Debate

‘Mulher decente não dá tanto problema’, diz vereador de cidade do Rio Grande do Sul

por: Redação Hypeness

O Hypeness bate na tecla da importância da presença de mulheres na política. Cláudio Gottschalk (PDT-RS) deu uma declaração machista que só comprova a tese.

Ao final da sessão da Câmara, o vereador de Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul, disse que “mulher decente não dá tanto problema”. A declaração foi uma resposta ao projeto apresentado pela única vereadora do legislativo, Kátia Zummach (PSDB-RS).

A parlamentar tornou pública duas proposições para coibir casos de violência contra a mulher e estimular debates sobre o assunto. Mais uma vez, recebeu machismo como resposta.

O machismo do vereador e ausência de mulheres na política

“Eu quero dizer uma coisa para vocês: falam tanto em mulheres, tantos problemas, agora uma mulher que se preste, uma mulher decente não dá tanto problema. Isso é uma coisa que eu vou te dizer (para a vereadora). Uma mulher que se presta, porque eu ando muito nesse mundo, não dá tanto problema. O problema é (sic) as chinelonas”, afirmou Gottchalk.

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A reportagem da Zero Hora demonstra que o vereador gaúcho estava mesmo determinado em expressar sua visão sexista. Ele seguiu.

“Olha, no município de Nova Petrópolis, quantos problemas têm… Eu acho muito pouco. Fica até feio faixas nos banheiros ou órgãos públicos, faixa com telefone para denunciar. É muito pouquinho”.

Kátia Zummach replicou e apresentou números. Dados estes, aliás, que fazem do Brasil o quinto país do mundo em registros de feminicídios.

“As estatísticas comprovam. A violência não existe entre mulher que presta e não presta. Várias donas de casa diariamente sofrem violência doméstica. É muito grave esse tipo de questionamento porque, em primeiro lugar, o que é uma mulher que presta? A mulher tem direito de usar o que quiser”, encerrou.

Mesmo assim, Gottchalk tentou argumentar e acrescentou. “Não foi sobre o jeito de se vestir que eu me referi. Eu sou um cara bruto, criado no meio do mato. Nós temos que olhar problema das mulheres no nosso município. O que acontece fora, a gente não tem que estar cuidando. Aqui no município acontece pouquíssimo, agora se está acontecendo fora, não interessa. Se é Porto Alegre, Caxias…”  

Política e violência contra a mulher

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, os feminicídios aumentaram 40,9% de 2017 para 2018. 2017 registrou 83 casos, enquanto em 2018, 117 chegaram ao conhecimento das autoridades policiais. O estupro também subiu 3% no estado gaúcho.

A ausência de figuras femininas no universo político é uma das respostas para os poucos avanços. Declarações machistas que minimizam pautas feministas não são exclusividade do pedetista Cláudio Gottschalk.

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O deputado federal Márcio Labre (PSL-RJ) chegou a cogitar a entrega de um projeto de lei para vetar o uso da pílula do dia seguinte, DIU (dispositivo intrauterino), entre outros métodos contraceptivos. O PL 261/2019 pretendia, segundo Labre, vetar integralmente o “comércio, a propaganda, a distribuição ou a doação” dos anticoncepcionais.

O parlamentar se manifestou horas depois afirmando que o PL, indisponível no site da Câmara, não estava pronto. “O projeto em questão não tinha seu texto finalizado. A redação não correspondia aos reais anseios da população que represento”.

O Brasil está na 32ª posição em ranking com outros 33 países latino-americanos e caribenhos sobre participação feminina em Parlamentos. A ONU Mulheres diz que apenas 10% do quadro total é composto por mulheres eleitas.  

Deputada federal em primeiro mandato, Talíria Petrone (PSOL-RJ) trabalhou ao lado de Marielle Franco na articulação política do Rio. A ex-vereadora de Niterói conversou com o Hypeness sobre a participação de mulheres na política. Sobretudo no caso de mulheres negras.

Talíria chama a atenção para a inclusão de mulheres negras

“É preciso mais do que nunca construir coletivamente as condições para prosseguir na luta, para reunir a coragem necessária. Precisamos nutrir, fortalecer e garantir que cresça ao ponto de transformar a política de fato em um instrumento de poder para a conquista do bem viver de todas e todos, em condições de justiça e de igualdade na diversidade e na liberdade”, assinalou.

O assassinato de Marielle Franco em um crime ainda sem culpados, deixou sementes. O pleito de 2018 proporcionou a eleição de representatividades femininas, especialmente entre mulheres negras. São Paulo elegeu Erica Malunguinho (PSOL-SP), a primeira trans a ocupar a Assembleia Legislativa.

Em Minas, Áurea Carolina (PSOL-MG) vai para Brasília como a mulher mais votada do estado. Na Bahia, estado mais negro da nação, Olívia Santana (PC do B-BA) fez história ao se tornar a primeira mulher negra eleita deputada estadual.

Erica fez história ao ser eleita em São Paulo

“Marielle e eu nos elegemos em um mesmo contexto de ascensão do feminismo e da luta por representatividade da mulher na política. Já a conhecia da Maré, do tempo em que dei aulas lá num curso comunitário e das lutas que ela ajudava a organizar na favela. Já a admirava, mas foi na experiência comum de enfrentar cotidianamente as asperezas do parlamento que nos aproximamos ainda mais”, finaliza Talíria.

Cláudio Gottschalk pediu desculpas. “Em momento algum tive a intenção de ofender as mulheres. Sou uma pessoa simples e respeito a todos. Sou casado, tenho filha e neta. Minha intenção nunca foi ofender a ninguém, muito menos as mulheres. Minhas sinceras desculpas”.

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Fotos: foto 1: Divulgação/foto 2: Reprodução/foto 3: Reprodução/Instagram


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