Cobertura Hypeness

Deputada dos EUA quer robôs trabalhando por nós: ‘Nossa criatividade não deveria estar ligada ao salário’

por: Rafael Nardini

Com status de estrela pop e uma das palestras mais concorridas de todo o festival, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, congressista mais jovem na história dos Estados Unidos, falou neste sábado (9) durante o SXSW, em Austin, Texas.

A multidão se levantou, gritou e aplaudiu quando Ocasio-Cortez entrou no palco, o maior do Austin Convention Center (ACC). Eram mais de 2 mil presentes no enorme salão. Antes, no aplicativo do SXSW, 7,6 mil haviam confirmado que lutariam por um lugar na sala apenas para o direito de ouví-la. As filas eram enormes, cruzando andares e andares no centro de convenções texano. Com tudo isso, assim que a deputada começou a falar, o silêncio foi absoluto. Dava, de fato, para ouvir um alfinete atingir o chão. O silêncio era acompanhado pelas cabeças que assentiam as palavras mais fortes da jovem do Bronx com ascendência latina.

Aos 29 anos, ela não demonstra nenhuma vontade de contemporizar. Na entrevista concedida à Briahna Grey, editora de política do The Intercept, Ocasio-Cortez falou de economia, justiça social e o que ela aprendeu em seus dois meses dentro do Congresso.

“Não é bom viver em uma sociedade desigual”, disse AOC, sua assinatura na mídia norte-americana e como é também muito conhecida, para delírio da plateia. “Não é o CEO quem está criando bilhões de dólares por ano, são os trabalhadores que criam esse dinheiro”, continuou, explicando que Nova York tem, ao mesmo tempo, a maior concentração de bilionários e de moradores de rua do país. Ela é a prova viva do conto de duas realidades discrepantes. Até poucos meses atrás, a agora deputada era mais uma trabalhadora comum tentando pagar as contas trabalhando como garçonete na Big Apple.

A deputada defendeu a automação e o uso da tecnologia para melhorar a qualidade de vida das pessoas, teríamos, segundo ela, mais tempo livre para dedicarmos ao que mais nos fizesse bem. “A automação poderia significar mais tempo educando a nós mesmos, mais tempo criando arte, mais tempo investindo e investigando nas ciências, mais tempo focado em invenções, mais tempo indo para o espaço, mais tempo aproveitando o mundo em que vivemos. Por que nossa criatividade não deveria estar ligada ao salário”, explicou, lembrando que a tecnologia deveria servir para ajudar nossa saúde mental e financeira, não o oposto.

Coragem gera coragem. Se você está cansado de viver em uma nação em crise de ansiedade, temos que rejeitar o medo de imediato

A cada fala mais firme, gritos, palmas e braços levantados. O clima no espaço lotado era parecido com o de uma final de um reality show. Quem esperou em fila por horas merecia uma declaração especial, certo? Pois, foi a primeira vez que Ocasio-Cortez afirmou com todas as letras não ver futuro nem mudança dentro do capitalismo, sistema considerado por ela como “insustentável”. “Procuramos e priorizamos o lucro e o acúmulo de dinheiro acima de tudo, acima de qualquer custo humano e ambiental. Para mim, essa ideologia é insustentável e não tem como darmos um jeito nela”.

Só há uma saída: Ter coragem

Para a deputada, as atuais tensões raciais são fruto de uma campanha iniciada por Ronald Reagan ainda nos anos 1980. “Creio que o esforço para nos dividir em raça e classe sempre foi uma ferramenta poderosa para tirar o controle do governo das pessoas que trabalham todos os dias”.

Na análise de Ocasio-Cortez, foi o ex-presidente dos EUA quem começou a estratégia de colocar os trabalhadores americanos brancos contra as minorias. O resultado? Acabar pouco a pouco com todos os direitos dos americanos. “É o reaganismo nos anos 1980, quando o ex-presidente começou a falar sobre ‘rainhas do assistencialismo'”. Ela lembrou a visão propagada pelos conservadores desde então, onde as mulheres negras “não estavam fazendo nada” e “sugavam o país” por meio de programas sociais. “Quando alguém fala algo muito racista, gosto de perguntar para elas. Fico fascinada e quero entender como é pensar dessa forma”, disse, para a plateia aplaudir uma vez mais. “É sério, eu juro”, completou.

Ela criticou a apatia como um lugar muito comum na América, nos eleitores, mas também nos políticos e na maneira de se fazer política. “Nós nos tornamos tão cínicos que vemos o cinismo como superioridade intelectual”, provocou, para arrematar na sequência: “Moderado não é uma postura, é uma atitude em relação à vida”. A resposta para enfrentarmos os enormes desafios postos pela cada vez menos eficiente distribuição de renda e por um planeta caminhando para um completo colapso ambiental seria justamente o oposto. É preciso ter coragem e pensar grande, clamou a congressista. “A coragem é autopropagada. Coragem gera coragem. Se você está cansado de viver em uma nação em crise de ansiedade, temos que rejeitar o medo de imediato”, disse ela.

Por quase uma hora e meia, Austin foi inflada com uma mensagem muito concreta de esperança, inclusão e igualdade. Quem viu, só tinha uma coisa a fazer: aplaudir de pé.

Hypeness no SXSW 2019, a melhor tecnologia do mundo é a empatia

Pelo segundo ano consecutivo, o Hypeness vai ao SXSW. Esse ano, a Dell embarcou conosco nesse projeto de ir atrás do melhor conteúdo para você. Nossa missão: O que levar do SXSW para melhorar a minha vida e das pessoas que dividem o mundo comigo? 

Que não nos ouçam as ultramáquinas de Inteligência Artificial, mas a única inovação possível é nos humanizarmos cada vez mais. 

Vale muito mais um ser humano que conhece suas potencialidades e seus limites do que qualquer inovação futurística. 

Em nossa nova estadia em Austin, no Texas, queremos abrir ainda mais a cabeça e transformar não só o que o Hypeness entrega para vocês, amigas e amigos leitores. Mas também nossas vidas.

Nossa cobertura é um oferecimento da Dell, que promete inovar a maneira que vemos filmes, séries e esportes com a tecnologia Dell Cinema em seus notebooks. 

Publicidade


Rafael Nardini
Editor e repórter com dez anos de jornalismo digital. É torcedor de arquibancada, fake de músico, comprador de vinis esquisitos e curioso na cozinha. Toca em projetos autorais de folk, mas passa o dia todo ouvindo rap. Acredita piamente que Kendrick Lamar é o Bob Dylan dos anos 2010.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Esses óculos escuros transformam o mundo em um filme do Wes Anderson