Entrevista Hypeness

Mãe de Emicida e Fióti, Dona Jacira narra cura pela escrita e ancestralidade

por: Kauê Vieira

A conversa de pouco mais de uma hora acabou com um gostinho de quero mais. Dos dois lados. Dona Jacira e este repórter relutaram em desligar o telefone. Difícil encerrar a prosa com uma pessoa tão empolgada com a vida.

Jacira Roque de Oliveira é mãe de Catia, Catiane e dos produtores e rappers Emicida e Evandro Fióti. Isso é o menos importante no momento, pois esta mulher negra de sonhos indisciplinados e radicada na periferia da zona norte de São Paulo está, finalmente, falando e sendo ouvida. Com um sorriso no rosto, ela conta com alegria os sentimentos provocados pelo lançamento do tão aguardado livro. O autobiográfico Café (melhor título impossível), primeiro da carreira de escritora, revela ao mundo uma Jacira que não teve medo da reinvenção pelo autoconhecimento e cultura.

“Eu sinto uma grande vitória. Eu poderia dizer que é fechamento de ciclo. Mas não é. É uma abertura de ciclo. Um novo mundo que começa pra mim. Uma nova possibilidade. Lutei muito a vida inteira pra ter esse reconhecimento. E ele chega agora, enquanto eu tô com uma consciência plena de tudo que sou. Eu não tinha, em outros tempos, a plena consciência de ser uma mulher negra, resistente, periférica e que pode falar por si. Me sinto realizada e com uma puta vontade de continuar”.

Dona Jacira se reinventou pela ancestralidade

Dá gosto de ver Dona Jacira falar. Mulher negra da periferia, teve que lutar e muito para manter acesa a chama da persistência. Trabalhou na feira, como empregada doméstica e viveu o “sofrimento da prostituição de querer escrever e não poder”. Jacira sabia da capacidade, mas esbarrava na falta de apoio dos próprios pares.

Veja bem, meus filhos me salvaram. As pessoas nunca esperam. Os 4 filhos estimulam muito meu trabalho. Meus pares não me dão muita ousadia não. É uma coisa muito ruim da periferia e de alguns grupos, que quando veem uma pessoa do mesmo perfil tentando elevar ou mostrar uma qualidade de trabalho, questionam ou lançam um olhar de reprovação. Tenho uma vida marcada por isso”.

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A escritora foi criada em convento. “Eu passei por um convento segregador, apanhei muito. As pessoas colocavam a gente de castigo no banheiro”. A experiência gerou um sentimento de repulsa ao ambiente escolar. Em Café, a escritora recorda o período revelando a característica forçada de aprender as coisas na marra. 

‘Café’ é o primeiro de muitos livros da mãe de Emicida e Fióti

No interior do livro, eu falo da minha infância. Das descobertas que trouxe comigo. Isso diminui a medida em que conheço outras coisas, quando eu entrei para a escola. Os outros conhecimentos afogaram meu dom. Eu odeio escola, porque vi que não era nada que pensava, por tudo que tive que passar. É uma criança que foi preenchida com saberes. Eu era uma pessoa muito curiosa, se na infância tinha plena sabedoria do que eram as plantas e bichos, na adolescência, eu não sabia nada. De tanto ouvir, ‘isso é besteira’,  ‘você é burra’. Eu não consigo decorar, eu tenho dislexia. Eu só lembro o que toco.

Assim como acontece com a maioria das crianças nascidas em berços menos favorecidos, Dona Jacira desenvolveu o sentimento de raiva. Escritora autodidata, deixou a casa aos 13 anos. Elementos que foram digeridos sem massagem ao longo de 54 anos de vida.

“O livro não diz tudo sobre mim. Tenho mais quatro livros escritos. De quatro fases da minha vida. Repito, são resquícios da colonização que destroem a convivência. Eu achava que minha mãe não gostava de mim, mas ela tinha dois empregos. Eu tinha outra visão. Uma visão ingênua”, pontua.  

Com tanto na bagagem, ela faz um apelo ao mesmo tempo em que critica a criação infantil dos dias de hoje. Em tempos de debates acalorados sobre escola com ou sem partido, Dona Jacira apresenta com simplicidade uma solução complexa. “Enchem elas de cursos, de coisas. Ceifam o direito da criança. A falta ou o excesso de dinheiro não são o grande problema. O grande problema é a falta de atenção. Quem ler o livro verá que a história termina nos meus 13 anos. Com 13 anos, vi que minha casa não funcionava mais. Fui embora com raiva”.

A cura ancestral, espiritualidade e saúde mental

A vida mudou. Muito. “Meus filhos me salvaram”, diz ela. Porém, tamanho ganho de consciência seria possível sem a coragem de viver? Os quatro filhos, ela conta, foram importantes para o trânsito em centros culturais e a troca de experiências com pessoas que enxergavam a vida com outros olhos. Empatia. Não é uma questão de meritocracia. É oportunidade.

“A minha casa virou esse núcleo de informação dentro da periferia”

Sem dinheiro você tá no quinto dos infernos. Eu vou contar um segredo pra você, antes só andava de ônibus e agora, graças a Deus, consigo pegar Uber. Andar de ônibus é horrível, tudo é ruim. Gente, eu queria que tivesse um avião Uber (ela ri). Eu vivo no meio dos meus pares. É tudo igual. É nada, vai andar de avião pra ver. A gente precisa melhorar de vida, é o que todos nós queremos, uma vida melhor. A minha espiritualidade me cobrou. Até agora estava sendo servida, chegou a hora de começar a servir. Putz, tenho muita coisa para ensinar. Tirei os rascunhos do balaio.

Falando em espiritualidade, foi através do reencontro com as religiões de matriz africana que Dona Jacira vislumbrou um futuro diferente.

Eu acredito numa coisa que nos protege. Eu acredito no meu lado religioso. Você vai, é sua missão. Todo o dia tenho algo dentro de mim. Que me cutuca. É Iansã. Ela me faz levantar da cama, sair da depressão. Esta é a missão. Eu passei muito tempo no Kardecismo. Na época, via algo que me mantinha lá teve um conhecimento que usufrui. Mas agora, Alan Kardec foi só uma pessoa que apoiava a escravidão como qualquer outro. Por isso ele conhece espiritismo. Me arrepiei. O que a ignorância faz com a gente e em que caminhos ela nos leva.

A saúde mental, diz Dona Jacira, passa pela alimentação saudável

O estabelecimento da saúde mental se mantém pela cultura. E disso Jacira entende muito bem. A casa da Vila Nova Cachoeirinha é palco de encontros que geram frutos. Artesanato, rodas de conversa sobre racismo, saúde da mulher negra. São alguns dos pontos debatidos pela escritora de 54 anos.

“Minha casa tem um espaço para a plantação. Outro espaço de interação griot. Eu sigo a literatura e observo a planta. é um observatório de planta. Meus filhos não conhecem as coisas pelo cheiro. Tem que cheirar. Tem que pegar, conhecer a folha. As pessoas que vem em casa passam a ter conhecimento da coisa, sentidos que dão sentido à vida.

– Clyde Morgan, o Filho de Gandhi que nasceu nos EUA, mas aprendeu tudo na Bahia

– Coisa de preto é ganhar o Oscar. O maravilhoso e histórico discurso de Spike Lee

– Campeã absoluta, Mangueira exalta Brasil que não te ensinaram na escola

Dona Jacira compreende a dificuldade da construção de relações na periferia. Embora seja um campo interminável de criatividade, a complexidade cotidiana é responsável por algumas posturas criticadas por ela. Com a sensibilidade própria de uma artista, Jacira sabe acalentar.

Dos irmãos negros e dos que estão dentro dessa diversidade que a gente quer que aflore. A covardia foi plantada em nós com a colonização. A ideia do negro boçal, que só sabe carregar coisas e obedecer. A mulher, o homossexual, pessoas com dificuldades de locomoção. Estas pessoas sempre foram vistas como inferiores. Se achar incapaz é doença. A pessoa olha pra mim e vê que eu evoluí. Ela tem que evoluir, mas não quer. Ela quer me puxar para afundar junto com ela. Isso é medonho, meu levou ao alcoolismo, caminhos que eu não queria ir. Aquela coisa de dizer, ‘vem, vamos beber, nos divertir’. Isso atrasou muito a minha carruagem. Eu agradeço e deixo eles onde estão. Por isso comecei a realizar encontros em casa. Embora não saiba que são as pessoas, sei que são simpatizantes do que faço.

Ah, a saúde mental passa também pelas plantas

E a ancestralidade? Dona Jacira é negra, mas como acontece com a maioria das pessoas com a pele cor da noite, negou tal condição por muito tempo. Resultado do racismo nada sutil que permeia a sociedade brasileira. 

“Faz 11 anos que posso me dizer negra. Eu sabia que tinha algo errado comigo, mas estando em um meio onde a informação não chega, não sabia o que era. Sempre me tive como parda. Que não é negra. A minha casa nunca teve grandes questões econômicas. Tinha a ausência da minha mãe, que trabalhava muito, mas era uma casa festeira. Bonita”.  

Lembra do conceito de construção coletiva? Ele germinou e deu frutos para Dona Jacira a partir do encontro com a arte e cultura. Foi por causa de idas e vindas aos centros culturais do Centro e da Zona Norte de São Paulo, que hoje ela bate no peito orgulhosa do elementos que compõem o mundo negro.

Cheguei em um núcleo de estudos que se chama Cachoeira. Uma associação de pesquisa onde eu me encontrei como negra. Encontrei grupos como o Ilú Obá de Min – mulheres negras que tocam tambor. Encontrei também mulheres mais velhas, como a Gilda da Zona Leste. Mulheres que não alisam o cabelo. Eu me via fora do esquadro. Antes do Cachoeira, eu fui evangélica, budista e achavam que os tambores eram castigo. Tive que me livrar desse pensamento para poder aceitar o núcleo de pessoas negras que são resistentes e estão ao meu redor. Eu queria ser aceita. Eu ia para essas igrejas achando que seria aceita. Tenho ideias revolucionárias, que causam medo nas pessoas. Hoje, estou no núcleo do Cachoeira, no Ilú Obá e no Aparelha Luzia. Lugar de pessoas que deixam fluir o pensamento.

“Veja bem, meus filhos me salvaram”

Já falei que Dona Jacira é a expressão genuína da vida? Como tenho certeza que você ficou com vontade de ler Cafés depois dessa reportagem, prepare-se, vem muito mais por aí.

“O segundo livro vai ser muito divertido. Eu era feliz e não sabia. Olha, na verdade tenho 15 livros escritos. Em 54 anos, fiz um apanhado do primeiro casamento, do segundo, da volta pra escola e a grande chegada da minha espiritualidade”.

Se você ainda não se convenceu, Dona Jacira dá outro spoiler sobre a história [que estará no próximo livro] dos bastidores da música Mãe.

Ele [Emicida] foi o primeiro filho homem, a alegria do pai. A hora dele nascer, o momento do parto. O texto é bem grande e quem comprar o próximo livro vai ter a graça de conhecer tudo. Contei a história do nascimento dele. Foi uma coisa que me emocionou muito. O nascimento dos meus filhos. Um tanto de gente acha que o Leandro escreveu a parte que eu falo. Mas não, é coisa de escritora. Não precisa de um grande enredo. O que chega a me agredir, é quando a pessoa diz ‘nossa, esses textos que o Emicida escreve para a senhora’. Eu falo, ‘puxa, a pessoa não consegue entender que é só vida. Vivência. Não teria nada que o Leandro escrevesse pra mim. A gente precisa ser reconhecido pelo que fazemos.

Eita Dona Jacira! A mãe de quatro filhos é a prova viva de que, como diz Criolo, ainda há tempo. Na verdade, as pessoas não são más, elas só estão perdidas. A rua é nóis, não é não?

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Fotos: fotos de 1 5: Reprodução/foto 6: João Sal/Reprodução  


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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