadeza. O preconceito não pede licença e tem a violência como grande aliada. Em 2016, a população negra registrou taxa de homicídios de 40,2 mortes por 100 mil habitantes. O número entre os brancos foi de 16, mostra o Atlas da Violência.

Existem outros métodos violentos menos explícitos. A seletividade policial na hora da abordagem é certeira. E, caro leitor, deixa sequelas.

Além de acabar com relações, o racismo não tem nada de sutil

“Eu lembro de um dia que fomos parados na entrada do Vidigal por policiais. Jonathan disse que era morador, mas os policiais mandaram ele descer do carro e começaram a revista-lo. Aquilo era humilhante. Eu na minha jovem arrogância desci do carro e gritei com o policial. E perguntei indignada o que ele estava fazendo. O Jonathan pediu para eu parar, mas eu gritei e perdi a mão. E o policial nos levou para a delegacia por desacato. Eu nunca vou esquecer o rosto do Jonathan indo para a delegacia”, recorda Maria Flor.

Maria Flor encerrou debatendo racismo estrutural. Foi um pedido para a mudança efetiva (se reflete demais) diante da ausência de rostos e corpos negros em espaços de poder.

“E sim, temos que olhar para o lado e perceber que a não existência de um negro na escola do nosso filho não é normal, que não ter um negro no cinema ao nosso lado não é normal, não ter um negro num restaurante não é normal, não ter um negro no ambiente de trabalho não é normal. E não pensamos nisso. Não percebemos nosso próprio descaso diário. E não percebemos o racismo estrutural que existe em nós. Hoje eu acho que nosso namoro terminou pela nossa incapacidade de perceber essa gigante distância social que existe na cor da nossa pele”, finalizou.

O racismo no lugar de fala

Pensando em ausência, por onde anda Jonathan Haagensen? O último trabalho do ator de 35 anos foi no seriado Ilha de Ferro, exibido em 2018 pelo GShow. Assim como colegas do filme Cidade de Deus, não teve oportunidades à altura do sucesso da produção de Fernando Meirelles.

Some a falta de chances ao alcance do relato de Maria Flor. A postagem da atriz rendeu mais de 100 mil likes e manchetes nos principais portais do país. Não se trata de condená-la por discutir racismo. A questão é que a repercussão é infinitamente menor quando um ator ou uma pessoa negra ‘comum’ toca na ferida. Surge a palavra da moda: ‘mimimi’.  

Uma matéria publicada pelo Hypeness foi criticada por se recusar a encarar com naturalidade Alexandre Rodrigues trabalhando como motorista de transporte por aplicativo. Rodrigues é ninguém menos que o Buscapé de Cidade de Deus.

A máxima se repete na história de Maria Flor e Jonathan. Você acredita em uma repercussão de grandes proporções caso os papeis se invertessem?

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Durante três anos eu namorei o ator @jonathanhaagensen O Jonathan morava e ainda mora no vidigal. Ele é negro, eu sou branca. A gente se conheceu em um filme e se apaixonou. Isso não tinha nada a ver com a nossa cor. E lá atrás, eu com 19 e ele com 20 anos, a gente não pensou sobre isso. Mas estava lá, o tempo todo estava lá. E a gente foi percebendo que não era normal a gente junto em um restaurante, que não era comum a gente fazendo compras no mercado, que não era tranquilo ele dirigir o carro porque seríamos parados na blitz se ele estivesse dirigindo e não eu. Eu lembro de um dia que fomos parados na entrada do Vidigal por policiais. Jonathan disse que era morador, mas os policiais mandaram ele descer do carro e começaram a revistá-lo. Aquilo era humilhante. Eu na minha jovem arrogância desci do carro e gritei com o policial. E perguntei indignada o que ele estava fazendo. O Jonathan pediu para eu parar, mas eu gritei e perdi a mão. E o policial nos levou para a delegacia por desacato. Eu nunca vou esquecer o rosto do Jonathan indo para a delegacia. Tudo que ele tinha passado a vida evitando eu tinha feito acontecer por um capricho meu, por não olhar para tudo a minha volta e perceber que a coisa era muito mais grave. Que abaixar a cabeça tinha sido a realidade dele e eu achei que poderia salvá-lo disso. Eu, branca, garota da zona sul do Rio de Janeiro, achei que podia fazer justiça. Mas não, eu não podia, e eu só fiz ele passar por uma humilhação que eu jamais entenderia. Jamais. E mesmo tendo visto e vivido a experiência de ser olhada nos lugares por estar de mãos dadas com um negro, eu jamais entenderei. E sim, temos que olhar para o lado e perceber que a não existência de um negro na escola do nosso filho não é normal, que não ter um negro no cinema ao nosso lado não é normal, não ter um negro num restaurante não é normal, não ter um negro no ambiente de trabalho não é normal. E não pensamos nisso. Não percebemos nosso próprio descaso diário. E não percebemos o racismo estrutural que existe em nós. Hoje eu acho que nosso namoro terminou pela nossa incapacidade de perceber essa gigante distância social que existe na cor da nossa pele.

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Fotos: Reprodução


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