Matéria Especial Hypeness

Yoko Ono: o machismo e a verdade sobre uma das artistas mais importantes do mundo

por: Vitor Paiva

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Passados quase 50 anos do fim dos Beatles, há ainda quem goste de bradar que Yoko Ono foi a responsável pela separação da maior banda de todos os tempos, em 1970. Basta acompanhar ainda hoje os comentários de qualquer matéria que fale sobre a artista japonesa com quem John Lennon se casou em 20 de março de 1969 para se ver diante de carradas de ódio, misoginia, ignorância e até mesmo xenofobia – e provavelmente o mesmo acontecerá com essa matéria. A verdade, no entanto, é que o longo repúdio a Yoko Ono é somente sintoma do machismo contra uma artista brilhante que cometeu o crime de ser oriental e se casar com um dos homens mais famosos e amados do mundo. Quem acha que Yoko acabou com os Beatles entende muito pouco sobre a banda, sobre Yoko, sobre John Lennon e até mesmo sobre a vida.

A jovem Yoko Ono, em 1966

Quando conheceu Lennon, Yoko já era uma artista relevante, ligada a grupos e outros importantes artistas, que teria um lugar de destaque na história da arte de vanguarda do século 20 mesmo se jamais tivesse se casado com um Beatle. Dito isso, Yoko não só não acabou com a banda, como de certa forma ela salvou a vida de John Lennon – que, em suas próprias palavras, possivelmente se tornaria um artista menos interessante e corajoso, fazendo a manutenção de seu imenso sucesso, ou até mesmo morreria pelo excessivo consumo de drogas que marcou sua vida na segunda metade da década de 1960.

Dois egos tão imensos quanto os de John Lennon e Paul McCartney, dentro de um grupo formado por quatro homens poderosos, jamais permitiriam que outra pessoa que não um deles acabasse com sua banda.

“Eu sei quem acabou com os Beatles”, disse Paul, de seu privilegiado lugar de fala na história, em entrevista recente ao radialista Howard Stern. “Foi John”, conclui, simples e direto.

A verdade é que a banda já estava desgastada e começando a se separar quando Yoko entrou em cena, e se o amor por ela ajudou Lennon a ter coragem de separar a banda, o fim aconteceria de uma maneira ou de outra, mais cedo ou mais tarde. A lenda de que Yoko Ono acabou com os Beatles ainda resiste, assim como todo o ódio destilado ainda hoje contra uma das mais interessantes artistas de vanguarda do mundo, por nada além do que machismo, misoginia e espanto diante do desconhecido.

Além de ter trabalhado com os mais importantes artistas da vanguarda japonesa no final dos anos 1950, Yoko conheceu Lennon tendo já trabalhado ou convivido com nomes como o grupo Fluxos, John Cage, Nam June Park, Merce Cunningham e Allan Kaprow – e já vinha desenvolvendo um trabalho radical que se revelaria influente e impactante, como a Cut Piece, de 1964, o sensacional livro Grapefruit, do mesmo ano (de onde John e Yoko tirariam a inspiração para a letra da canção “Imagine”) e seus filmes experimentais. Até hoje, aos 86 anos, o trabalho de Yoko permanece vigoroso e desafiador.

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Acima, Yoko durante a performance Cut Piece; abaixo, John e Yoko no lançamento de Grapefruit

A própria influência da artista na obra de Lennon é também visível e merece ser celebrada como a guinada que fez John ir além do fenômeno pop e do grande compositor que já era, para se tornar um dos artistas mais importantes do século 20. A decisão de tornar sua música radicalmente autobiográfica, crua e muito mais extrema e de se tornar pessoalmente um militante pela paz só pôde ser formatada e levada a diante com força estética e discursiva através do incentivo e da ajuda direta que a artista ofereceu a seu marido – movida pelo inconformismo e o desejo de desafiar as caretices do mundo que unia o casal.

Pois quem admira o trabalho do John Lennon “real” – o artista mordaz, provocador, irônico, inquieto e inconformista – sabe que Yoko lhe trouxe inspiração e sentido quando ele mais se encontrava pessoal e artisticamente perdido e desestimulado pelo sucesso e as pressões comerciais.

O casal durante a campanha “War Is Over”, na qual espalharam outdoors pelo mundo com a frase “A Guerra Acabou, se você quiser”, em 1971

Em 2019 são muitos os feitos que completam 50 anos na história de um dos mais impactantes casais de todos os tempos: além do casamento de John e Yoko em Gibraltar (conforme é contado na canção “The Ballad of John and Yoko”, ainda dos Beatles), sua lua de mel transformada em um happening de protesto, intitulado Bed-In for Peace (Na cama pela paz, em tradução livre), no qual o casal convidou a imprensa para seu quarto de hotel em Amsterdam e permaneceu por uma semana de pijamas deitado na cama contra a Guerra do Vietnã também completam em março cinco décadas. No quarto de hotel do segundo Bed-In, em maio em Montreal, no Canadá, foi gravada a canção “Give Peace a Chance”.

Lennon e Yoko durante os Bed-in’s

Em 1969 foi lançado o primeiro disco da sensacional Plastic Ono Band, banda que John iria formar com Yoko, o ao vivo Live Peace in Toronto. Foi nesse ano também que o casal lançou a segunda e a terceira parte de sua trilogia de discos experimentais: depois de Unfinished Music No. 1: Two Virgins, lançado no ano anterior, em 1969 saíram Unfinished Music No. 2: Life With Lions e Wedding Album. Compostos por colagens, sobreposição de vozes, pequenos experimentos musicais e rítmicos, não são discos pop para qualquer ouvido – mas tratam-se, ainda assim, de trabalhos de arte efetivamente interessantes, em especial se localizados no contexto, na época e com a assinatura de quem os fez. Wedding Album ganhará uma nova edição esse ano por um selo canadense.

O dia de seu casamento em Gibraltar (John está com a certidão em sua mão)

E a efeméride final do casal a completar 50 anos em 2019 foi a primeira apresentação pública que realizaram juntos em um palco, na Universidade de Cambridge, em 2 de março de 1969. Curiosamente, tratou-se de uma apresentação de Yoko, em que John participou como “sua banda” – de costas para a plateia pelos 26 minutos do show, criando ruídos, barulhos e microfonias com sua guitarra diante de um amplificador enquanto Yoko cantava, falava e gritava.

A primeira apresentação dos dois, em Cambridge, em 1969

A última foto de John Lennon com vida, tirada por Annie Leibovitz em 8 de dezembro de 1980, dia de seu assassinato

É impossível desassociar o nome de Yoko de seu célebre marido, mas também é impossível relevar a importância da artista sobre a vida e obra de Lennon. E, além de cuidar da memória, do legado e da obra de John após seu assassinato, em dezembro de 1980, ela segue criando e se apresentando como uma das mais influentes e importantes artistas do mundo.

Yoko hoje em dia

Yoko Ono é uma mulher independente, forte, talentosa e questionadora, que teve coragem de desafiar o mundo e oferecer a própria vida e reputação como escudo e espantalho para o conservadorismo, a caretice e o preconceito feito uma doce porém inabalável rocha, que parece ainda hoje utilizar a voz de seus detratores como combustível para seu talento e sua arte.

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© fotos: créditos/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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