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Alice Guy Blaché, a pioneira do cinema que a história esqueceu

por: Mari Dutra

Nove meses antes de os irmãos Louis e Auguste Lumière realizarem sua primeira sessão cinematográfica para um público pagante, em 28 de dezembro de 1895, eles decidiram mostrar o invento a um pequeno grupo de pessoas. Ninguém imaginava ainda que neste petit comité estaria a primeira diretora de cinema da história.

Alice Guy Blaché havia sido contratada como secretária na empresa Comptoir Général de Photographie, que seria adquirida no ano seguinte por León Gaumont. Sob o nome de Gaumont, surgia a primeira companhia cinematográfica do mundo – e a mais antiga ainda em atividade. Apesar da mudança na empresa, a jovem, então na casa dos vinte anos, continuou trabalhando como secretária – mas ficaria pouco tempo no cargo.

Junto à equipe da Gaumont, Alice Guy foi convidada a presenciar a mágica do primeiro cinematógrafo desenvolvido pelos irmãos Lumière. O dispositivo, revolucionário para a época, funcionava como câmera e projetor ao mesmo tempo. Enquanto assistia às cenas de La Sortie de l’usine Lumière à Lyon (“A saída das usinas Lumière em Lyon“), seus olhos anteviram o potencial da nova tecnologia.

Filha de um vendedor de livros, Alice sempre havia sido acostumada a ler e chegou a praticar teatro durante algum tempo. A familiaridade com a narrativa fez com que lançasse um novo olhar sobre o cinema. Ela decidiu transformá-lo em um veículo para contar histórias.

O primeiro filme

A história da pioneira é resgatada pelo documentário The Lost Garden: The Life and Cinema of Alice Guy-Blaché (“O Jardim Perdido: A Vida e o Cinema de Alice Guy-Blaché“, 1995), em que conta que teria pedido ao “Sr. Gaumont” para filmar algumas cenas com o novo aparato. O chefe consentiu, desde que a invenção não atrapalhasse seu trabalho como secretária.

Alice Guy Blaché brinca com uma câmera

Alice Guy Blaché

Foi assim que, em 1896, Alice lança o primeiro filme de não-ficção do mundoLa Fée aux choux (“A Fada do Repolho”), com duração de apenas um minuto, foi escrito, produzido e dirigido por ela.

Embora os irmãos Lumière tenham  feito uma pequena cena intitulada L’Arroseur arrosé (“O regador regado“), em 1895, eles sequer vislumbravam todo o potencial do cinema e o viam mais como uma ferramenta de registros do que como uma maneira de contar histórias. Em contrapartida, o primeiro filme de Alice Guy traz cenários, cortes, efeitos especiais e uma narrativa, ainda que breve. Ele é baseado em uma antiga lenda francesa, segundo a qual bebês meninos nascem de repolhos, enquanto as meninas nasceriam de rosas.

A produção foi refilmada duas vezes pela própria Alice, lançando novas versões em 1900 e em 1902. Do filme de 1900, foi possível recuperar um fragmento mantido pelo Svenska Filminstitutet, o Insituto Sueco de Cinema. É nele que vemos a cena abaixo, feita usando protótipos de repolhos, bonecos, uma atriz e até mesmo um bebê real.

Segundo sua neta Adrienne Blaché-Channing conta em The Lost Garden, o primeiro filme comercial de Alice vendeu 80 cópias, um sucesso para a época. A grande adesão fez com que a jovem logo fosse promovida a chefe de produções cinematográficas da Gaumont. Um cargo e tanto para uma mulher em pleno século 19!

Ao inaugurar uma nova era do cinema, em que as filmagens não eram restritas a representar a realidade, ela não poderia ser mais merecedora da função. A partir daquele momento, a imaginação dos criadores era o limite para a Sétima Arte.

No mesmo ano, Georges Meliès lançaria seu primeiro filme. Ele ficou famoso, Alice quase foi esquecida pela história.

Inovações cinematográficas

Desde muito cedo, a diretora tinha paixão por explorar a arte que acabava de surgir. Foi assim que, ainda no início do século passado, viria a criar uma linguagem cinematográfica que anos depois se tornaria um clichê: o uso de close-ups em cena para garantir efeito dramático.

Usada pela primeira vez em Madame a des envies (“A Madame tem seus desejos“, 1906), a técnica foi por muito tempo atribuída a D. W. Griffith, que só lançaria seu primeiro filme quatro anos depois.

O maior sucesso de sua carreira surge no mesmo ano, quando Alice lança La Vie du Christ (“A Vida de Cristo“, 1906), um curta-metragem com duração de 34 minutos, que explora a linguagem cinematográfica como nunca antes. Com efeitos especiais, cortes de cenas e personagens profundos, ela coloca o primeiro alicerce sobre o qual seriam erguidos os blockbusters no futuro.

Ainda em 1906, a diretora dança cancan na cara da sociedade ao lançar o filme Les resultats du feminisme (“As consequências do feminismo“), em que mostra homens fazendo atividades tipicamente associadas às mulheres, enquanto elas curtem a vida no bar e assediam os parceiros. Em menos de 7 minutos, a comédia aposta no riso para cutucar o status quo.

Em uma viagem de negócios, a diretora conhece o colega Herbert Blaché, com quem se casa, sendo afastada do posto na Gaumont – obviamente, ele manteve seu cargo. Em 1907, o marido é enviado como gerente de produção da empresa aos Estados Unidos. Decididos a recomeçar a vida na América, eles fazem as malas.

Já nos Estados Unidos, Alice cria a sua própria empresa, a Solax, em 1910. As primeiras produções foram um sucesso e, em 1912, ela já era a única mulher ganhando mais de 25 mil dólares ao ano no país. Com o sucesso, constrói seu próprio estúdio em Fort Lee, no valor de 100 mil dólares – o que equivale a um investimento de 3 milhões de dólares atualmente.

Alice não se cansa de inovar e lança o primeiro filme da história com elenco composto apenas por atores negros, intitulado A Fool and his money (“Um tolo e seu dinheiro“, 1912) – trechos da obra podem ser vistos neste link. Até então, atores brancos faziam  blackface para representar pessoas negras no cinema, o que continuou ocorrendo por muito tempo.

Feminismo e crítica social

O estúdio administrado por Alice logo se tornaria o maior dos Estados Unidos. Em uma entrevista realizada ainda em 1912, a diretora causou ao dizer aos jornais que as mulheres já estavam preparadas para votar – o que só se tornaria realidade no país em 1920.

Nessa mesma época, a pioneira realiza diversos filmes que já apresentam alguma intimidade com a temática feminista e a ideia de romper com os costumes estabelecidos. É o caso de Cupid and The Comet (“Cupido e o Cometa“, 1911), em que uma jovem foge de casa para se casar contra a vontade do pai e House Divided (“Uma casa dividida“, 1913), no qual um casal decide viver “separadamente juntos”, falando-se apenas por correspondência.

Também em 1913, Alice aposta em outro divisor de águas do cinema: Dick Whittington and His Cat (“Dick Whittington e seu gato“), em que recria a história de uma antiga lenda inglesa. Na ausência de efeitos especiais complexos, uma das cenas da produção contou com um navio real incinerado. A inovação teve um preço, no entanto: Herbert sofreu queimaduras severas devido à explosão de um barril de pólvora, segundo conta o livro Alice Guy Blaché: Lost Visionary of the Cinema (“Alice Guy Blaché: A visionária perdida do cinema“).

É também em 1913 que o contrato de seu marido com a Gaumont termina e Alice decide torná-lo presidente da Solax. Assim, ela poderia dedicar-se apenas à escrita e direção de novos filmes, deixando a parte burocrática de lado. O marido, no entanto, não parece feliz em trabalhar para a esposa e, três meses depois, pede demissão para fundar sua própria empresa, a Blaché Features.

Os dois trabalham em conjunto em ambas empresas, até que a companhia de Herbert começa a ganhar mais atenção da dupla, com a produção de cerca de um filme longo por mês. Relegada a segundo plano, a companhia de Alice afunda e, a partir de 1915, ela passa a trabalhar como uma diretora por contrato para a Blaché Features. Nesse período, a pioneira dirige estrelas como Olga Petrova e Claire Whitney em obras que, infelizmente, foram perdidas, como grande parte de seus filmes.

Separação e esquecimento

Em 1918, o marido abandona Alice. Pouco depois, ambos viriam a dirigir um de seus últimos filmes: Tarnished Reputations (“Reputações Manchadas“, 1920), cuja história guarda semelhanças com o relacionamento casal.

Em 1922, os diretores se separam oficialmente e Alice volta para a França, mas percebe que seu trabalho já havia sido esquecido no país. Com a falta de apoio, a pioneira não consegue produzir novos filmes e passa a se dedicar a escrever histórias infantis, usando pseudônimos masculinos.

Acredita-se que a diretora tenha trabalhado em mais de mil produções cinematográficas, embora apenas 130 delas tenham sido encontradas até hoje. Com o tempo, muitos de seus filmes foram creditados a homens, enquanto outros levavam apenas o nome da produtora.

Sua obra passou a ser recuperada nos anos 80, após o lançamento póstumo de sua autobiografia, escrita no final dos anos 40. No livro, Alice detalha uma lista dos filmes que produziu, na esperança de um dia receber o devido crédito pelas obras e conquistar um espaço que sempre foi seu: o de pioneira do cinema.

Leia também: 10 grandes diretoras mulheres que ajudaram a criar a história do cinema

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Com informações de:

The Lost Garden: The Life and Cinema of Alice Guy-Blaché

The Most Famous Woman You’ve Never Heard Of: Alice Guy Blaché


Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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