Matéria Especial Hypeness

365 dias depois: o mecanismo que matou e protege mandantes da execução de Marielle Franco

por: Kauê Vieira

Era noite de quarta-feira. Dia de futebol. O Flamengo de Marielle Franco batia o Emelec por 2 a 1 em jogo difícil pela fase de grupos da Libertadores da América. Dois gols do negro Vinícius Júnior – cria do bairro do Mutuá, em São Gonçalo.

Marielle Franco cumpria mais um compromisso de mandato. A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro estava cercada de mulheres negras em outra articulação na Casa das Pretas, na Rua dos Inválidos.

O mandato de uma mulher negra, favelada, periférica, precisa estar pautado junto aos movimentos sociais, junto à sociedade civil organizada, junto a quem está fazendo para nos fortalecer naquele lugar onde a gente objetivamente não se reconhece, não se encontra, não se vê. A negação é o que eles apresentam como nosso perfil.

Marielle foi morta por defender a subversão em um país racista e machista

Foram duas horas de conversa sobre ativismo, empreendedorismo e saúde da mulher negra no evento Jovens Negras Movendo as Estruturasorganizado pelo PSOL. Jornada incessante, mas prazerosa. Marielle foi eleita para fazer a diferença na vida dos que mais precisam e menos acreditam em tal possibilidade. A jovem de 38 anos deixou o local e até poderia ter ido ver o mengão na Lapa, mas rejeitou convite de um amiga para um barzinho e preferiu ir direto para casa, na Tijuca. 

O carro onde estavam Marielle Franco, a assessora Fernanda Chaves e motorista Anderson Gomes, foi atingido por uma chuva de balas no Estácio, ainda no centro. Ronnie Lessa estava no banco de trás com uma HK, que disparou treze tiros na direção do Agile branco. Quatro deles atingiram a cabeça da cria da favela da Maré. Na linha de tiro, o motorista Anderson Gomes morreu com três balas alojadas nas costas

– Nem o medo da morte pode nos impedir de honrar a batalha de Marielle Franco

– Edi Rock homenageia Marielle em novo som e clipe: ‘Ela me influenciou. Ela que puxou o bonde’

– Sementes de Marielle: Talíria Petrone leva a política de mulheres negras para Brasília

Não é possível! A notícia correu por cabos e fibras óticas e pipocou em telefones celulares Brasil afora. O impacto do assassinato de uma parlamentar foi dobrado. Marielle Franco era mulher, era negra, defensora dos direitos humanoslutava contra tudo isso que atrasa o desenvolvimento dos mais vulneráveis socialmente. A gravidade era muito grande para acreditar em fake news.

O bate-papo na Casa das Pretas foi mais um encontro positivo com esta socióloga formada pela PUC-RJ. Marielle era comprometida com a favela. Bem antes do surgimento dos politicamente incorretos, ela lutava pela pacificação dos morros cariocas. É de sua autoria a dissertação de mestrado UPP – A Redução da Favela a Três Letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio Janeiro. O conteúdo do curso de administração da Universidade Federal Fluminense (UFF) virou livro póstumo.

Na Casa das Pretas, ela, mais uma vez, inspirou

Quando eu chego na PUC em 2002, a minha perspectiva era a da mulher favelada, do pertencimento de quem passou pela Maré, desse lugar do ‘mareense’, do favelado, de uma potência, de uma disputa daquele corpo que vou ocupar. Sim, porque eu sou a favelada e aquele lugar do ensino de qualidade também era meu. Mas eu não tinha autoidentificação nem o lugar da mulher negra favelada. Essa é uma construção que vai se formando.

A realidade foi dura demais para ficar de pé. Textos desconexos, mensagens confusas. Ogum, nos acuda! Todos pareciam atordoados em um dos eventos mais impactantes desde a morte do estudante Edson Luiz. O jovem de 18 anos foi assassinado por policiais militares em 28 de março de 1968. A morte de Edson, no mesmo centro do Rio de Janeiro, provocou mobilizações contra a ditadura militar. “Os velhos no poder, os jovens no caixão”, dizia um dos cartazes em protesto na Candelária.

15 de março

O povo marcou presença no velório de Marielle Franco. Foram 50 mil pessoas em frente à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde ela não admitia ser interrompida. Afinal, havia sido ELEITA. Mais uma vez, a Candelária se transformou em palco de vigílias. Pedidos pelo “fim da polícia militar” se confundiam com os gritos de “Marielle, presente. Hoje e sempre!”

“Tentaram calar a sua voz. Quero dizer que hoje o Complexo da Maré com certeza chora, o Rio chora, o Brasil inteiro chora”, afirmou a irmã Anielle.

O Brasil, de novo, maltratando a pele negra

Não calaram. Quer dizer, em 15 de março ficou difícil falar. Não dava. Ainda é, sobretudo para a família, que perdeu Marielle para sempre. As palavras permanecem emperradas diante de um nó incômodo. Lágrimas rasgaram rostos negros. Mais que uma parlamentar combativa, Marielle era mãe solteira. Mulher lésbica e negra, assassinada diante dos olhos de um Brasil que pede mudança, mas não sabe por onde começar.

– Pinturas de Ayéola Moore retratam universo de mulheres negras latinas

– Cristiele França, a radialista que leva o candomblé e os orixás para o cotidiano de Salvador

– Entrevistão com KL Jay (PARTE UM): ‘Unicamp acertou. Racionais MC’s é um livro que ensina muito’

Em conversa com o Hypeness (leia aqui), Talíria Petrone, então vereadora por Niterói e amiga de Marielle, ressaltou os conceitos de luta pela emancipação racial e feminina compartilhados com a vereadora carioca.

“Marielle e eu nos elegemos em um mesmo contexto de ascensão do feminismo e da luta por representatividade da mulher na política. Já a conhecia da Maré, do tempo em que dei aulas lá num curso comunitário e das lutas que ela ajudava a organizar na favela. Já a admirava, mas foi na experiência comum de enfrentar cotidianamente as asperezas do parlamento que nos aproximamos ainda mais”, relembra Talíria, agora eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro.  

Marielle foi assassinada por saber que era negra, lésbica e favelada

O cortejo seguiu. Assim com é Iansã quem faz a transição entre o aiyê (terra) e o òrun (céu), diz a religião de matriz africana, milhares de pessoas se uniram Brasil afora em vigílias pela memória e legado de Marielle Franco. Dezessete estados. Velas, roupas brancas e contas de orixá compuseram um silêncio ensurdecedor em protestos pelo país que não se cansa de empilhar corpos negros dia após dia.

A morte tem cor

O Brasil oferece duas realidades distintas. A linha de corte se baseia em uma questão histórica. A cor da sua pele. O Atlas da Violência de 2018 confirma, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%. Os não negros, no mesmo período, vivenciaram redução de 6,8%.

Marielle Franco sabia disso. Aliás, fazia questão de gritar – como um ilá de Iansã aos quatro cantos o genocídio negro em curso no Brasil. É preciso ressaltar mais uma vez, Marielle Franco era negra, lésbica e da favela. Atributos, como ela mesma disse, decisivos para a ocupação da base da pirâmide social.

“Nessa relação da desigualdade que está colocada, principalmente a desigualdade econômica que a gente, mulher negra está na base da pirâmide. Nós estamos no topo da pirâmide quando a gente fala de índices de violência, estupro. Se tem o dado apresentando que nós somos mais vulneráveis, precisa ter um incidência de uma política pública qualificada que proteja essa mulher. E essa mulher é a mulher negra que está mais vulnerável”.

A política é um universo inóspito para sonhadores. O ambiente formado majoritariamente por homens brancos e velhos dá o tom por meio de oligarquias. Seja na Bahia dos Magalhães, no Maranhão do clã de Sarney ou na São Paulo do PSDB. A regra é manter tudo como está.

A subversão de Marielle Franco incomodava. E muito. Em um dos discursos na Câmara Municipal do Rio, ela deu um recado direto ao vereador Marcello Siciliano (PHS).

Homens brancos se revezam no poder

“Marcelo, eu tenho bom diálogo com você, mas queria registrar só uma coisa. A minha palavra é palavra de mulher, mas vale. Não é só palavra de homem que vale não. E outra coisa, vale mais inclusive do que meia dúzia aqui que desceu falando gracinha no elevador pra assessoria com relações às questões do PL da Visibilidade Lésbica ontem. Então, eu estou dispondo os microfones – claro que com a anuência da presidência, para que cada um se inscreva para falar no microfone. Nem fazer piada no elevador e nem muito menos achar que a palavra que vai valer aqui é só a de homem. Que a palavra de mulher vai valer também”.

Bravatas e uma solução distante

Marielle Franco foi assassinada em um crime estritamente político. Indícios não faltam para compreender que a atuação da vereadora causou um desconforto insuportável em determinados tecidos do cenário político do Rio de Janeiro. Jogos de poder.

O Rio é um estado dominado pelos chamados grupos paramilitares. Milícias, em português claro. No início, grupos de justiceiros – entre eles policiais – agiam para manter traficantes longes das comunidades. Por mais que governantes  tentassem minimizar os fatos, a coisa tomou corpo e com o passar do tempo milicianos obtiveram o controle de serviços como internet, transporte e televisão e claro, do tráfico de drogas.

Ainda um deputado iniciante, Marcelo Freixo conseguiu em 2007 a criação da CPI das Milícias. O marco em sua trajetória política acabou se tornando motivo para o parlamentar circular com seguranças há mais de 10 anos. O foco era investigar alianças entre políticos e milicianos. O relatório final de 2008 pediu o indiciamento de 266 pessoas, sete políticos entre elas. Todos suspeitos de conexões com grupos paramilitares do Rio de Janeiro.

Voltando ao fatídico 2018. Nem Freixo ou Marielle (que andava sem seguranças) imaginavam que suas vidas eram monitoradas. Ela parecia tranquila e seguia a rotina normalmente, inclusive compartilhando detalhes da agenda política nas redes sociais.

A notícia do assassinato aumentou a pressão em um Rio sob intervenção do exército. Foram 365 longos dias para a administração pública, que fez de tudo, mas não conseguiu, até aqui, chegar aos mandantes do assassinato brutal da quinta vereadora mais votada da segunda maior cidade do Brasil. Não se engane, a história de Marielle Franco serviu como palanque para políticos em busca de um álibi.

Uma linha do tempo simples mostra quantas vezes autoridades de todos os níveis (federal, estadual e municipal) asseguraram a resolução do crime que chocou o mundo.

Temer e Pezão (hoje preso) sacramentaram a Intervenção Federal no Rio

Raul Julgmann era ministro da Defesa do governo de Michel Temer quando profetizou. Usando um discurso mambembe, o político garantiu em 10 maio de 2018. “A investigação no caso Marielle está chegando na sua etapa final. Eu acredito que em breve nós vamos ter resultados”.

– Campeã absoluta, Mangueira exalta Brasil que não te ensinaram na escola

– Mãe de Emicida e Fióti, Dona Jacira narra cura pela escrita e ancestralidade

– Coisa de preto é ganhar o Oscar. O maravilhoso e histórico discurso de Spike Lee

Lembremos, o Rio de Janeiro estava sob Intervenção Federal, vendida por Michel Temer, pelo prefeito Marcelo Crivella e o então governador Luiz Fernando Pezão (hoje preso por corrupção), como a única saída para resolver o crônico problema de segurança pública no Rio.

Braga Neto desfilou pelas telas de TV e páginas dos principais jornais do país divagando sobre as investigações do crime contra a vida de Marielle Franco e Anderson Gomes. Em 31 de agosto, o general do exército e comandante da segurança pública do Rio assegurou. “Estamos perto. Até o fim do ano, quando a intervenção tiver sido concluída, o caso já deverá estar solucionado”.

A fala compõe longa entrevista do general verde oliva à Veja. Ele ainda foi irônico. “Investigação não é novela, com um capítulo novo a cada dia. Estamos perto”.

Ainda deu tempo de mais uma bravata para encerrar 2018. Rivaldo Barbosa seguiu perfeitamente o discurso ensaiado. Segundo o chefe da Polícia Civil, o crime estaria “muito próximo de sua elucidação”, declarou por meio de nota em 1º de novembro.

Witzel esteve ao lado de políticos eleitos que quebraram placa de Marielle

Ano novo. Vida nova. Wilson Witzel – governador eleito na rabeira dos que pretendem “mudar tudo isso que está aí”, também deu pitaco. Com a segurança de um chefe de estado, Witzel garantiu que os investigadores estavam perto da solução.

“O caso Marielle está próximo sim de uma solução. A informação que eu tenho é a que a solução do caso e a prisão dos envolvidos talvez aconteçam até o final deste mês”, salientou em 12 de janeiro.

Nunca é demais lembrar, durante a campanha pela cadeira mais importante do Palácio da Guanabara, Wilson Witzel (PSC) esteve no mesmo palanque onde Rodrigo Amorim e Daniel Silveira – ambos eleitos para cargos públicos pelo PSL – partiram ao meio uma placa de rua homenageando a memória de Marielle Franco.

“A gente vai varrer esses vagabundos. Acabou PSOL, acabou PCdoB, acabou essa porra aqui. Agora é Bolsonaro, porra”, bradou Rodrigo ao lado do futuro governador do Rio de Janeiro, que pediu desculpas à família de Marielle alguns dias depois.

Anielle, em campanha da Anistia Internacional sobre morte da irmã

A Anistia Internacional é um dos órgãos mais atuantes na situação. Onze meses depois do assassinato, o órgão divulgou uma compilação de informações veiculadas publicamente sobre o caso indicando “possíveis incoerências e contradições no decorrer das investigações”. O documento intitulado “O labirinto do caso Marielle Franco e as perguntas que as autoridades devem responder” está disponível para consulta gratuita e traz ainda mais vinte perguntas sobre pontos não esclarecidos.

“O que já foi revelado publicamente sobre o assassinato de Marielle levanta sérias preocupações da Anistia Internacional em relação a possíveis negligências, interferências indevidas, ou o não seguimento do devido processo legal durante as investigações. As autoridades devem responder às perguntas que agora são feitas sobre pontos críticos do caso. A Anistia Internacional continuará monitorando o caso até que todas as perguntas tenham sido respondidas e o caso, solucionado”, pontuou Jurema Werneck, Diretora Executiva da Anistia Internacional Brasil.

A quem interessar possa

São grandes as chances de participações de agentes do Estado no crime. A sofisticação da ação chama atenção. Dados obtidos junto à Anistia Internacional colocam em xeque a versão oficial.

Sobre a arma do crime. Inicialmente, foi dito que uma pistola 9 milímetros, com adaptação para a realização de disparos em sequência, teria sido usada. Em seguida, apontaram uma submetralhadora HK-MP5, de origem alemã, de uso restrito e pouco comum no Brasil.

Os pais de Marielle Franco também se perguntam

A Polícia Civil do Rio de Janeiro teria 60 unidades da HK-MP5, a Polícia Militar e o Bope outras 11 submetralhadoras disponíveis. Cinco delas teriam desaparecido do arsenal da Polícia Civil, de acordo com recadastramento de 2011. Carecem explicações sobre o ‘sumiço’.

Tem mais, Marielle teria sido atingida por quatro disparos na cabeça. A munição usada para o total de 13 disparos seria de um calibre 9 milímetros. A munição usada pela primeira vez no crime integra lote sob responsabilidade da Polícia Federal, vendido pela empresa CBC à PF em 2006.

O Ministério da Segurança pública disse que o lote UZZ-18 teria sido desviado nos Correios na Paraíba, em 2009. Os Correios desconhecem registros do suposto crime. A munição pertence ao mesmo lote, UZZ-18, utilizado em uma chacina em São Paulo em agosto de 2015. 20 pessoas foram mortas em Osasco e Barueri em um crime que contou com a participação de policiais militares.

Outros pontos saltam aos olhos. Os corpos de Marielle Franco e Anderson Gomes não teriam passado por raio-X. Segundo as autoridades, a etapa não aconteceu por falta de equipamentos. O carro, um Agile branco, permaneceu estacionado a céu aberto, algo prejudicial para a perícia. Os policiais teriam mandado testemunhas saírem do local e não as procuraram depois.

Pontos soltos levantam dúvidas sobre investigação

Em quase um ano, a Polícia Civil do Rio de Janeiro conseguiu concluir que milicianos são suspeitos do assassinato. Mandados de prisão foram cumpridos nas cidades de Nova Iguaçu, Angra dos Reis e Petrópolis, no Rio. Em Minas, a polícia esteve em Juiz de Fora.

O já citado Marcello Siciliano (PHS) foi alvo de operação de busca e apreensão em sua casa. Depoimentos prestados à polícia apontam o envolvimento do político e um miliciano, Orlando de Curicica, no assassinato. A reportagem de Allan de Abreu na Piauí diz que o Ministério Público encontrou o nome de Siciliano em mais de oitenta transações imobiliárias em áreas de milícia, inclusive em Vargem Grande, onde assessores de Marielle se reuniram com moradores em 2018.

Marcello prestou depoimentos ao delegado Giniton Lages e sempre negou participação. Ele, inclusive, pediu a federalização do caso. 

Richard Nunes, secretário de segurança pública do Rio no período, fez a associação entre milicianos e a morte da parlamentar ao jornal O Estado de São Paulo. De acordo com ele, a execução se dava pela interferência da vereadora em interesses relacionados à grilagem de terras na Zona Oeste do Rio de Janeiro, principal área de atuação de grupos paramilitares na cidade.

Sentada no banco de trás do carro alvo do ataque em 14 de março, a assessora da parlamentar declarou ao G1 que “Marielle não tinha as milícias como alvo, mas incomodava”. Fernanda Chaves, no entanto, explicou que o mandato estava muito mais voltado para “questões de gênero, de violência contra a mulher”.

Marcelo Siciliano nega associação e pede federalização da investigação

Contudo, ela admite que a presença de Marielle Franco despertava ira de alguns parlamentares machistas e racistas. “Tinha alguns vereadores que se incomodavam com a presença dela, uma mulher favelada, negra, lésbica, naquele espaço. Tinha gente que não gostava de entrar num elevador com a Marielle ou com parte da assessoria dela”.

A Medalha Tiradentes

Marielle Franco foi homenageada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro com a Medalha Tiradentes. A proposta de Marcelo Freixo (PSOL-RJ) teve apenas um voto contrário, o de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

O fato remete ao trabalho investigativo realizado pela repórter Cecília Oliveira. No The Intercept, ela aponta ligações entre milicianos e a família do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Flávio Bolsonaro homenageou dois investigados pela morte de Marielle

Falando em Flávio e Tiradentes, o hoje eleito senador pelo Rio de Janeiro concedeu a honraria a Adriano Magalhães da Nóbrega em 2005. O ex-policial do Batalhão de Operações Especiais (Bope) é chefe da milícia de Rio das Pedras. Ele foi expulso da PM por envolvimento com a máfia do jogo do bicho, além de ter trabalhado para bicheiros, políticos e mercenários.

O policial militar Ronald Paulo Alves Pereira também recebeu a mais alta honraria do Legislativo fluminense por indicação de Flávio Bolsonaro. O major foi condecorado quando já era investigado por atuação na chacina de cinco jovens na boate Via Show, em 2003, na Baixada Fluminense.

O que os dois têm em comum? São membros do Escritório do Crime, grupo de extermínio apontado como mandante da execução de Marielle Franco. Quatro policiais ligados ao grupo já foram presos.

Flávio, o pai e os PMs Alan e Alex, presos na operação Quarto Elemento

Ronald Paulo Alves Pereira, de acordo com a Polícia Militar, é grileiro nos bairros de Vargem Grande e Vargem Pequena, além de chefe da milícia do Muzema, no Itanhangá. Foi do bairro que partiu o carro usado na morte de Marielle. 01, como é chamado o filho mais velho de Jair Bolsonaro, empregou em seu gabinete na Alerj a mãe e a esposa de Adriano Nóbrega, ex-Bope, um dos acusados pela morte de Marielle Franco.

Flávio Bolsonaro nega e se diz vítima de difamação. “Quanto ao parentesco constatado da funcionária, que é mãe de um foragido, já condenado pela Justiça, reafirmo que é mais uma ilação irresponsável daqueles que pretendem me difamar”.

O pai, hoje presidente da República, já defendeu milicianos ao longo dos 27 anos no Congresso Nacional. Em 2003, Bolsonaro falou sobre os grupos de extermínio. “Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu Estado só as pessoas inocentes são dizimadas”.

O próprio Jair Bolsonaro aparece ao lado do filho Flávio e dos PMs Alan e Alex, ambos presos na operação Quarto Elemento. Jair Bolsonaro fez a egípcia sobre o assunto. Entretanto, foi o único candidato à presidência a não falar sobre a execução de Marielle Franco e Anderson Gomes.

Operação Lume

Dois dias antes de completar um ano, a polícia do Rio de Janeiro prendeu um PM reformado e outro ex-PM apontados pela corporação como executores dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Ronnie Lessa, policial aposentado de 48 anos e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, de 46, foram detidos em uma força-tarefa instaurada por policiais da Divisão de Homicídios e promotores do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Segundo a denúncia, os 13 disparos que tiraram a vida da vereadora e de seu motorista foram feitos por Ronnie Lessa, que estava no banco de trás do Cobalt que perseguiu o carro da parlamentar no Centro do Rio. Lessa foi detido em casa quando tentava escapar. O PM aposentado mora no mesmo condomínio do presidente Jair Bolsonaro, Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.  

Ronnie teria disparado contra Marielle e Élcio dirigido o Cobalt

Élcio Vieira de Queiroz é apontado pela Polícia Militar como o motorista do Cobalt. Ele foi capturado no bairro do Engenho de Dentro quando saía para o trabalho. A Operação Lume cumpre mandados de busca e apreensão atrás de documentos, telefones, celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munições e outros objetos.

“É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia”, afirma a denúncia.

Marielle Franco tinha os passos monitorados há pelo menos três meses. Promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado dizem que Ronnie Lessa fez pesquisas na internet e guardou na nuvem (dispositivo de armazenamento de dados online) informações sobre a agenda, lugares frequentados e hábitos da vereadora. A polícia destaca que Marielle participou de pelo menos duas agendas pesquisadas por Lessa.

A reportagem do Jornal O Globo afirma que Ronald Lessa utilizava um telefone ‘bucha’, comprado com CPF de terceiros para evitar o rastreamento. O telefone registrado na operadora em nome do PM reformado foi utilizado no dia da execução por uma mulher na Zona Sul do Rio para confundir a polícia, de acordo com o investigador.

O ex-PM Élcio de Queiroz é apontado como motorista do Cobalt

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e o então interventor da segurança pública do Rio de Janeiro, general Braga Neto, informa a polícia, também foram monitorados por Lessa. O policial reformado realizou ainda pesquisas sobre a submetralhadora MP5, apontada como usada no crime.

Embora dois acusados de apertar o gatilho tenham sido presos, a polícia não chegou nos mandantes do crime. Em entrevista ao Bom Dia Rio, Freixo criticou a demora da investigação e ressaltou que o caso não está encerrado.

“São prisões importantes, são tardias. É inaceitável que a gente demore um ano para ter alguma resposta. Então, evidente que isso vai ser visto com calma, mas a gente acha um passo decisivo. Mas o caso não está resolvido. Ele tem um primeiro passo de saber quem executou. Mas a gente não aceita a versão de ódio ou de motivação passional dessas pessoas que sequer sabiam quem era Marielle direito”.

Os fuzis são atribuídos a Ronnie Lessa

A polícia do Rio encontrou 117 fuzis M-16 incompletos alojados na casa de um amigo de Ronnie Lessa no Méier, Zona Norte da cidade. As armas estavam sem cano no que é considerada a maior apreensão de fuzis da história do Rio de Janeiro. 

A Operação Lume foi batizada inspirada em uma praça no Centro do Rio, o Buraco do Lume, onde Marielle desenvolvia um projeto chamado de Lume Feminista. Ela se reunia no local com defensores dos Direitos Humanos e integrantes do PSOL para prestar contas do mandato.

Sementes de Marielle

Como se vê, a história é complexa e nebulosa. Caminhos tortos revelam o nome de figurões do cenário político. Por isso, a eleição, sobretudo de mulheres, comprometidas com a elucidação do caso, diminuição da violência e equidade racial é tão importante.

As sementes de Marielle brotam por todo o canto. Tema de um desfile histórico da Estação Primeira de Mangueira, ela vive na voz e postura dos comprometidos com a quebra de um sistema corrupto e viciado. De verdade.

As eleições mostraram: Marielle vive sim!

Em São Paulo, Erica Malunguinho é a primeira trans eleita como deputada estadual. No Rio temos Talíria Petrone, que vai levar todo o tipo de política pública de mulheres negras para Brasília. Ela não está só, Minas Gerais elegeu Áurea Carolina como a deputada federal mulher mais votada.

A Bahia, estado mais negro da nação, finalmente reconheceu o trabalho da primeira mulher negra eleita deputada estadual. Com mais de 55 mil votos, Olívia Santana fez história na terra de Mãe Stella de Oxóssi. Ainda há tempo para citar outras três herdeiras de Marielle, Renata Souza, Dani Monteiro e Mônica Francisco, todas ocupando cadeiras na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. 

E claro, Anielle Franco, comprometida em honrar o legado da irmã e transformar a realidade de outras mulheres negras. 

O crime brutal contra uma mãe de 38 anos será ferida constante. Mas não se engane, o Estado pode manter o silêncio ensurdecedor sobre os reais interessados no assassinato, mas não tem como frear o barulho que vem das ruas. Marielle vive. A cria da favela da Maré é muito maior do que qualquer um dos homens citados aqui jamais serão. A luta dessa mulher negra, lésbica, mãe e favelada segue a passos largos. Mas, como bem ensinou a Mangueira, sem a quadrada batida militarizada. Marielle marcha, só que ao som de um Brasil que passa por mudanças incorrigíveis.

Quem mandou matar Marielle Franco?

 

 

Publicidade

Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: Reprodução/foto 3: Mídia Ninja/foto 4: Reprodução/Hysteria/foto 5: Agência Câmara/Reprodução/foto 6: EBC/foto 7: Reprodução/ foto 8: Reprodução/foto 9: Reprodução/foto 10: Reprodução /foto 11: EBC/foto 12: EBC/foto 13: Reprodução/Instagram/foto 14: Divulgação/PCERJ//foto 15: Reprodução/foto 16: Divulgação/foto 17: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Homem de 21 anos morre após misturar cafeína com whey protein