Matéria Especial Hypeness

Quanto vale o trabalho doméstico? Pelo menos R$ 580 bilhões ao ano, só no Brasil

por: Gabrielle Estevans

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“Amélia que era mulher de verdade”, diz a composição de Ataulfo Alves, criada em 1941 e que, com o tempo, transformou Amélia em sinônimo de dona de casa. Amélia realmente existiu. Era uma antiga lavadeira, morava no subúrbio do Encantado, no Rio de Janeiro, e sustentava uma família de nove ou dez crianças, além do marido. Conta a história que a lavadeira trabalhava fora e depois dava conta, sozinha, das tarefas domésticas. Hoje, 78 anos depois da música cair no gosto popular, as mulheres ainda seguem sobrecarregadas dentro de suas próprias casas. Segundo o IBGE, trabalham o dobro do que os homens — 20,9 horas semanais, em média, contra apenas 11,1 horas executadas por eles.

O “mito Amélia” ajudou a romantizar a gestão doméstica feminina. Travestido, hoje, de “bela, recatada e do lar”, tais estereótipos colocam a mulher como herdeira natural dos serviços da casa. Representações sociais como essa retroalimentam o que correntes das ciências humanas chamam de “divisão sexual do trabalho — configuração que classifica funções, tarefas e espaços ocupados por cada gênero na sociedade. Mesmo num cenário em que 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, 82% dos afazeres de casa ainda são realizadas por elas, algumas em dupla jornada e outras tantas — 40 milhões — tendo como única atividade o trabalho doméstico não remunerado.

Mas quanto valeria, afinal, uma dona de casa?

Um estudo da demógrafa Jordana Cristina de Jesus, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios  (Pnad) de 2013, mostrou que, se as tarefas domésticas fossem remuneradas e incorporadas à renda, as mulheres ganhariam mais do que os homens. A análise se baseou no salário médio de um empregado doméstico e chegou à conclusão que o trabalho geraria R$ 580 bilhões — 11% do Produto Interno Bruto brasileiro no ano da pesquisa.

Diz a pesquisadora que os dados também apontam para o fato de que a discrepância entre as horas de trabalho realizados por homens e mulheres nos lares brasileiros independe do grau de escolaridade: “Mais educação, no caso dos homens, por exemplo, não quer dizer mais trabalho doméstico feito em casa”. Entre mulheres, há, sim, um recorte social: nas classes mais altas, é comum que se contrate empregadas domésticas. Cruzando as informações, uma mulher de 25 anos de classe alta faz, em média, duas horas de trabalho doméstico não remunerado por dia, contra mais de seis horas de uma mulher da mesma idade, mas de classe baixa.

Para a ONU Mulheres e para a Eurostat (agência de estatísticas da União Europeia), é fundamental que atividades realizadas em lares também entrem na conta do PIB se quisermos estimar o tamanho da economia de um país. Só assim abriremos espaço para a discussão sobre a desigualdade de gênero em tarefas invisibilizadas. Em alguns países tal estimativa já é realizada. É o caso do México, onde o PIB dos afazeres domésticos equivale a 24,5% do PIB tradicional. Por aqui, o IBGE ainda não faz o cálculo, mas pretende apresentá-lo, em breve, em uma conta satélite — espécie de anexo ao relatório já existente. Para quem tem curiosidade, o Jornal O Globo criou, baseado no exemplo mexicano, uma calculadora capaz de apontar, quanto vale o trabalho feito pela sua família.

Por que mulheres se sentem tão cansadas, mesmo quando dividem as tarefas?

Mesmo em casos de divisão igualitária do trabalho doméstico, há, ainda, uma sobrecarga mental difícil de mensurar entre as mulheres. Isso porque, independente de quem execute as tarefas, somos educades para que os lares tenham um gerenciamento feminino. Na prática, por mais que homens lavem a louça ou varram a casa, listar, planejar e garantir os suprimentos mínimos para que tudo aconteça segue como responsabilidade da mulher.

A quadrinista francesa Emma desenhou para quem não entende o que significa carga mental. A tradução, no Brasil, foi feita pela Bandeira Negra e traz dados adaptados para o país.

Público x privado

Para a cientista política Flávia Biroli, a divisão sexual do trabalho também interfere na vida pública da mulher. A escritora argumenta em seu novo livro, Gênero e Desigualdades — Limites da Democracia no Brasil, que, dispensados das responsabilidades domésticas, os homens teriam tempo de sobra para se dedicar às esferas públicas, participando ativamente da cidadania e democracia.

O trabalho doméstico não remunerado e não reconhecido ainda traz outro problema estrutural: com a possível reforma da Previdência, que estabelece 62 anos como idade mínima para que mulheres possam se aposentar, permaneceria excluído o cálculo das horas diárias que mulheres trabalham a mais que os homens dentro dos lares brasileiros. É um reforço adicional à invisibilização já recorrente de tais tarefas. Mensurar e atribui valor ao trabalho doméstico é pauta necessária quando o assunto é equidade de gênero. É bandeira, inclusive, de órgãos de destaque mundo afora. Segundo a ONU Mulheres, o trabalho de cuidado não remunerado e o trabalho doméstico suprem carências de serviços públicos ineficazes e infraestrutura capengas. É urgente, portanto, que sejam colocados, para ontem, na ponta do lápis.

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Gabrielle Estevans
Jornalista, especialista em gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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