Matéria Especial Hypeness

Fanny: uma das mais importantes bandas de mulheres da história do rock

por: Vitor Paiva

Se mesmo no mundo de hoje, em que as mulheres cada vez mais conquistam e se afirmam no topo da cadeia alimentar da música pop, ainda resta um predomínio masculino no cenário musical como um todo, há 50 anos a hipótese de uma banda de rock composta somente por mulheres se destacar entre os gigantes que mandavam no gênero era praticamente inconcebível.

Alguns grupos, porém, formados no final dos anos 1960, decidiram enfrentar tal hegemonia e, inspirados em nomes com Janis Joplin, The Ronettes e Gladys Knight, armaram-se com seus instrumentos para rejeitar o arquétipo feminino da época e se afirmarem como excelentes bandas. Um dos mais interessantes grupos surgidos então, e que praticamente desapareceu na poeira do tempo, foi a banda Fanny – a primeira composta só por mulheres a alcançar sucesso comercial e de crítica.

Da esq. pra dir.: June Millington, Nickey Barclay, Jean Millington e Alice de Buhr

Formada em 1969 pelas irmãs June e Jean Millington na guitarra e no baixo ao lado de Nickey Barclay nos teclados e Alice de Buhr na bateria, a Fanny era composta não só por mulheres como por imigrantes: as irmãs Millington eram filhas de um militar americano com uma mãe filipina, e se mudaram de Manila, capital das Filipinas, para a Califórnia em 1961, quando começaram suas carreiras musicais.

A banda foi descoberta pelo produtor Richard Perry, que estava atrás de um grupo formado feminino – e que convenceu a gravadora Warner a contratar a banda sem sequer ter escutado sua música. Esse sinal inicialmente sexista por parte da gravadora – que procurou vender a imagem simplesmente, como se a música não importasse – talvez tenha sido a oportunidade perfeita: sem qualquer submissão aos estereótipos erotizados ou singelos da presença feminina no universo musical da época, a Fanny se tornou uma banda de destaque por sua qualidade musical, sua força, sua atitude – era uma banda que botava pra quebrar.

Influenciadas pelos Beatles, pelo som da Motown, pelo Funk e por bandas pesadas da época como Led Zeppelin e The Who, Fanny não foi a primeira banda exclusivamente feminina a assinar com uma gravadora – vide casos anteriores, como Goldie & The Gingerbreads, Freudian Slips e Pleasure Seekers – mas foi a primeira a efetivamente lançar um disco, e principalmente a colocar uma música entre as 40 mais tocadas dos EUA, segundo a Billboard.

Entre 1970 e 1974, lançaram 5 discos: Fanny (1970), Charity Ball (1971), Fanny Hill (1972), Mother’s Pride (1973) e Rock and Roll Survivors (1974). O single “Charity Ball” alcançou o Top 40 da Billboard em 1971, numa conquista que deveria ainda ecoar na carreiras e vidas das tantas mulheres brilhantes que ajudaram a fomentar o rock e a música pop como um todo até hoje.

Lamentavelmente, porém, o nome da Fanny quase nunca é lembrado como as desbravadoras pioneiras que foram, em especial nos EUA. Todas elas cantavam e tocavam seus instrumentos, mas isso não era de forma alguma o suficiente para que um grupo de mulheres se destacasse em meio ao rock do fim dos anos 1960. “Enquanto mulher você não podia dizer que ‘tocava em uma banda’”, afirmou June Millington. “Era mais fácil dizer que estava indo pra lua. Não era uma experiência possível. Nós tivemos que construir nossa própria cena – e então entrar nela”, concluiu.

A banda viajou em turnê abrindo para grandes nomes como Kinks, Procol Harum, Jethro Tull e Humble Pie, e nas horas vagas também trabalhava como musicistas de estúdio – são elas a banda por trás do disco Barbra Joan Streisand, de Barbra Streisand, de 1971.

Nesse ano a Fanny também se apresentou nos principais programas de TV do país, e no ano seguinte, ganhariam em David Bowie um grande fã. “Elas foram uma das melhores bandas de rock de seu tempo. Eram tão importantes quanto todos os outros”, Bowie afirmou, em entrevista para a Rolling Stone em 1999. “Elas eram extraordinárias: escreviam tudo, tocavam pra cacete, eram colossais e maravilhosas, e ninguém nunca as menciona”, concluiu Bowie.

Uma crítica da revista Rolling Stone sobre o terceiro disco da banda, Fanny Hill, dá a dimensão do potencial, do impacto e da expectativa que havia sobre a banda. “O número de grupos que conseguem inspirar afeição do jeito que Fanny alcança com esse disco, simplesmente a partir da exuberância de sua música, é realmente pequeno”, diz a crítica.

A pressão da gravadora para alcançar um sucesso ainda maior, mais fácil e rápido, porém, foi minando aos poucos a já difícil e aguerrida trajetória da banda.

Aos poucos o esforço comercial para que adotassem uma postura artificial ainda mais roqueira e se vestissem com roupas de designers fez com que June saísse da Fanny, em 1973. Quando, em 1975 e já sem June, lançaram o single “Butter Boy”, escrita por Jean sobre David Bowie – que viria a se tornar o maior sucesso do grupo, alcançando o 29º lugar na Billboard – a Fanny já havia se separado.

O legado, porém, já era firme, e a sucessão de mulheres que viriam a conquistar o espaço antes quase que exclusivamente masculino, em especial da virada dos anos 1970 para os 1980 e em diante, é também a herança não só musical, mas ética e até mesmo política da banda – mesmo que se trate hoje de uma herança fantasma, praticamente esquecida.

June Millington

Não é exagero, afinal, elencar um imenso número de bandas e artistas que devem ao pioneirismo da Fanny a abertura do caminho que viriam a traçar. Heart, The Runaways, Joan Jett & The Blackhearts, Blondie, The Bangles, The Go-Go’s, B52’s, The Pretenders, Eurythmics, Garbage, Siouxsie & The Banshees, Veruca Salt, L7, 7 Year Bitch, Hole, Babes in Toyland e o movimento Riot Grrrl, Yeah Yeah Yeahs, Florence and the Machine e muitas outras caminham hoje sobre os ombros também da Fanny.

Jean Millington, Brie Darling e June Millington, em uma reencarnação recente da banda

Fanny é uma banda que dificilmente será lembrada para algo como o Hall da Fama do Rock, e que muitas vezes sequer é celebrada por seus e suas pares – mas que efetivamente ajudou a desbravar, trilhar e pavimentar o duro e luminoso caminho das mulheres no rock e na música pop, com uma música forte, porrada, bela e de qualidade singular.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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