Matéria Especial Hypeness

Felipe Miranda e Marcos Elias: os homens que se escondem atrás de Bettina

por: Kauê Vieira

Os métodos adotados por Bettina Rudolph monopolizaram o debate dentro e fora das redes sociais. Em vídeo de pouco mais de 1 minuto, a administradora de empresas diz que ganhou R$ 1 milhão  a partir de investimento de pouco mais de 1.500 reais.

“Oi. Meu nome é Bettina, eu tenho 22 anos e 1 milhão e 42 mil reais de patrimônio acumulado”, afirma.

A jovem de 22 anos é a estrela principal de uma campanha publicitária veiculada pela Empiricus Research. O sistema de educação financeira e investimento defendido por Bettina Rudolph foi questionado por economistas, entre eles Samy Dana, que ironizou a tese em postagens no Twitter.

No Entanto, o nome da Empiricus Research e de figuras como Felipe Miranda – CEO da empresa – passaram ao largo. Afinal, qual o objetivo da companhia ao expor uma mulher jovem prometendo ganhos milionários em uma ação no mínimo questionável?

Em sua página oficial, a Empiricus se define como uma empresa que “ajuda pessoas comuns a conquistarem a independência financeira”. A Empiricus não se enquadra como banco ou corretora. “Vendemos assinaturas, onde publicamos ideias com as melhores sugestões de investimentos”, diz o texto institucional.

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A Empiricus Research é a maior publicadora de ideias de investimentos do Brasil e possui mais de 300 mil assinantes únicos ativos. O que importa para a empresa é atrair clientes em potencial interessados em consultorias sobre investimentos e estratégias para investir na bolsa e, consequentemente, ganhar dinheiro.

São três opções de assinaturas: anual, trienal e vitalícia. O pacote mais barato sai por R$ 16 e o mais caro, que dá acesso aos relatórios da Empiricus, é vendido pela bagatela de 50.400 reais.

Bettina virou o centro, mas a Empiricus tem trajetória bem mais complexa

A empresa foi fundada em 2009 por dois ex-analistas do site de notícias InfoMoney, Felipe Miranda e Rodolfo Amstalden, além de Marcos Elias, ex-sócio da corretora Link. Desde então, a Empiricus acumula crescimento astronômico. Segundo reportagem da Exame, eram mais de 180 mil clientes em 2017. Em 2016, a Empiricus faturou 154 milhões de reais.

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Publicidade é dinheiro e isso é o mais importante para a empresa sediada em São Paulo. Por isso, a Empiricus investiu pesado na construção de uma imagem que pudesse atrair um nicho específico. Além da propaganda, a equipe de analistas produz conteúdos diversos, manchetes agressivas e promessas no mínimo duvidosas para para garantir sucesso no mercado financeiro.

“A estratégia capaz de transformar 1.500 reais em mais de 227.000 em apenas um mês”, diz um dos milhões de e-mails.

Felipe Miranda afirma que a Empiricus é de caráter jornalístico

Especialistas contestam a insistência da Empiricus de não alertar para os riscos. A atitude espalhafatosa chamou a atenção de órgãos como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que abriu processo contra a empresa.

A CVM reafirmou que a Empiricus não tem autorização para atuar como analista de investimentos. A reguladora lembrou que, em dezembro de 2018, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) suspendeu liminar que havia afastado a exigência de credenciamento da Empiricus como analista de valores imobiliários.

– Procon: Empiricus tem 48 horas para prestar esclarecimentos sobre vídeo de Bettina

“Como sustentado pela CVM e confirmado pelo TRF3, os relatórios de análise de investimentos elaborados e divulgados ao público são inerentes ao exercício da atividade de analista de valores mobiliários, submetida ao regime regulatório estabelecido pela CVM”, disse o órgão em tom de alerta ao consumidor.

Felipe Miranda bate o pé e assegura que a empresa “não respeita a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como seu regulador”. O diretor executivo ressalta que estar sob o guarda-chuva a CVM é mera formalidade.

Fundada em 2009, Empiricus ganhou mais de R$ 150 milhões

Miranda, que é economista, garante, como apresentou à Justiça, que a Empiricus é uma companhia de caráter jornalístico e não uma casa de análise de valores mobiliários. O problema é que a Empiricus possui pelo menos 30 analistas de investimento na sede de São Paulo.

A CVM destaca ter recebido ao menos 15 processos administrativos, resultado de queixas de investidores sobre, entre outras coisas, o marketing digital agressivo da companhia.

Ao jornal o Globo, Felipe Miranda chegou a dizer que é só por meio do “tiro, porrada e bomba” que dá para “democratizar os investimentos no Brasil”. E completa, “a gente não respeita a CVM como nosso regulador. Eu não posso aceitar qualquer tipo de regulação numa atividade eminentemente editorial”.

Prisão na Suíça e extradição

Falando em processo, o já citado Marcos Elias, um dos fundadores da Empiricus, foi extraditado para os Estados Unidos em agosto passado por suspeitas de fraudes com correntistas brasileiros em bancos norte-americanos.

– Bettina diz que não disse o que disse: “Nunca falei que transformei R$ 1.520 em R$ 1 mi”

O homem de 47 anos, autodefinido como “um sujeito que adora engenharia e matemática, filosofia e história em quadrinhos”, foi preso na Suíça e extraditado aos EUA pelos crimes de fraude telefônica, fraude eletrônica, receptação de propriedade roubada e roubo de identidade agravada.

Elias, um dos fundadores da Empiricus, se declara culpado por fraude com correntistas

De acordo com a Justiça dos Estados Unidos (veja parecer aqui), Elias participou de um esquema para obter R$ 2,98 milhões por meio de fraude em bancos norte-americanos usando declarações falsas e identidades roubadas de correntistas brasileiros. O caso corre em um tribunal de Nova York.

“Fingindo ser funcionário do titular da conta, o suspeito supostamente roubou centenas de milhares de dólares que não lhe pertenciam. Ele agora foi trazido de volta aos Estados Unidos para enfrentar a justiça e devolver o dinheiro que roubou”, declarou em comunicado o diretor-assistente do FBI, William F. Sweeney Jr.

O analista de mercado financeiro se declarou culpado e pode pegar até 30 anos de prisão, se condenado. O mestre em direito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) saiu em litígio da Empiricus em 2012. Na empresa, atuou como chefe de pesquisa, escrevendo relatórios com o famoso tom polêmico e agressivo.

A Apimec considera os e-mails enviados pela Empiricus ‘propaganda enganosa’

Em um dos documentos, Marcos Elias atacou a Marfrig, o que serviu de peça principal em processo por violação de código de conduta da Associação dos Analistas Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). Teve o registro suspenso por 12 meses.

Elias saiu da Empiricus abrindo processo. O gestor alegava ter sido pressionado a deixar a sociedade. O ex-executivo formado em engenharia mecânica pela Universidade de São Paulo (USP) se dizia prejudicado pois, segundo ele, logo após sua saída, a Empiricus recebeu aporte da empresa norte-americana Agora. A ação foi dada como extinta pela juíza da 12ª Vara Cível Maria Carolina de Mattos Bertoldo.

Felipe Miranda escreveu no site oficial da companhia que Marcos Elias não tem vínculo algum com a Empiricus desde 2012.

“[Marcos Elias] Saiu da Companhia em 2012, quando tínhamos um total de 180 assinantes — hoje temos 200 mil. Há seis anos que nenhum dos sócios da Empiricus nem nenhum de seus colaboradores mantêm contato com Marcos Elias. Aliás, ao contrário, mas isso é assunto particular”.

O CEO aproveitou para criticar alguns veículos de esquerda. “A Revista Fórum participa daquele famigerado grupinho da Carta Capital, Conversa Afiada, Brasil247 e dos blogs sujos em geral. O pessoal barra-pesada que levava bola das estatais e afins para defender o PT contra tudo e contra todos, sob o pretexto de fazer ‘jornalismo’”.

O Antagonista

Falando em jornalismo, Felipe Miranda é um dos principais acionistas de O Antagonista. Em 2016, Miranda e a Empiricus compraram, por 5 milhões de reais, metade do site de notícias.  

A partir do trabalho de jornalistas experientes como Diogo Mainardi e Mário Sabino, O Antagonista se tornou um dos sites de notícias brasileiros mais acessados de 2017. Mas, foi durante a corrida eleitoral de 2018 que a plataforma alcançou um lugar ao sol. O portal teve crescimento expressivo, se destacando pelo vazamento de interrogatórios do então juiz Sérgio Moro.

A Empiricus pagou R$ 5 milhões por 50% de O Antagonista

O Media Ownership Monitor destrinchou o controle do portal em 2017. 50% sob gestão da Empiricus Research; 30% de Diogo Mainardi e 20% de Mario Sabino.

A Empiricus, como noticiou o Le Monde Diplomatique, tem como sócios o grupo The Agora, Inc (dos Estados Unidos) e a empresa brasileira Sextus Empreendimentos e Participações, controlada por Caio Cesar de Arruda Mesquita, Felipe Abi-Acl de Miranda e Rodolfo Cirne Amstalden.

A holding fundada em 1978 opera em uma rede de publicações de finanças, saúde e viagens, com enfoque em newsletters – aquele boletim diário que você recebe na caixa de entrada do e-mail. Newsletter, inclusive, é o principal canal de comunicação a Empiricus com o público.

Em 2017, Apimec (Associação de Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais) suspendeu por 30 dias o registro de três analistas, incluindo Felipe Miranda.

O motivo? Os e-mails enviados pela empresa foram considerados propaganda enganosa, segundo a associação, por induzirem o investidor a acreditar no retorno garantido do dinheiro.

“Os e-mails possuem clara indicação de garantia de retorno de investimentos, com base em resultados obtidos no passado, induzindo os potenciais clientes da Empiricus a interpretações equivocadas quanto aos resultados de seus futuros investimentos”, salientou a Apimec.

Em 2017, o Apimec suspendeu por 30 dias o registro de três analistas

Desde então, Miranda e a Empiricus travam uma verdadeira batalha com o órgão. Como noticiou o Hypeness, a companhia anunciou a desistência dos Certificados Nacionais de Profissional de Investimento (CNPI). Pelo fato de ser, disse o CEO mais uma vez, uma “publicadora de conteúdo”.

No Twitter, Leonardo Siqueira, economista Fundador do Terraço Econômico acusou Felipe Miranda de apresentar credenciais que “não existem”.

“Se eu estiver equivocado terei o prazer de reconhecer que ele fez tudo que diz. É só nos comprovar”, pontuou.

Ainda sobre o caso Bettina, o Procon-SP pediu esclarecimentos da Empiricus em até 48 horas sobre “se o vídeo amplamente veiculado se refere a uma campanha publicitária”.

“O pedido do Procon/SP exige que a empresa esclareça se o vídeo amplamente veiculado se refere a uma campanha publicitária, além disso, exige os documentos que comprovem a veracidade do que foi anunciado, com a demonstração da evolução financeira de Bettina, no prazo de 48 horas”

A Empiricus foi procurada pelo Hypeness, mas não se manifestou até o fechamento desta reportagem. Sua versão será incluída assim que o fizer.

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Fotos: foto 1: Reprodução/YouTube/foto 2: Wikipédia/foto 3: Divulgação/foto 4: Reprodução/foto 5: Reprodução/foto 6: Reprodução/foto 7: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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