Cobertura Hypeness

Driblando dificuldades: da proibição do futebol feminino em 1941 aos recordes de público em 2019

por: Bárbara Fonseca

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Uma partida de clubes nunca recebeu tantas pessoas em um jogo de futebol como no último domingo, 17 de março. O jogo era Atlético de Madrid e Barcelona. O público? 60 mil pessoas. Parece mais um dia normal no cotidiano do esporte. A diferença: o torneio de clubes era feminino.

O fenômeno não se restringe à Europa. Afinal, é ano de Copa do Mundo de Futebol Feminino. Finalmente as mulheres do futebol estão cada vez mais em pauta e grande parte desse movimento se deve às Dibradoras, que vieram para mostrar que lugar de mulher é onde ela quiser – inclusive dentro das quatro linhas com a bola no pé.

Pelo segundo ano consecutivo as Dibradoras Renata Mendonça, Angélica Souza e Roberta Cardoso (Nina) promoveram no Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu, o debate “As Conquistas Delas”. Os convidados da vez foram Roseli, atacante da primeira seleção de futebol feminino do Brasil, convocada pela primeira vez em 1986, Cristiane, atual atacante da seleção e do São Paulo e René Simões, técnico da histórica medalha de prata na Olimpíada de Atenas de 2004.

O debate girou em torno de diferenças de salários e investimentos no futebol feminino, falta de público e visibilidade do esporte. Organizado na última terça-feira (19), o evento foi um exemplo de que o trabalho da publicitária e das jornalistas para dar visibilidade às mulheres no esporte foi e é GIGANTE.

Foto: Aline Julio

Em 1941, o então presidente Getúlio Vargas lançou um decreto-lei proibindo a prática do futebol feminino.

A proibição durou até 1979, o que explica parte do atraso nos interesses de empresas e das próprias mulheres pelo investimento e pela prática no país.

Para um menino que já nasce com a bola no pé é muito mais fácil sonhar e lutar por uma carreira profissional do que para uma menina que, dificilmente, tem contato com a redonda na infância – e somente com muita insistência, consegue desenvolver suas habilidades.

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“Eu comecei com 15 anos. Era difícil. Apanhava demais do meu irmão porque ele achava que só existia eu de mulher na face da terra que jogava bola. Mas não. Com 16 anos eu fugi de casa, fui para o Juventus e vi mais umas 30 mulheres e pensei ‘nossa, não sou só eu não!’ ” contou Roseli.

Roseli com a bolinha de tênis que cuidou durante 5 meses. Brincadeira do treinador René

Foto: Roberta Nina/ Dibradoras

Cristiane começou a jogar com 6 anos ao acompanhar o irmão na escolinha de futebol, único momento que conseguia uma bola para chutar, nos intervalos dos treinos, em uma época onde não haviam outras meninas jogando.

Enfrentando o preconceito dos vizinhos e das outras crianças, dos pais que não queriam aceitar a habilidade e tentaram convencê-la até a dançar ballet, a atacante insistiu até convencer a mãe a ficar ao seu lado. Contrariando todas as expectativas, conseguiu ganhar a atenção de um vizinho que patrocinou uma escolinha e todo o material necessário para dar o pontapé inicial para a sua carreira de jogadora.

“Naquela época todo presente que eu ganhava eu esperava que fosse uma bola. E eu não ganhava bola, ganhava boneca. Aí eu ficava doida da vida com aquilo e, escondida, eu arrancava a cabeça das bonecas, cortava os cabelos delas e ficava chutando as cabeças das bonecas até fazer alguém entender que o que eu queria mesmo era uma bola.”  Contou Cris arrancando gargalhadas das meninas da platéia que (ainda bem) já não encontraram as mesmas barreiras para começar.

Foto: Roberta Nina/Dibradoras

No mundial de 2004, apesar de um jogo muito superior ao das americanas, que levaram o ouro, a prata das brasileiras foi extraordinária. René foi técnico da seleção e teve somente cinco meses para preparar a equipe para o campeonato – um desafio enorme para um grupo sem nem a metade da estrutura que era dada à seleção masculina da época. A medalha foi histórica, marcou a luta das mulheres por igualdade dentro do esporte e, com muita briga, abriu os olhos da CBF para a modalidade.

O debate foi cheio de resenhas, com hilárias histórias de vestiário, de luta e de exemplos dessas mulheres que fizeram o futebol feminino chegar onde está hoje e mostraram que ainda há uma longa estrada a se percorrer, mas que estamos no caminho certo.

Com a obrigatoriedade das equipes de manter uma equipe feminina, transmissão do mundial em canal aberto e patrocínios inéditos, abrimos espaço para desenvolver a categoria, mas o trabalho para fortalecê-la e consolidá-la deve ser visto a longo prazo.

De qualquer forma, ainda temos muita luta pela frente.

Acompanhe a cobertura do Hypeness sobre o Mundial Feminino de Futebol que começa em junho! 🙂

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Bárbara Fonseca
Cervejeira, feminista e torcedora de arquibancada, não perde a oportunidade de levar o protagonismo feminino para esses espaços. Cientista social, é de humanas, mas não tem medo de planilha. Recentemente, mergulhou de cabeça em sua paixão: assina as criações da Cervejaria Catimba e integra o coletivo cervejeiro feminista Sailorina.


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