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Documentário das ocupações nas escolas de SP cria versão interativa para ser decidida em conjunto

por: Rafael Nardini

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“Aí, quando a gente não conhece bem o bagulho, quando a gente vê, assim, de fora. Nóis [sic] pensa que é tudo igual”.

Os estudantes e ativistas Lucas “Koka” Penteado, Marcela Jesus e Nayara Souza são os narradores de “Espero Tua (Re)volta”.  A fala aí de cima é de Koka, que acabou na “Malhação” e gravou rap e viralizou no Slam da Resistência. Bem, dá para dizer que são protagonistas também, ainda que talvez seja essa a grande questão de todo o movimento de estudantes que ocupou as escolas de São Paulo em 2015 para evitar o fechamento de escolas e a diminuição no número de salas de aula.

A diretora Eliza Capai apresentou nesta sexta (8), no SXSW, uma nova proposta para seu documentário que foi premiado no Festival de Berlim, na Alemanha. Ela criou o projeto de uma versão interativa de seu documentário da luta estudantil. Se o projeto – que busca parceiros – sair do papel, é o espectador quem fará as escolhas das narrativas. Tudo começa, claro, com os três narradores – Koka, Marcela e Nayara: quem você quer que te guie pelas ocupações?

A ideia, conta Eliza, tem a ver com a própria verve dos alunos que tomaram a rede pública. Como retratam matérias e os próprios estudantes, um traço muito comum nas ocupações era o de uma busca pela horizontalidade: sem líderes, sem rostos, sem bandeiras partidárias explícitas. Se os próprios estudantes, os protagonistas das ocupações, não conseguem se enxergar como guias de um movimento, por quais motivos a diretora do filme deveria achar que pode guiar quem assiste à jornada deles? Essa foi a faísca para que o filme nascesse. “O diretor vai ser o único a decidir? A versão é conduzida pelos três narradores, que provavelmente podem ser identificados como pontos centrais da luta”.

O trailer conta das diferentes vertentes. Dos mais ligados ao petismo e pouco contestadores do acúmulo sem fim de decisões que colocaram os estudantes em posição complicada até os autonomistas, radicais na agenda e nenhum pouco a fim de participar dos congressos da UNE. É difícil definir uma linha mestra, um meio termo.

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“Após os três apresentarem o cenário, a decisão vai para o público. Você deve votar, levantando a mão, quem deve narrar o próximo capítulo do filme: Koka, Nayara ou Marcela. Imagine que eu estivesse organizando a sessão, eu deveria contar os votos para cada narrador, exatamente como fizeram os alunos nas assembleias durante as ocupações. Aí, claro, há uma questão de representatividade: Homem ou mulher? negro ou branco? Autônomos ou alunos com filiações partidárias?”

A interatividade é diferente do proposto normalmente. Não é para ser uma escolha individual, mas coletiva, para ser feita em assembleia, exatamente como fizeram os alunos. “Os objetivos são mostrar que os movimentos sociais – incluindo os estudantes – são perseguidos no Brasil. Queremos mostrar como eles se organizam e como eles lutam contra a desinformação e criminalização. Outro objetivo é refletir sobre a democracia após o Brexit, do Trump aqui nos Estados Unidos e de Bolsonaro no Brasil. Hoje, a democracia é mais estudada pela imprensa, mas antes desses três eventos, a democracia era discutida dentro das ocupações. O filme [interativo] serve para provocar a audiência e mostrar o significado da democracia e a necessidade de organização das pessoas para que a democracia permaneça saudável. O último objetivo do filme é colocar pessoas de visões diferentes em um espaço seguro e fazer com que decidam qual deve ser o próximo passo do documentário juntas”, explica a diretora. Juntos, ainda que diferentes, divergentes. Colocar a audiência em contato, em reflexão, não em oposição. Exatamente como fizeram os alunos que insistiram em ensinar democracia ao Brasil após as convulsões políticas de 2013. Que o filme nos traga a lembrança de que democracia se constrói nas divergências.

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Reprodução, Divulgação (Berlinale)


Rafael Nardini
Editor e repórter com dez anos de jornalismo digital. É torcedor de arquibancada, fake de músico, comprador de vinis esquisitos e curioso na cozinha. Toca em projetos autorais de folk, mas passa o dia todo ouvindo rap. Acredita piamente que Kendrick Lamar é o Bob Dylan dos anos 2010.


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