Inspiração

Quem se beneficia com a obrigação de ser mãe? | Coluna

por: Marcela Braz

Quando completei 30 anos de idade, começou a contagem regressiva. Meu pior pesadelo. Ter de decidir logo se quero ou não ser mãe, para aproveitar os melhores óvulos até os 35. É muito angustiante ter apenas essa pequena janela de tempo para tomar uma decisão tão importante. Mais cruel ainda é imposição (visível e invisível) da maternidade à mulher, como se não fosse uma escolha, mas sim um papel que todas estão fadadas a desempenhar, como se fôssemos todas iguais.

“Quase 31? Oh meu deus, congele seus óvulos” — mas a Amy Schumer tá sendo irônica

“Mãe é mãe”, dizem. As pessoas reproduzem essa cultura sem perceber, falam isso com carinho, tentando ser fofas. Mas não percebem como cada mulher é um indivíduo e ninguém nasce sabendo ser mãe. Até porque não existe apenas um jeito de sê-la, não é mesmo? Cada uma vive a maternidade de forma diferente e pode não exercê-la, tendo filhos ou não. Exemplos não faltam de pessoas nada “maternais”, no senso comum do que é ser maternal. Então por que obrigar alguém a gerar outra pessoa, se responsabilizar por ela até o fim de sua existência, se não for um desejo genuíno?

“Não ter filhos é egoísta”, dizem. Mas colocar um ser no mundo só para se perceber imortal, dar sentido e propósito à vida, cumprir um suposto dever cívico ou agradar a(o) parceira(o) e a família são bons motivos? Isso não é egoísmo e, mais, irresponsável?

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Mas, no fim do dia, não interessa o que a mulher deseja. Estamos em 2019 e ainda convivemos com mulheres sendo tratadas como posses, ou como algo público, para todos opinarem e decidirem o que é melhor pra ela. Como deve ser seu corpo, como deve se portar, como deve exercer seu “papel feminino” e como deve ser mãe (e nem “se” deve, porque já é implícito que sim, deve).

Nunca vou me esquecer das milhares de vezes em que revistas de fofocas inventaram uma gravidez para a Jennifer Aniston, muitas vezes com a palavra “finalmente”, porque a maternidade dela é muito esperada por todos nós, claro. E recentemente a apresentadora Maju Coutinho entrou para esse grande e desnecessário hall das mulheres que “precisam” ficar se explicando. Gente, aceita, elas não querem procriar. Tá tudo bem. Isso nem deveria ser uma questão.

Uma das inúmeras capas de revista anunciando que Jennifer Aniston “FINALMENTE engravidou”

Sim, nosso corpo está adaptado para gerar vida. Mas também somos capacitadas para exercer muitas outras funções, entre elas sonhar, planejar e fazer escolhas conscientes, como outros animais não são. Justamente por isso, o ser humano criou e aperfeiçoou ferramentas contraceptivas, desde a tabelinha e a camisinha feita de intestino de porco aos métodos hormonais, frutos de avanço tecnológico. Mas a cultura da opressão feminina fala mais alto.

A premiada série The Handmaid’s Tale toca bem nessa ferida. Em um futuro não muito distante, a infertilidade reina e as mulheres férteis são prisioneiras, propriedades do Estado, reduzidas a meras geradoras de filhos para a elite de uma sociedade religiosa fundamentalista, de governo autoritário. E o pior é que Margaret Atwood, autora do livro de mesmo nome no qual o programa é baseado (O Conto de Aia, em português), se inspirou em acontecimentos sociais e políticos da época quando foi escrito, no início dos anos 1980.

Em The Handmaid’s Tale, as mulheres férteis vestem túnicas vermelhas (elas são todas iguais, né?)

A trama tem antecedentes reais e não parece uma projeção viajada: estamos vendo uma ascensão mundial da direita e, aqui no Brasil, uma tentativa de evangelização do Estado, que segundo a Constituição deveria ser laico. Fora isso, poluição, radiação, estresse, agrotóxicos e medicamentos podem causar infertilidade, principalmente com exposição acumulada ao longo do tempo. Esses são ingredientes bem presentes na nossa vida hoje em dia, não?

A dominação também. A americana Christen Reighter fala no TEDxMileHighWomen sobre a saga que foi para ter as trompas ligadas. Além de ter sido criticada por se abster da maternidade, muitos médicos usaram seu poder legal para a impedir de fazer o procedimento. Ela também chama a atenção para o fato da maternidade nunca ser colocada como escolha. Socialmente, a mulher não só precisa ter filhos, como deve querer tê-los.

Enquanto o mundo vive uma superpopulação que está dizimando os recursos naturais do planeta, observamos um envelhecimento demográfico que não atende à necessidade de crescimento econômico dos países e ameaça sistemas previdenciários. A China, criadora da política do filho único, já aumentou a cota dos bebês por casal e estuda abolir a restrição como um todo. A Terra não precisa de mais pessoas nascendo, mas a economia global, da maneira como funciona hoje, sim.

A mulher nasceu para ser mãe. Também, mas ser mãe é o papel mais especial da mulher

A frase é de Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos

E a vontade da mulher no meio de tudo isso? Importa? A meu ver, se não interessa para os outros e isso é aceito socialmente, cabe a nós usarmos toda a liberdade que nos resta para tomar essa decisão e, acima de tudo, nos lembrarmos sempre de que a maternidade é uma escolha nossa. Como bem diz Christen, no fim de sua TED, ser ou não ser mãe nada tem a ver com dignidade ou identidade.

Quanto mais de nós nos libertarmos dos grilhões das imposições sociais, melhor é pra todos. Os filhos de quem não queria genuinamente tê-los sofrem com isso. A mãe também e, portanto, a família também. Todos pagam o preço. Então, quem se beneficia com a obrigação de ser mãe?

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Marcela Braz
É jornalista e tem muita dificuldade para se descrever em terceira pessoa. Suas atividades preferidas incluem amassar gatos, comprar plantas, fazer Yoga With Adriene (procurem no Youtube!), decorar a casa, conversar sobre questões filosóficas e rir até seu rosto ficar horroroso.

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