Matéria Especial Hypeness

Empresas e pessoas só vão se preocupar com o desperdício da água se doer no bolso

por: Kauê Vieira

O Dia Mundial da Água foi criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 21 de Fevereiro de 1993. O simbolismo da data serve para que autoridades promovam a conscientização pública sobre a importância de preservar os recursos hídricos.

Há pouco para se comemorar. O bem mais importante para a existência de vida na Terra está ameaçado. No Brasil, o rompimento de duas barragens controladas pela Vale matou os rios Doce e Paraopeba (país tem 53 rios com água imprópria). Só em 2016, o país desperdiçou 38% de água potável nos sistemas de distribuição.

A falta de cuidado com a água reflete no bolso. O Brasil perdeu, no mesmo 2016, mais de R$ 10 bilhões. Os resultados são de um estudo do Instituto Trata Brasil, que aponta um sistema caótico, com vazamentos nas tubulações, erros de leituras e fraude.

Sistema Cantareira, em SP, motivo de preocupação

Silvia Mello é professora do Curso de Ciências Biológicas e pesquisadora do Mestrado em Desenvolvimento Local  do Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), ela alerta para a incidência de doenças causadas pelo consumo de água não tratada e sublinha a importância de políticas públicas efetivas que garantam o acesso à água potável para todos.

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“O consumo de água contaminada pode ocasionar diversas doenças como diarreia, febre tifoide, hepatite, infecção intestinal, cólicas, cólera, entre outras.  Nas cidades, a água tratada é essencial para a vida humana. A falta de políticas públicas que garantam água tratada para todos pode ocasionar consequências irreparáveis para a população, ou seja, a falta de água isenta de contaminação microbiológica e química, além de ocasionar doenças com consequências para toda a vida  do indivíduo, acarreta o aumento dos custos com atendimentos nas unidades de saúde”, explica em entrevista ao Hypeness.  

A educadora cita a densidade populacional como outro complicador. Certamente você já ouviu falar dos mananciais – fontes de água superficiais ou subterrâneas, que podem ser usadas para o abastecimento público, incluindo lagos, rios e represas.

A falta de planejamento urbano em São Paulo, maior cidade do Brasil, reflete, sobretudo, na garantia do abastecimento de água. O Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) – ONG que há mais de 30 anos estuda o ecossistema de regiões como a Cantareira (principal centro de abastecimento da cidade), mostra que 49% do entorno da represa Billings foram ocupados por pasto. Outros 38% ainda estão florestados.

Desafio: Densidade populacional e preservação de mananciais

A ausência de terreno saudável para a preservação da água resultou em uma das maiores crises hídricas da história de São Paulo. Entre 2014 e 2016, o estado mais rico da nação viu o Sistema Cantareira, que garante água na torneira de mais de 8 milhões de pessoas, secar. Para a professora da UNISUAM, a poluição e falta de planejamento custam caro.

“O tratamento das águas oriundas de mananciais próximos aos grandes centros, já comprometidos pela poluição, não é tarefa fácil e se faz necessário um gasto muito alto com produtos químicos e despesas operacionais. Na verdade, esses mananciais estão comprometidos pela falta de saneamento básico nas cidades”.

Luiz Felipe Forgiarini, coordenador do Curso de Ciências Biológicas do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), culpa a falta de planejamento. Para o integrante do Projeto Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica, é preciso estabelecer políticas alternativas de preservação.

“O compasso das dinâmicas hídricas não possui um planejamento adequado no Brasil, sendo observado pelo intenso assoreamento dos rios e falta de permeabilidade do solo nas cidades – onde podemos encontrar muitas construções com materiais de baixa absorção. Com isso, precisamos pensar em alternativas para a preservação de recursos e absorção de águas. Somente desta forma teremos um melhor aproveitamento e gestão dos recursos hídricos”, comenta em conversa com Hypeness.

‘Saneamento básico o c*cete, isso é o mínimo’

Como canta o rapper Criolo, o Brasil ainda não é capaz de oferecer o mínimo, água e esgoto tratados para a população. O mesmo Trata Brasil diz que apenas 45% do esgoto gerado no Brasil passa por tratamento. Ou seja, outros 55% são jogados na natureza. Isso quer dizer que 5,2 bilhões de metros cúbicos por ano – 6 mil piscinas olímpicas por dia – são despejadas em rios e mananciais (alô Tietê e Pinheiros).

Sistema hídrico de qualidade ajuda o meio ambiente e salva vidas. Em 2016, 83% da população tinha água potável na torneira de casa. Evolução pequena, já que em 2011, eram 82% contemplados.

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“O saneamento básico é uma questão essencial de infraestrutura das cidades e precisa ser pensada e operacionalizada pelo governo, mesmo que em parceria com empresas privadas. Atualmente as prefeituras são as principais poluidoras dos mananciais destinados ao abastecimento de água da população, devido à inexistência de saneamento básico efetivo na maioria das cidades brasileiras”, ressalta Silvia Mello, professora de Ciências Biológicas.

A urbanização reduziu em 20% áreas de bacias hidrográficas mundo afora. Embora o uso doméstico responda somente por 8% do consumo de água, ele tem impactado na qualidade da água disponível.

“Projetos de educação ambiental nas escolas têm conscientizado os estudantes quanto à necessidade de evitar o desperdício de água ao escovar os dentes, tomar banho, lavar o quintal, entre outros”, pontua Silvia.  

As cidades precisam mudar a relação com as chuvas

O aquecimento global transformou a relação das grandes cidades com as chuvas. As conhecidas enchentes ganharam proporções maiores e escancaram o planejamento falho do poder público e o déficit de consciência ambiental da população.

“Grande parte da população não se preocupa com a destinação do lixo; com o acúmulo de lixo na rua, que nos dias de chuva e carreado e contamina os corpos receptores de água. A conscientização por meio da educação ambiental ainda é muito pequena. Existe a necessidade real da mudança de atitude das pessoas e não só do governo”, alerta Silvia.

Quem são os peixes grandes desta história, então? A indústria. O setor da moda é o terceiro que mais consome água no mundo. Para a confecção de uma camiseta, por exemplo, são gastos até 2.700 litros de água. A mestre em Desenvolvimento Local acredita que algumas empresas estão revendo conceitos, mas alerta que mudança substancial acontece quando doer no bolso.

“Acredito que isso vem ocorrendo mesmo que de forma tímida, não pela conscientização ambiental, mas muito pelo custo da água. No estado do Rio de Janeiro, indústrias de pequeno, médio e grande porte, já se preocupam com o custo da água. Acredito que esses setores só vão incorporar a necessidade da adoção de novas tecnologias para diminuir os gastos com água, quando sentirem que no cálculo do custo final de seu produto, o gasto com água representa um percentual significativo. Pesquisas para reuso de água nos diversos setores da economia estão acontecendo e a tendência será a adoção dessas tecnologias, mas esse processo precisa ser mais acelerado no Brasil”, diz a professora Silvia. 

A agricultura consome cerca de 72% da água captada no país, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA). As informações são conflitantes, o SOS Mata Atlântica diz que as perdas podem atingir 70%, já a Embrapa aposta em 15% a 20%, nas áreas de atuação. A professora da UNISUAM explica os caminhos sustentáveis são imprescindíveis para garantir a segurança hídrica.

“O grande consumo de água na irrigação é uma realidade, mas diversas formas de sistemas integrados de produção estão sendo adotados no mundo inteiro, visando a diminuição do consumo. Um exemplo é o compartilhamento da água destinada à irrigação com a criação de organismos aquáticos. Na produção de organismos aquáticos de água doce (peixes, camarões, rãs), o sistema de recirculação de água é bastante utilizado, em especial nos países desenvolvidos”.

Agricultura é quem mais gasta água no Brasil e no mundo

Silvia acrescenta, “esses sistemas diminuem em até 95% o consumo de água, pois a reposição é somente da água que evapora e das pequenas perdas durante o manejo. As Instituições de pesquisa atuam de forma bastante expressiva no desenvolvimento desses sistemas. O Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM), em parceria com a Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, desenvolveu sistemas de recirculação de água na ranicultura, tanto para a produção de girinos quanto para a produção de rãs. Com o uso desses sistemas, o gasto com água na criação de rãs é muito pequeno. Essa tecnologia foi repassada para os produtores da região sudeste do país em parceria com a Embrapa”.

Luiz Felipe Forgiarini propõe colaboração mútua entre o setor agrícola e sociedade. Para o integrante do Projeto Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica, não se trata de demonizar nenhum dos lados.

“Alguns estudos demonstram que 60% da água utilizada em irrigação acaba sendo perdida por um processo natural de evaporação. Será que não podemos otimizar? Ou produzir alimentos de forma sustentável? Segundo a Food and Agriculture Organization of the United Nations se conseguíssemos realizar uma redução de 10% no desperdício de água neste setor, seria possível abastecer o dobro da população mundial. Não cabe sobrecarregarmos o setor, mas integrarmos esforços para o desenvolvimento de alternativas em benefício de todos”, ressalta.

Os rejeitos tóxicos da Vale mataram o Rio Paraopeba

O governo federal anunciou o início de pesquisas em Israel para a dessalinização da água do mar. Segundo especialistas, a tecnologia está disponível, porém custa caro e consome bastante energia elétrica. O processo prevê um tratamento que retira o excesso de sais minerais presentes na água salgada para a obtenção da água potável.

“Muitos países estão apelando para a dessalinização da água do mar, mas existem muitas implicações na utilização dessa tecnologia pelos países periféricos”, declara Silvia.

A palavra de ordem é segurança hídrica. O termo passa pela velha máxima de colaboração entre Estado e sociedade. Rios poluídos, falta de punição em casos de tragédias ambientais, saneamento básico falho e ausência de moradia e, consequentemente, qualidade de vida, implicam em uma situação ameaçadora para a oferta de água potável para todos. Pois, segundo a ONU, mais de 30% da população mundial não vai ter água suficiente para viver. 

“Envolve a gestão dos riscos a que a população e o ambiente estão sujeitos, como extremos de secas, inundações e de falhas de gestão. Vários são os fatores que interferem, como alterações climáticas e, principalmente, fatores antrópicos. A grande questão para a segurança hídrica é: O que cada um de nós está fazendo para alterar esta situação? Vamos repensar sobre nossos hábitos e atitudes, nossos padrões de consumo. Cabe a nós fecharmos a torneira e nos conscientizarmos de que é preciso investir no desenvolvimento de tecnologias que evitem desperdícios em todos os setores”, finaliza Luiz Felipe Forgiarini, coordenador do Curso de Ciências Biológicas da UniRitter e integrante do Projeto Observando os Rios, da Fundação SOS Mata Atlântica.

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Fotos: fotos: 1, 2, 3 e 4: EBC/foto 5: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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