Entrevista Hypeness

‘O discurso vem agressivo porque tá contaminado por anos de machismo’, diz Juliana Paes

por: Rafael Oliver

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Com mais de 20 anos de carreira, Juliana Paes é considerada uma das principais atrizes brasileiras. Se consolidou no primeiro escalão de artistas da Globo. Deu vida a diversas personagens de sucesso. E mais uma vez  será protagonista no horário nobre da TV. Desta vez na pele de uma jovem humilde, batalhadora e corajosa em  “A Dona do Pedaço”, nova novela das 9. A trama exalta o poder feminino por meio da trajetória de Maria da Paz.  O título do folhetim é uma referência à personagem. Mas também faria sentido se fosse uma referência à atriz. Além de trabalhar na TV, ela  também é empresária, mãe de dois filhos e uma mulher poderosíssima.

Encontramos com Juliana em São Gabriel-RS, nos bastidores das gravações. No intervalo de uma das cenas fizemos nosso primeiro contato. Apesar de ter chegado na locação às 5 da manhã, a atriz nos recebeu com bom humor: “desculpa ter feito vocês acordarem tão cedo, devem estar odiando a gente”, brincou. De todo o elenco, era a mais assediada na cidade. Mas também a mais disposta a atender o público. Mesmo com uma rotina pesada de gravação, seu carisma surpreende. Sua humildade também. Juliana é do tipo “gente como a gente”. E sem dúvidas isso contribuiu para alcançar o sucesso.

Sobre sua personagem, uma jovem humilde, grávida, que vai pra cidade grande sozinha tentar a sorte. Como é representar grande parte das mulheres brasileiras?

É um presente representar tantas mulheres. É um caminho pra viver todos os tipos de emoção possíveis e imagináveis. E isso pro ator é tudo. Uma responsabilidade sem tamanho. Um desafio. A gente quer ser desafiada ,perder o sono, ficar com a boca seca antes de entrar em cena. E isso tá acontecendo muito em “A Dona do Pedaço”.

Vou dar um spoiler: Maria da Paz consegue vencer os desafios e alcançar o sucesso no trabalho. Você teve diferentes empregos até conseguir ser atriz. Existe uma semelhança entre Juliana Paes e a personagem?

Eu me assemelho com ela. Também tive que me inventar sozinha. Eu não tenho uma família de artistas, ou que trabalha na TV, que conhece fulano. Eu não conhecia ninguém. Eu tive que cavar todas as minhas oportunidades. Sempre fui muito persistente. E nesse aspecto me assemelho muito a personagem: em 90% das vezes eu não era a primeira opção no trabalho. Eu me sinto muito “gata borralheira”. Eu era sempre do elenco de apoio. Mas chegava com sorriso no rosto, disposta e feliz. Aí às vezes me escolhiam por isso. Virava protagonista por isso. As coisas iam acontecendo. O ‘não’, não me abatia. O “não” me dava mais força. Claro que tem momentos que a gente chora, desmorona. Mas sempre tinha fôlego pra tentar de novo e de novo.

Sua personagem é uma mulher motivada pela esperança de reencontrar o grande amor, Amadeu (Marcos Palmeira). Você acha que o amor é a grande motivação do ser humano?

Ninguém vive sem amor.  Nisso as pessoas vão se identificar. Por mais que você não tenha uma paixão, você tem um filho, uma avó, uma família, alguém por quem você sempre dedica aquilo. Tudo na vida a gente faz em nome do amor, coisas terríveis, coisas maravilhosas, no final das contas a gente dorme, acorda, vive em nome do amor e minha personagem  é movida por amor. A Maria sofre uma grande perda logo no começo da trama e acha que o grande amor da sua vida tá morto. Então ela passa um grande período achando que perdeu essa pessoa.

 

Os protagonistas ao lado da diretora Amora Mautner

Maria da Paz também é uma mãe que faz tudo por amor à filha Josiane (Agatha Moreira). Notei que você está sempre falando com sua mãe, mandando vídeos, mensagens… Ela é uma mulher que te inspira?

Minha mãe é uma força da natureza. Já teve loja de roupa, creche… Tivemos salões de beleza. Ela já fez de tudo. E é engraçado que as coisas que ela fez sempre acabaram me ajudando no meu trabalho. Todos os perrengues que já passei em família me ajudam no processo como atriz. Ela teve uma creche. Eu cuidava de criança. Ganhei muita responsabilidade bem cedo, com meus 12, 13 anos. Ah, ela também teve uma locadora. A gente vivia assistindo filmes. Daí meu interesse por ser atriz.

A personagem deve enfrentar o preconceito dos homens na sua empreitada profissional. O machismo é comum no mercado de trabalho. Sentiu isso nos lugares em que trabalhou? 

A gente sempre sente. De uma maneira velada. E talvez essa seja a forma mais cruel. Esse preconceito, esse jeito de tratar a mulher, que acontece mascarado num sorriso, numa piada. E a gente demora pra entender. A ficha às vezes não cai. As vezes só quando a gente chega em casa pensa: aquele cara foi um babaca. É tão maluco que às vezes a gente demora pra entender que o cara foi preconceituoso, machista.

Acha que estamos caminhando para uma evolução?

Esse momento que a gente tá vivendo pode parecer chato para alguns homens. Mas é especial. Tá fazendo com que a gente pare pra pensar, fazendo com que as meninas fiquem mais atentas, pra não fazerem como a gente, que a ficha só caia em casa, pra ficha cair na hora, tomar uma posição na hora. E aí a gente acaba… Não quero parecer arrogante… Mas a gente acaba educando esses jovens que tão entendendo isso de um jeito bacana. Claro que o discurso às vezes vem agressivo porque está ali contaminado por anos de machismo, mas a melhor maneira de passar a mensagem é a maneira que toca o coração. E estamos encontrando isso aos poucos.

Escrita por Walcyr Carrasco e com direção artística de Amora Mautner, ’A Dona do Pedaço’ é uma novela que fala de coragem e esperança. De luta e batalha por uma vida melhor. Será dividida em prólogo, com primeira e segunda fase. Tem previsão de estreia para o primeiro semestre deste ano.

 

 

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Fotos: Globo/João Miguel Junior

Agradecimento: Thaís Martinelli


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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