Matéria Especial Hypeness

Autocuidado, burnout e feminismo: ‘que sentido tem a revolução, se não podemos dançar?’

por: Gabrielle Estevans

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Essa coluna deveria ter estreado no dia 8 de março. Data significativa para abrir espaço a um tema tão importante — e urgente — para as mulheres. Acontece que, dias antes, tive um burnout. O termo, que vem do inglês burn (queimar) out (por inteiro), é um conceito psicológico que se refere à exaustão prolongada. E apesar de não ser considerado pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais como uma doença, ainda assim é citado como uma “sensação de estar acabado”. Os sintomas são físicos e psíquicos.

Segundo o relatório Medscape Physician Lifestyle Report 2015, as categorias profissionais mais atingidas por essa fadiga são aquelas que estão em contato direto com o sofrimento humano, como medicina, enfermagem, policiamento e, claro, o jornalismo. Além disso, as mulheres são as mais atingidas, segundo análise de 183 estudos sobre diferença de gênero e burnout realizado em 15 países. Num artigo publicado no New York Times, Sheryl Sandberg, diretora operacional do Facebook, e Adam Grant, professor de administração da Universidade da Pensilvânia, explicam: “Para cada mil pessoas trabalhando, há 80 mulheres a mais que homens tendo burnout — em grande parte porque não conseguem colocar em si mesmas a máscara de oxigênio antes de ajudar os outros”.

Não somos ensinadas para o autocuidado. Cuidar é, antes de tudo, uma ação que devemos aplicar aos outros. Fomos sensibilizadas desde muito cedo para despender atenção a quem nos cerca. Primeiro, colocamos a máscara de oxigênio nos outros, se sobrar tempo pra nós, depois, ótimo; se não, tudo bem, fizemos nossa parte.

Mais fortemente no ano passado, a indústria viu no autocuidado uma oportunidade de lucrar e, cooptando o tema, transformou em moda o que era político. A apenas um esticar de braços nas prateleiras de supermercados, farmácias e boutiques podemos experimentá-lo: banhos de espuma, vinho rosé, aquele novo apetrecho para massagear os pés, as 1001 máscaras faciais. Além de elitizar a discussão, o capitalismo também a superficializou.

Autocuidado pode ser, sim, um ato de indulgência depois de uma rotina puxada, após uma grande exigência emocional, mas não é só isso. Autocuidado, para mulheres, é, antes de tudo, um ato político.

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“Cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, um ato de luta política”.

frase de Audre Lorde, no epílogo de seu livro A Burst of Light

Audre Lorde, escritora caribenha-americana, feminista, mulherista, lésbica e ativista dos direitos civis

Lembro de um desabafo de Djamila Ribeiro, ativista do feminismo negro, em suas redes sociais. Como uma das principais vozes brasileiras da militância, estava num fluxo constante de viagens e palestras. Esgotada, precisou frear seu trabalho para olhar para sua saúde física e emocional com mais atenção. Foi uma pausa de dias. Mas, mesmo assim, ao desmarcar uma palestra, foi cobrada por sua responsabilidade — já que o evento havia sido divulgado e produzido contando com sua presença. A frase de Djamila, no relato, me foi cortante: não sejamos, mulheres, agentes de adoecimento de outras de nós. Que saibamos nos acolher e priorizar aquilo que há de mais importante na nossa caminhada — nosso bem-estar.

São as mulheres na linha de frente da revolução, aliás, as mais vulneráveis. O livro — que empresta seu título também à chamada desse artigo — “Que sentido tem a revolução se não podemos dançar?” abre a trilha para essa questão. Escrito por Jane Barry e Jelena Djordjevic, traz uma pesquisa pioneira com ativistas feministas em cinco continentes do mundo, sobre ativismo e autocuidado. Foi publicado, no Brasil, em 2007, mas segue atualíssimo.

Na semana passada, à beira do abismo emocional, a luz amarela piscou na minha cabeça: “Esse texto vai ter de esperar”, pensei. Em seguida, uma torrente de auto julgamentos e de cobranças excessivas me preencheram. Tenho a sorte de ter, aqui, uma editora mulher que me acolhe e que entende que, às vezes, para nós, é como se não fosse dar pé. Nesse momento, a luz vermelha acendeu. Era hora de parar, respirar, escutar meu corpo e entender qual era a minha demanda mais genuína naquele momento. Autocuidado é isso. É tratar com compaixão a nossa existência da mesma forma que faríamos àqueles que nos são mais caros. As coisas, as pessoas, as entregas podem aguardar. O autoamor, nunca. Porque, afinal, se eu não puder dançar — usando das palavras de Emma Goldman e honrando as que vieram antes de mim —, essa não é, nem de longe, minha revolução.

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.


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