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Para psicanalista Contardo Calligaris, Brasil tem ‘predisposição para a paranoia disseminada’

por: Brunella Nunes

Você já sentiu que está sendo observado o tempo todo? Estamos vivendo uma era em que, na falta de privacidade, existe uma linha cada vez mais tênue entre delírio e sensatez. A paranoia é o tema central da quarta temporada de PSi, série da HBO que mostra a rotina de um psicólogo dentro e fora dos atendimentos cotidianos. No cargo de roteirista e diretor, o psicanalista, escritor e dramaturgo Contardo Calligaris se aprofunda no tema e revela que somos mais paranóicos do que pensávamos.

Com a frase “a paranoia se vive, não se imagina” estampada no pôster de divulgação da temporada, a série premiada internacionalmente aborda temas incômodos como ciúme e a hipocondria delirante, um transtorno psiquiátrico. Com estreia às 21h no domingo, 24 de março, serão 10 episódios com cinco histórias diferentes, baseadas em fatos reais. Para acompanhar o ritmo, você pode maratonar as três primeiras temporadas completas na HBO GO.

Abaixo você confere a entrevista exclusiva de Contardo Calligaris sobre os sintomas e desdobramentos de uma sociedade paranóica.

Hypeness: O que é paranoia?

Contardo Calligaris: Primeiro, é bom diferenciar o que é paranoia e o que é pensamento paranoide. Há pensamentos de tipo paranoicos que surgem na cabeça de qualquer um, seja paranoico ou não. O pensamento paranoico ou paranoide são pensamentos que nos dão uma explicação satisfatória do mundo, ao custo de nos colocarmos ao centro dele, em geral como objeto de perseguição.

Ter uma visão paranoica da realidade significa trocar a situação insatisfatória de que o mundo não tem sentido, o mundo não significa nada, você está aqui por acaso e você vai morrer, pela ideia de que existe um sentido para tudo isso, por exemplo, que há um Deus que quer colocar você a prova, para saber se você se comporta direito e, eventualmente, te punir.

Quais os tipos diferente de paranoia? São classificáveis em níveis?

A paranoia é uma das três formas principais de psicose, junto com o maníaco-depressiva e a esquizofrenia. Mais do que níveis, temos fases da paranoia.

Uma ‘paranoia consolidada’ é um sistema explicativo do mundo, que pode ter sucesso, ou seja, ser compartilhado com grande quantidade de pessoas.

Um exemplo de paranoia consolidada são as religiões, que são paranoias de sucesso por apresentarem teorias que oferecem um entendimento “completo” do mundo, mesmo que o custo seja considerar que o indivíduo acabará no inferno pela eternidade. Isto só não é considerado um delírio por existir dois bilhões de pessoas que acreditam nele, mas é sim um pensamento paranoico.

O ator Emílio de Mello e Contardo nos bastidores

Por quais razões alguém pode desenvolvê-la?

As pessoas recorrem a pensamentos paranoicos para resolver incertezas e angústias que são produzidas pela falta de sentido em nossa vida cotidiana. Recorre-se o tempo inteiro a pensamentos paranoicos, mesmo sem ser um paranoico declarado.

Como detectar os sinais e sintomas da paranoia?

O paranoico quase sempre comunica aos outros o sistema delirante que ele construiu ou está construindo porque ele gosta de encontrar um consenso coletivo. O carimbo de uma crença coletiva é o sucesso de uma crença delirante. Atualmente, a internet se tornou o lugar perfeito para a expressão da paranoia contemporânea.

Na internet é possível inventar em poucos minutos uma teoria da conspiração que dá sentido ao mundo inteiro.

Se alguém tem uma teoria conspiratória, então tem um pensamento paranoico. Entretanto, isso não significa que tenha uma psicose paranoica organizada. Dá para se perguntar se o pensamento paranoico não se tornou um sintoma banal nos últimos trinta anos, graças, em parte, às mídias sociais.

Existem sintomas físicos para a paranoia?

Existem eventualmente pacientes que têm alucinações auditivas, mas não visuais. As visuais são mais especificas da esquizofrenia. O sintoma da paranoia é o delírio que ela configura, como sistema de explicação do mundo, no qual o paranoico se encontra como centro do mundo e alvo de perseguição. A grande dificuldade de lidar com o paranoico é que qualquer interlocutor pode ser facilmente colocado por ele ou ela na turma dos perseguidores.

Você acredita que nossa sociedade está mais paranoica?

Sim, com certeza. O Brasil é um país onde a gente tem uma predisposição para a paranoia disseminada, uma vez que nossa privacidade é menos protegida do que em outros países. Para exemplificar, enquanto eu estou dando essa entrevista, meu telefone fixo, para o qual ninguém liga, tocou três vezes, quem ligou foram sem dúvida serviços de telemarketing, ou seja, eu poderia constatar que eles ligam logo no momento em que estou concedendo uma entrevista, esse “logo” já seria uma marca do pensamento paranoico.

O Brasil é um país onde a gente tem uma predisposição para a paranoia disseminada, uma vez que nossa privacidade é menos protegida do que em outros países.

O caso da hipocondria também é muito interessante para refletir sobre o nosso cotidiano: nós vivemos em um mundo higienista e estamos acostumados a fazer check-up regularmente. Poucas pessoas declaram ter a psicose de Truman (do filme “O Show de Truman”), mas é cada vez mais verdade que vivemos em um reality show. Por exemplo, quando caiu o helicóptero do Boechat logo em seguida surgiram vídeos na televisão, ou quando você está no elevador de um prédio, o porteiro está te vendo.

Qual a melhor forma de lidar com alguém próximo (familiar/amigo) que sofre dessa condição?

É preciso recorrer a um especialista imediatamente, um psiquiatra, um psicoterapeuta. Eu não acredito muito na administração caseira de uma patologia desse tamanho porque ela pode ser perigosa.

O que você indica para tratar alguém paranoico?

No caso de uma psicose paranoica é necessária uma medicação apropriada para diminuir não só a intensidade da elaboração delirante, como também o nível da certeza. Isso permite que a pessoa se torne acessível a uma argumentação.

Tem uma história famosa, contada por Pinel, na obra que inaugura a psiquiatria moderna, no comecinho do século 19: um paciente dele estava convencido que havia sido guilhotinado durante o terror da França e tinham devolvido a ele a cabeça errada, por isso procurava a cabeça certa, para reintegrá-la. “O dia que eu encontrar minha cabeça, vou beija-la”. Então, outro paciente perguntou: “Você vai beija-la e com que boca?”. Essa frase teve um efeito extraordinário: o homem parou de delirar. A paranoia é uma psicose pensante, é uma psicose que não para de pensar e é sensível a argumentação, ao pensamento.

Existem medidas práticas que podem ser tomadas para sermos uma sociedade psicologicamente mais saudável?

Precisaria que nos tornássemos capazes de aguentar o fato de que o mundo não faz muito sentido: não precisa que ele faça sentido para a gente viver.

Além disso, precisaríamos aceitar que nós não somos únicos, somos seres dispensáveis. A gente sofre pelo excesso de sentido e de relevância que damos a nos mesmos, por exemplo.

Seria muito mais fácil viver se a gente soubesse que a vida é uma viagem de avião, e a gente tem que viajar sempre só com a mala de mão.

Por que esse tema foi escolhido para a quarta temporada?

Porque a paranoia é a modalidade dominante do pensamento dos últimos 30 anos.

Como foram escolhidos os casos e qual paranoia (sobre qual tema) cada um deles representa?

A quarta temporada de PSI é composta por cinco histórias, três delas são casos de psicose paranoica propriamente dita. Um deles é sobre uma pessoa que acha que está sendo vítima de “perseguição disseminada”, ou seja, o mundo inteiro é uma organização contra ela; o outro caso é sobre hipocondria delirante, a personagem acredita que há algo dentro do corpo que o persegue; e o último tema é sobre alguém que acha que está vivendo em um grande set de filmagem, no qual a vida está sendo filmada, como no filme ‘O Show de Truman’. Os outros dois casos abordados são, digamos, paranoides: o primeiro trata do ciúme como uma forma de paranoia e o último mostra como a paranoia se torna coletiva e como a mulher é um objeto absolutamente central perseguido pela cultura ocidental.

Essas são as paranoias mais comuns atualmente?

Acho que são casos que são chaves de acesso. A paranoia mais comum é a paranoia do “maluco da internet”, com suas teorias conspiratórias.

De que forma trazer essa temática para a série contribui para a discussão sobre a condição humana de estar cada vez mais paranoico?

Eu espero que, graças à série, os espectadores consigam pensar no seu cotidiano um pouco além do imediato da vivência. E espero, sobretudo, que se divirtam, porque nunca tivemos a intenção de fazer um programa pedagógico.

 

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Fotos: divulgação/HBO


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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