Debate

‘É um PPT, ministro’: Deputada de 25 anos expõe despreparo do Ministério da Educação

por: Kauê Vieira

A sangria do Ministério da Educação parece ter saído do controle depois da participação de Ricardo Vélez Rodríguez na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. O chefe do MEC tomou uma lição de planejamento da deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP).

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Eleita aos 25 anos, a parlamentar expôs a falta de rumo de uma pasta fundamental, mas que insiste em priorizar o combate ao fantasma do comunismo e a militarização de escolas públicas como trunfos para a elevação do nível de ensino no Brasil.

Tabata pediu demissão de ministro da Educação

Vélez chegou a citar Pablo Escobar, que segundo ele atraía traficantes com campos de futebol, para defender a educação cívico-militar.

“O traficante dá no pé, porque quer massa de manobra. Era o que fazia Pablo Escobar em Medellín. A mesma coisa. Pablo Escobar tinha campos de futebol para os jovens e uma pequenina biblioteca. Por isso, eu tenho esses jovens aqui, e não consomem cocaína, porque é produto de exportação. A ideia não era consumir na Colômbia”.

Tabata Amaral não comprou o barulho e colocou o ministro na parede, insistindo em perguntas sobre medidas práticas para a gestão do ensino no Brasil. Não teve sucesso.

“Hoje (quarta-feira) participei de uma reunião com o Ministro Ricardo Veléz na Comissão de Educação. Insistentemente o questionei sobre quais eram os projetos e metas para melhorar a qualidade da educação no Brasil, mas não obtive resposta”, escreveu uma das deputadas mais votadas de São Paulo em vídeo publicado nas redes sociais.

Tabata é astrofísica e cientista política. A deputada estreante em Brasília criticou a ausência de propostas concretas para a educação. “Em um trimestre, não é possível que o senhor apresente um powerpoint com dois, três desejos para cada área da educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis? Isso daqui não é planejamento estratégico, isso e uma lista de desejos”.

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Em três meses, Vélez não ganhou os holofotes por planos, por exemplo, para diminuição dos índices de êxodo escolar, terceiro maior do mundo. Em média, 24,1% dos alunos não concluem o Ensino Fundamental até os 16 anos. Pelo contrário, ficou famoso pelo número elevado de demissões.

“Eu quero saber onde que eu encontro esses projetos? Quando cada um começa a ser implementado? Quando serão entregues? Quais são os resultados esperados? São três meses, a gente consegue fazer mais do que isso”, questionou a deputada federal paulista.

Em fala desastrosa, Ricardo citou até Pablo Escobar

Difícil imaginar que a debandada das salas de aula se resolva com a obrigatoriedade de cantar o hino nacional. A medida chegou a ser proposta oficialmente pelo Ministério da Educação, que sugeriu ainda que estudantes menores de idade fossem filmados e repetissem o slogan de campanha de Jair Bolsonaro (PSL).

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A inconsistência se refletiu na falta de paciência dos deputados federais presentes na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, sobretudo de Tabata Amaral, que pediu a saída de Ricardo Vélez Rodríguez.

“Eu não espero mais nenhuma resposta, já entendi que isso não vai acontecer. A mim, me resta lamentar o que está acontecendo, continuar o meu trabalho de educação, que não começa com este mandato, e esperar que o senhor mude de atitude – o que parece completamente improvável – ou saia do cargo de ministro da Educação”.

O colombiano naturalizado brasileiro demonstrou irritação com a postura da deputada federal de 25 anos. O filósofo de 75 disse que só sai se o presidente assim quiser.

“Se a senhora não espera nenhuma resposta, para que faz perguntas? A única coisa que posso dizer é que fico. Só me demito se o senhor presidente da República me pedir. Se ele, que é o chefe do Estado, achar que minha colaboração não está sendo adequada”.

Guerra ideológica e demissões. E a educação?

O Ministério da Educação está dominado pela tão combatida ideologia. De um lado os militares. Do outros, seguidores do guru da presidência Olavo de Carvalho. No meio, Ricardo Vélez, que até agora não conseguiu preencher o segundo posto mais importante da pasta.

Há alguns dias, o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, declarou que o MEC precisava de um “freio de arrumação”.

Ministro de Bolsonaro foi indicado por Olavo de Carvalho

Depois do desligamento da pastora que aposta na educação baseada na palavra de Deus, Marcos Vinicius Rodrigues foi convidado a se retirar do comando do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Ao Bom Dia Brasil, ele declarou que não há comunicação dentro do Ministério da Educação. A decisão se concretizou após outra trapalhada. Na segunda-feira (25), Vélez assinou portaria extinguindo a avaliação da alfabetização de crianças em 2019.

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Horas depois da publicação em Diário Oficial das novas regras do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o Inep declarou que o teste voltaria apenas em 2021. Não custa lembrar que 11 milhões de pessoas, ou 7% da população brasileira é formada por analfabetos. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).

A portaria do ministro gerou polêmica e foi anulada no dia seguinte, pelo próprio Ricardo Vélez Rodríguez. Marcos Vinicius Rodrigues garante ter assinado a portaria com respaldo do secretário de Alfabetização do MEC, Carlos Nadalim.

Documento assinado por Carlos Nadalim

“Foi um processo muito ruim, que mostrou a incompetência gerencial muito grande”, encerrou. Ele revelou que, em três meses de governo, não houve uma reunião de trabalho com o ministro da Educação.

Para o ministro, houve ‘puxada de tapete’

Ainda durante a audiência pública na Câmara dos Deputados de terça-feira (27), o ministro da Educação justificou a demissão de Marcus Vinicius Rodrigues, “puxou o tapete”.

“A última demissão no MEC [ocorreu] porque o diretor-presidente do Inep puxou o tapete. Ele mudou de forma abrupta o entendimento que já tinha sido feito para a preservação da Base Nacional Curricular e fazer as avaliações de comum acordo com as secretarias de educação estaduais e municipais ”, encerrou Vélez.

Ministro demitido e fake news de Bolsonaro

Na noite de quarta-feira (27), a jornalista da Globo News Eliane Cantanhêde cravou a demissão de Ricardo Vélez Rodríguez. “Bolsonaro decidiu demitir o ministro da Educação, Velez Rodrigues. Os motivos são óbvios”, disse no programa Em Pauta.

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Segundo reportagem da Folha de São Paulo, o ministro indicado por Olavo de Carvalho está desgastado e mal avaliado, principalmente depois da repercussão negativa de fala na comissão e entrevista de Jair Bolsonaro na TV Bandeirantes.

“Temos que resolver a questão da educação. Realmente não estão dando certo as coisas lá, é um ministério muito importante. Na minha volta da viagem de Israel eu vou conversar com o Vélez”, afirmou o presidente.

Embora a demissão seja dada como certa entre assessores, o presidente negou. No Twitter, ele chamou de fake news a notícia de Eliane. Completou acusando a mídia de criar “narrativas de que NÃO GOVERNO, SOU ATRAPALHADO, etc”.

 

 

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Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: Câmara dos Deputados/foto 3: EBC/foto 4: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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