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Série sobre movimento indígena mostra verdadeiros heróis protetores da Amazônia

por: Brunella Nunes

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O que você sabe sobre os povos originários do Brasil? Os grupos étnicos chegaram aqui primeiro, mas infelizmente são ignorados por boa parte da sociedade e dos governantes, que sempre dão um show de ignorância sobre o assunto. Para expandir o olhar e aproximar as pessoas do tema, a série Guerreiros da Floresta mostra, a partir de 20 de fevereiro, quem são os verdadeiros heróis que protegem a Amazônia.

Seguindo uma narrativa documental, a série de 13 episódios produzida pela Santa Rita Filmes está na grade de programação do Canal Futura, com exibição até o dia 15 de março. O público pode acompanhar as etnias Yanomami, Huni Kuin e Suruí, que lutam pela herança de seus povos, pela preservação de uma das maiores florestas do mundo e pela própria sobrevivência.

Com causas reconhecidas internacionalmente, os guerreiros são Davi Kopenawa, Almir Suruí e Ninawa Inu Huni Kuin, lideranças indígenas presentes nos estados de Roraima, Rondônia, do Acre e do Amazonas. “Sabemos que a Amazônia não vai respirar em paz e fomos atrás de pessoas que têm muito a dizer, mas que estão com suas vidas ameaçadas”, declarou a diretora Andrea Pilar Marranquiel. “A gente não tem como falar desse tema sem falar de visibilidade. Durante muito tempo nós tornamos esses caras aqui invisíveis. Somos responsáveis por grande parte do que acontece na floresta. As notícias não estão apenas aqui no asfalto”.

Deixando de lado a terceira pessoa para dar voz, de fato, aos protagonistas, a série traz um misto de sensações. A fotografia impecável mostra as pequenas belezas do dia a dia, mas também a tristeza sem fim que é ver a devastação sem freio da região. Só nos últimos 12 meses, ano eleitoral e, consequentemente, com a fiscalização caindo num descaso ainda maior, o desmatamento aumentou 40%, abrindo espaço ilegal para pastos e plantio numa área equivalente a 13 vezes o tamanho de Belo Horizonte.

A linha tênue que separa vida e morte.

Dentro do imenso déficit entre homem branco e índio, que vai muito além do campo ambiental, está como resultado um profundo distanciamento entre todos os povos. A retratação pode começar exatamente aí, no acesso à informação, no conhecimento mais íntimo das culturas de cada uma das etnias a partir de seus hábitos, seu grau de envolvimento com a tecnologia, seus rituais, suas crenças e estilo de vida que é repassado há gerações. Estar mais perto do assunto traz empatia para que todos entrem na mesma luta.

Entre as pautas levadas pelas próprias lideranças indígenas para enriquecer o debate, uma delas se destaca: a educação. “Podemos analisar o que falta de informações dentro do currículo das escolas e dizer o que pode ser feito. O preconceito que liga povos indígenas, meio ambiente, economia e política é porque não estamos conseguindo nos conectar com os demais cidadãos brasileiros. Alguma coisa está errada. Precisamos melhorar a nossa comunicação para transformar nosso país”, afirmou Almir, que é biólogo e super ligado em gadgets, durante o lançamento da série.

Almir se apoia na castanheira, que produz parte da fonte de renda do povo Suruí.

Ninawa, do povo Huni Kuin, também é Vice-coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e noroeste de Rondônia.

Estudante de medicina e o primeiro a conseguir inserir seu nome de origem aos documentos pessoais, Ninawa endossou o discurso do colega. Uma grande necessidade aqui no Brasil é a conscientização. Acho que a série vai ajudar bastante na compreensão de como é realmente a realidade na aldeia”. Para ele, o preconceito é de qualquer maneira uma responsabilidade do governo, por não oferecer o acesso a essa cultura. “Precisamos dizer para a sociedade que nós, apesar de estarmos lá na floresta, também acompanhamos tudo isso e podemos contribuir com muitas coisas.”

Atualmente existem cerca de 305 povos indígenas distintos no Brasil, sendo que boa parte deles tiveram suas línguas, costumes e terras roubadas durante a período da colonização. Hoje, a guerra por território persiste, especialmente pela falta de cumprimento da lei e demarcação de terras indígenas, assunto que na era Bolsonaro está nas mãos da Bancada Ruralista, deixando os povos originários na “linha do extermínio”, como ressaltou Andrea.

Território Yanomami fica isolado na floresta. Parte da tribo ainda permanece totalmente original, sem contato externo.

Tanto Ninawa quanto Almir fizeram questão de deixar claro a abertura do diálogo em prol do desenvolvimento social, tecnológico e produtivo. “Quem acha que somos contra os avanços precisam nos ouvir. Temos que discutir as propostas. Você pode produzir utilizando critérios, tanto na floresta como na agricultura, a partir de uma política sustentável de médio a longo prazo. Nós, lideranças indígenas, defendemos o Brasil não pelo interesse, mas porque amamos a nossa casa. Queremos que seja um país de exemplo, que implemente sua política em cima da necessidade de sua população, respeitando seu povo”.

Apesar da ideia de pessoas selvagens ainda permear erroneamente parte do imaginário coletivo, os índios são cidadãos instruídos, articulados, inteligentes e conhecedores de assuntos dos quais o homem branco não domina como eles. Compreende-los é estar a par das demandas do meio ambiente, dos saberes ancestrais e da cultura genuinamente brasileira.

Pelo direito de existir, eles recordam que também estão preparados para tudo. “Não somos guerreiros por querer lutar contra o outro. Somos da paz, queremos abrir o diálogo. É assim que vamos avançando. Mas, claro, dependendo da situação, pode ser necessário que a gente pegue nosso arco e flecha mesmo! Será?”, questionou Almir, brincando, mas sem deixar de falar sério.

Demandas e propostas

Muito se engana quem acha que não existe organização nas tribos. E não por acaso elas seguem firmes ao longo do tempo, depois de tanta sabotagem, tentativas de extermínio e dificuldades. Ninawa analisa os atuais desafios do povo Huni Kuin, formado por 15 mil pessoas, que se dividem em 104 aldeias entre Acre e Peru. “Nosso principal desafio é o próprio cumprimento da Constituição, que deve nos garantir assistência nas áreas da saúde, educação e proteção territorial, que talvez seja o maior deles nesse momento”. A ausência de segurança nas terras demarcadas fragiliza os povoados e facilita invasões violentas.

Almir recordou que o povo Suruí tem 48 anos de contato com não-indígenas, mas o envolvimento teve impactos negativos na aldeia. A retirada de madeira e o garimpo ilegal começou a acontecer dentro da própria comunidade, que foi a mais afetada pela devastação, com 86% do território prejudicado. Depois de um período de afastamento, o líder voltou com uma nova visão administrativa.

Foi elaborado o Plano Estratégico de 50 Anos, implementado a partir de 2010, com políticas de gestão para o território, envolvendo agricultura, meio ambiente, cultura, educação, saúde e economia. “O planejamento também traz entendimento das nossas próprias dificuldades, para que a gente possa não só ir a movimentos como vítimas da política e do desenvolvimento, mas com propostas reais de gerenciamento da floresta a partir do nosso conhecimento”.

Outro coisa muito interessante e avançada dentro do plano é a inclusão de jovens na faculdade, que também fortalece o progresso das aldeias. “Assim eles realmente se treinam tecnicamente e compreendem o mundo lá fora. Atualmente temos uma média de oito pessoas por ano ingressando em cursos de graduação”, apontou Almir, complementando que cerca de 70% dos graduados retornam para o povoado após a conclusão dos estudos.

O próximo passo é estabelecer a universidade indígena dos Suruís, que já está sendo criada em parceria com a Unicamp para se adequar aos critérios do Ministério da Educação. A base dos cursos oferecidos, porém, estará dentro dos saberes da etnia. Filosofia e economia, por exemplo, estarão conectadas com o legado do próprio povo. Todo o nosso conhecimento nunca foi escrito ou repassado. Mas agora será ensinado, inclusive para não-indígenas. A sociedade ignora isso, mas a partir de 2020 queremos oferece-lo para que compreendam nossa relação com a floresta, com a espiritualidade”.

No território Huni Kuin, a prioridade com os jovens é o fortalecimento da cultura, mas Ninawa reforçou que eles não descartam medidas educativas e inclusive têm como projeto a criação de um centro de formação da tradição. “Por mais que a gente tenha advogados, médicos, cientistas, precisamos ter doutores também nos nossos conhecimentos tradicionais, para que eles se fortaleçam e criem laços, apontou. “Mas temos sim hoje muitos jovens inseridos nas universidades e suas ferramentas podem dialogar com a sociedade de fora das comunidades sobre direitos e políticas públicas. Por causa disso, temos o subsistema nacional de saúde indígena e a construção de uma grade curricular de educação indígena.”

Durante a conversa com o Hypeness, ele mencionou que os jovens da tribo estão cada vez mais interessados em entrar para o meio acadêmico, porém mantendo suas origens, com ansiedade de ser liderança, de representar e assumir uma luta dentro do território. “É preciso também manter a espiritualidade forte para não desviar o caminho a outro propósito”, pontuou.

Diante do cenário nada promissor na atual administração do país, a salvação do completo desalento é a manutenção das crenças espirituais, tão mencionada por Ninawa, que vêm não de um Deus cristão, mas da força da natureza. “Estamos desacreditando na lei escrita no papel, porque o governo não a cumpre. Mas nós temos segurança na nossa fé. E isso tem sido comprovado a cada dia no meu e em todos os povos, que têm essa conexão com a terra. Nos comunicamos com os seres sagrados, com as plantas, os animais…Temos a água, o fogo, a terra e o ar, mas a essência de tudo isso é invisível, é a nossa espiritualidade”.

Talvez a gente não consiga mesmo escutar a mãe natureza como deveríamos, mas escutar o outro é o aprendizado que fica. Quando pergunto o que mais o incomoda em relação à tratativa dada aos indígenas, ele não precisa pensar para responder e manda a real, sem massagem. “Somos sim muito massacrados. Mas nós não somos coitadinhos. Muito pelo contrário, nós somos resistentes e colaboradores de tudo o que você conheceu na humanidade”. Lembre-se disso.

Manuel e Ninawa preparados para o Festival Huni Kuin.

Futura geração Yanomami na aldeia Watoriki.

Davi: líder Yanomami ameaçado constantemente.

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Fotos: divulgação/Guerreiros da Floresta


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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