Matéria Especial Hypeness

Sobrevivencialismo: como se preparar para um eventual colapso da economia

por: Mari Dutra


Desde o início das eleições, o brasileiro médio anda preocupado demais com um país vizinho. A Venezuela se tornou o maior medo da classe média em ascensão, que entrou em pânico diante da possibilidade de não encontrar papel higiênico nos supermercados. É um exemplo de nação que sobrevive a uma forte crise econômica, do qual tivemos uma pequena amostra grátis com o desabastecimento gerado durante a greve dos caminhoneiros, ocorrida em maio de 2018.

Quem entrou em pânico com a paralisação dos caminhoneiros que durou menos de 10 dias, pode nunca ter imaginado uma situação de colapso da economia.

A má notícia é que a história está cheia delas.

Colapso econômico direto dos livros de história

O economista e coach financeiro Lamartine Dourado Cavalcante fala sobre a maior crise econômica que o mundo já viu. O “Crack de 29”, como foi chamado, completa 90 anos.

Foto via

O fenômeno foi resultado de crise dos preços agrícolas (comodities) e consequente queda dos preços das ações no mercado financeiro, fazendo com que houvesse uma ‘avalanche’ de ações à venda e o consequente colapso na Bolsa de Nova York. Quando o mercado financeiro não tem um lastro forte para sustentar uma crise, mesmo que momentânea, o resultado é extremamente frágil“, explica.

Diversas leis e regras de acompanhamento e controle do mercado financeiro foram criadas em decorrência da crise, sendo que a Securities Exchange Act de 1934 é uma das mais conhecidas. As regulações buscam evitar que especulação e manipulação de títulos ocorram em excesso e, com isso, oferecer mais segurança à economia.

Lamartine destaca também outra crise mais recente, a “Grande Recessão” pela qual os Estados Unidos passaram entre 2008 e 2009. Na época, financiamentos imobiliários eram liberados sem garantias fortes para honrar a dívida, o que culminou em uma bola de neve. Dívidas viraram hipotecas, que viraram títulos do mercado… O prejuízo foi de bilhões de dólares.

Lamartine Dourado Cavalcante. Foto: Divulgação

Como quase tudo que se passa nos nossos vizinhos do norte, a crise refletiu também na economia brasileira, embora tenha demorado um pouco para chegar até aqui. O economista lembra da recessão ocorrida entre os anos 2014 e 2016, quando o PIB teve resultados negativos entre 3% e 4%. “A avaliação que se faz dessa crise, ou recessão, é a de que qualquer oscilação na segurança financeira da maior nação econômica do mundo acarreta efeito cascata em
outras nações“, comenta.

Para Lamartine, nossa própria economia também tem um pouco de culpa, visto que durante as eleições de 2014 surgiram uma série de incertezas econômicas a respeito do controle da ‘dívida pública’ e sua gestão. Com isso, empressários passaram a se sentir inseguros quanto ao retorno de seus investimentos. Quando ninguém está investindo, o dinheiro deixa de girar – e é crise à vista.

Como estar preparado

Há um grupo de pessoas que faz questão de estar preparado para qualquer situação. São os sobrevivencialistas. O psicólogo Julio Lobo, responsável pelo site Sobrevivencialismo e pelo canal do Youtube homônimo, faz parte deste grupo e explica didaticamente a essência do pensamento sobrevivencialista.

A tendência com o mundo pós-moderno é a gente começar a terceirizar as responsabilidades que tem na nossa vida, não é mesmo? Você não caça mais, você compra no supermercado; você não se protege mais, você tem a polícia pra isso. Você não tem mais conhecimentos de primeiros socorros, porque você tem uma ambulância próxima de casa e assim consequentemente. E o grande problema disso é que você fica vulnerável a um sistema que já se provou falho muitas vezes“, comenta Julio.


Um dos argumentos principais para aderir a esse modo de vida é o fato de que nossa sociedade já viveu diversas rupturas nos sistemas básicos de funcionamento. É o caso do que ocorreu com o crack da bolsa em 29, mas também de diversas outras pequenas mudanças sociais que transformaram o mundo ao nosso redor. Transformação é sempre um processo dolorido.

Para Julio, o sobrevivencialismo é justamente uma maneira de “formar pessoas que sejam capazes de agir em situações em que o sistema é incapaz de agir“, como controlar os danos em um acidente de trânsito, se defender em uma situação de violência ou mesmo produzir sua própria comida. “É realmente voltar às raízes de prover aquilo que você precisa para sua sobrevivência, para não ficar vulnerável ao ambiente à sua volta“, resume.

Nascido e criado em Mato Grosso do Sul, ele foi escoteiro quando garoto e sempre gostou de aventura. Para compartilhar suas experiências, Julio decidiu criar um blog e foi buscar referências no exterior. Aí descobriu o sobrevivencialismo e passou a falar sobre sobrevivência em selva. Com o tempo, percebeu que estava na hora de ampliar o conteúdo.

Para quem busca aderir à ideia, ele diz que o primeiro passo é “não alucinar”. O objetivo não é se preparar para o apocalipse, mas sim para situações corriqueiras. Para isso, sugere carregar um kit básico diário com itens que podem ajudar em diversos momentos – pode conter uma lanterna, um canivete, um spray de pimenta ou outras coisas que façam sentido no dia a dia da pessoa… Outra dica é manter um estoque de pelo menos três meses de comida em casa, o que deve ser feito com calma e após muito estudo, evitando gerar toneladas de desperdício.


Segundo Julio, mais importante do que ter coisas, o sobrevivencialismo é sobre desenvolver habilidades. Como exemplo, ele sugere fazer um curso de atendimento pré-hospitalar, de primeiros socorros, de tiro para autodefesa, algum tipo de luta… De acordo com o especialista, o foco na defesa é o mais importante para quem vive em centros urbanos. Em um segundo momento, Julio indica foco na preparação alimentar.

Uma cidade, ela é quase que uma armadilha em um cenário de crise. Se, por acaso, a cadeia logística de suprimentos cair, como foi o caso da greve dos caminhoneiros, que em quatro dias de greve o Brasil quase entrou em colapso, né? Já tava faltando um monte de coisa em vários lugares. Então, depois de suprir a parte da defesa, você vai para a parte da preparação, que é guardar alimentos, rotacionar o estoque de alimentos, aprender a conservar a carne por mais tempo e outras técnicas desse gênero. Agora, se você mora no meio rural, tudo é mais fácil“, diz. Por último, viria a parte da sobrevivêcia de fato, como buscar água e comida em ambientes inóspitos, por exemplo.

O que esperar do futuro

Lamartine sugere que o mais recomendado é que nos precavamos com uma garantia de investimento, embora destaque que sempre existe uma possibilidade de colapso do sistema econômico. Estas crises podem tanto estar associadas ao setor privado quanto ao público, visto que este último é o responsável pela regulação do mercado. “Hoje, as economias mundiais estão mais próximas em relação a essas regras, até porque a globalização diminuiu enormemente a distancia entre as relações“, explica.

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Colapsos econômicos como o crack de 29 não devem voltar a ocorrer, segundo a avaliação do economista. Entretanto, é natural que outras crises financeiras ocorram em diversos pontos do mundo e em escalas diferentes. Normalmente, tais fenômenos são localizados ou regionalizados e ocorrem como um reflexo de questões políticas não solucionadas.

Diante das constantes avaliações de mercado e potencial financeiro das instituições, bem como do aprimoramento das regras de controle, essa hipótese [de uma crise global] fica praticamente excluída“, diz Lamartine. Ainda bem!

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Créditos sob as imagens


Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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