Matéria Especial Hypeness

Brasileira cultiva índigo japonês para propagar a tradição do tingimento natural com azul anil

por: Brunella Nunes

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Já parou para se perguntar sobre a origem das cores? A resposta para muitas delas é só uma: botânica. Foi durante a faculdade que a pesquisadora e professora Kiri Miyazaki despertou o olhar para o tingimento natural, resgatando uma tradição milenar que começou a se perder no mundo moderno. Indo na contramão, a brasileira cultiva índigo japonês, planta que dá origem à cor azul anil, resultando numa variedade de tons para o jeans do seu armário.

O corante de origem vegetal tem uma história milenar, que se espalha por diferentes países e, consequentemente, possui diferentes métodos de extração. Foi especialmente na Ásia que o pequeno broto de vida chamado índigo ganhou o novo papel, como matéria cromática, expandindo-se para outras partes do mundo. A África e a América do Sul também possuem espécies, incluindo três nativas no Brasil, servindo como fontes de estudo, cultivo e exportação.

Quando falamos em Japão, logo lembramos da cor vermelha, que estampa a bandeira do país e se faz presente em uma variedade de coisas relacionadas à sua rica cultura. Porém, para quem já pisou nas suas grandes cidades, nota a forte presença do índigo roubando a cena, figurando até mesmo no logo oficial dos Jogos Olímpicos de 2020, sediados em Tóquio, e no uniforme da seleção japonesa de futebol, carinhosamente chamada de “Samurai Blue“.

Foi na Era Muromachi (1338–1573) que o pigmento deu as caras por lá, trazendo novas nuances para as vestimentas, ganhando relevância no período Edo (1603–1868), considerada uma era de ouro do país, com a cultura em ebulição e a paz reinando. Nessa mesma época, o uso de seda foi proibido e o algodão começou a ser cada vez mais utilizado. É aí que entra o anil, único tingimento capaz de colorir a fibra.

Por muitos anos o índigo foi o corante natural queridinho da indústria têxtil, especialmente na fabricação de lã. Mas, após o sucesso, veio a decadência, marcada pela ascensão da indústria. Entre 1805 e 1905 foi desenvolvido na Alemanha o índigo sintético, obtido por meio de processo químico, lançado no mercado pela BASF (Badische Aniline Soda Fabrik). Tal fato não apenas mudou o foco de muitos fazendeiros, como praticamente destruiu a economia da Índia, até então uma das maiores produtoras do produto no mundo.

Apesar do número ter caído substancialmente, alguns lugares (Índia, El Salvador, Guatemala, sudoeste da Ásia e noroeste da África) mantêm a pequena produção de índigo vegetal, seja pela tradição ou pela demanda, tímida, mas resistente. A espécie serve ainda como repelente para insetos e matéria-prima para sabonetes, com suas propriedades antibactericidas.

Frustração virou semente

Todo o esmero, tempo e paciência oriental ainda são preservados pelos japoneses. Aos 17 anos, Kiri foi morar no Japão a contragosto, junto com a família. “Eu não queria ir, estava entrando na faculdade e até pedi para ficar com a minha obatiaan (avó). Meu pai não deixou”, contou ao Hypeness, em sua casa em Mairiporã. “Sempre amei estudar e quando fui pra lá, não consegui fazer isso, não consegui ter acesso a essa cultura oriental porque não falava a língua e então não pude frequentar a escola”.

Sem rumo longe de casa, o jeito foi trabalhar. Arrumou emprego na linha de produção de uma fábrica de eletrônicos, onde chegava a ficar até 14 horas por dia, “como todo bom operário num sistema capitalista”, ela pontuou. Apesar de ter pego parte do salário para desbravar as cidades do Japão, Kiri era frustrada com a rotina maçante e longe da sala de aula. Viajar era o meu escape, só que mesmo assim eu tinha uma relação muito estranha com o país. Quando voltei, eu falei que não tinha gostado, que não tinha boas memórias desses três anos. Foi muito doloroso e traumático, mas penso que tudo que a gente passa na vida não é em vão”.

De fato, não é. O tempo passou, Kiri voltou ao Brasil tentando encontrar um propósito. Ingressou na faculdade de moda e conseguiu entender o que o Japão poderia reservar para seu destino. Numa aula de superfície têxtil com a professora japonesa Mitiko Kodaira, em meados de 2014, questionou sobre os métodos naturais de tingimento e teve uma resposta: “tenta com açafrão”.

Ali foi dada a largada para a experimentação. “Foi ela que me abriu os olhos e me despertou o interesse”, recorda. “Engraçado que meu primeiro teste de tingimento foi aos 12 anos, com coisas químicas. Tingi a camisa que meu pai usou para casar com a minha mãe e, entre vários desastres, coloria roupas apenas para a minha família. Mesmo sendo algo que sempre gostei, até esse momento, eu tinha tudo isso como hobbie e não como algo profissional”.

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Caminho sem volta, Kiri estava enfim mergulhando dentro de si e das cores que a natureza dá. Aumentou seus conhecimentos com a estilista Flávia Aranha, referência na matização orgânica. Foi ela que me apresentou o índigo. Fiz todos os cursos em seu ateliê e recentemente tive a honra de voltar como professora. Foi como fechar um ciclo, muito emocionante.”

A pesquisadora então voltou ao Japão, em 2016, para estudar mais sobre o cultivo de índigo numa fazenda em Tokushima, cidade tradicionalmente ligada à planta. Ficou 30 dias na casa da irmã e já não se sentia mais um peixe fora d’água. “Até lembrei da língua, mesmo ficando 10 anos sem usar”, disse.

Todo esse processo resultou não apenas no azul que colore seus dias, mas “numa ligação de paz com os antepassados”, conforme ela mesma descreve. O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) se transformou em um poético documentário, o “Tingimento Natural com Índigo: da germinação à extração do pigmento azul“, contando com direção executiva de Amanda Cuesta e direção de fotografia de Clara Zamith.

Da semente ao azul anil

Foi a partir de então que Kiri se sentiu preparada para fazer o procedimento completo de extração, da semente de índigo ao pigmento azul anil e suas variadas nuances, visto que um nunca será igual ao outro. Acabou optando pela técnica japonesa Aizomê, inédita no Brasil, visto que não existem fazendas nem indústrias que usam tingimento natural, apenas marcas menores. Completamente segura e amiga do meio ambiente é, de fato, de uma paciência oriental: leva 365 dias até se obter o corante.

Nesse processo, você faz um composto das folhas. Depois da colheita, as coloca para secar e aí elas passam por uma fermentação de 120 dias, resultando numa bola semelhante a uma terra. Esse material orgânico se chama Sukumô, que seria o índigo fermentado pronto para fazer a mistura do tingimento. Aí sim você coloca em prática uma fórmula que dá o pigmento azul. É uma coisa linda!

Na panela, o índigo pode ficar fermentando por até 30 dias, junto com farelo de trigo, saquê, cinzas de árvore e cal hidratado na receita. É preciso mexer a mistura diariamente, até a redução. A cada experiência, um tom de azul distinto nasce para reluzir os olhos de quem o cultivou desde a semente. “Aijiro” é o índigo mais claro, próximo ao branco; “noukon” é o azul marinho, o mais escuro de todos.

Numa busca incessante, ela fez vários experimentos no interior de São Paulo, passou por um monte de perrengues e, na época, resolveu voltar para a capital e plantar em vasos no quintal mesmo. Levou seis meses conseguir germinar as sementes de índigo japonês.Aqui temos outro solo e outras condições climáticas. Depois que entreguei o filme, vi que precisava morar no campo, porque eu jamais conseguiria ter uma grande produção vivendo na cidade”, contou em sua atual residência, em Mairiporã. “Não tenho nenhum repertório de agronomia, então vou atrás de quem pode me ensinar”.

E os aprendizados não param. Kiri revelou que ainda não conseguiu obter o pigmento através do método do Sukumô. Até hoje já foram quatro tentativas. “Mesmo você sabendo o processo e a receita sendo simples, você pode errar o ponto. Quando ele apodrece e vejo que não deu certo, eu choro. Sigo tentando, estudando, acendendo vela…”, brincou.

Para as aulas que oferece, utiliza como base o índigo em pó ou em pasta importados, pois já são meio caminho andado para a obtenção de cor. A água do índigo não precisa ser descartada pois por ele ser fermentado, se mantém como um organismo vivo, semelhante ao kefir. “Devido ao ph alto, ele não entra em decomposição. Então depois de tingir a peça, você não precisa jogar o líquido fora. Porém, para reviver o índigo japonês, é outro processo”, explicou Kiri.

Mas aí você se pergunta: o que ela quer com tudo isso, afinal? Fundar uma marca está longe de seus planos. Durante a conversa, Kiri ressaltou um fato que vai muito além dos olhos do mercado: a importância de repassar o cultivo de índigo de geração em geração. “Historicamente, sempre houve muitos mitos e lendas por causa do processo mágico do azul se revelar. Quem conseguia, mantinha segredo. É por isso que ainda hoje é bastante complicado ter acesso a informação. São poucas as pessoas que compartilham e eu não quero que esse conhecimento morra comigo.

Mesmo que não queira entrar para o ramo comercial, a pesquisadora faz questão de fechar um ciclo sustentável durante todo o processo e passar a ideia adiante. Por exemplo: o índigo é o único tingimento natural que funciona para tecidos sintéticos. Mas para Kiri, não faria sentido utilizá-lo para este fim. “Sustentabilidade é uma cadeia gigante. O que adianta todo o processo ser orgânico, se o produto final é plástico? Para onde vai essa peça depois? Porque não é biodegradável. Também não adianta eu ter uma empresa, tingir com pigmento natural e meu funcionário ser mal remunerado. Isso não é sustentável. Estaria oprimindo alguém. Eu tenho minhas falhas, mas tento ao máximo ser sustentável. Gosto de dormir bem!”.

E se é dormindo que a gente sonha, Kiri certamente segue nutrindo nos pensamentos o desejo de concretizar o propósito de toda essa jornada: plantar o verde para colher o azul místico do Japão.

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Fotos por Brunella Nunes e Kiri Miyazaki


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.


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