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15ª SP-Arte ocupa jardins e Bienal do Ibirapuera fortalecendo arte latino-americana

por: Gabriela Rassy

Em um paraíso da arte e do design, a SP-Arte chega à 15ª edição mais uma vez ocupando a Bienal do Ibirapuera. De novidade, a feira deste ano ocupa os jardins ao redor do prédio projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Além disso, o novo time curatorial dá uma cara nova aos setores de Masters, Solo e Performance.

Quem já foi sabe: se perder ali é a coisa mais fácil do mundo. É como entrar num vórtex das artes visuais. Você acha que vai só dar uma passada e quando vê passaram 5 horas. Mais uma vez não consegui fugir disso. Cheguei com o dia claro, sol raiando e saí no último minuto quase com o espaço sendo varrido. Pudera! O ambiente é perfeito para conhecer trabalhos dos consagrados aos mais recentes artistas ingressando no mercado.

Só na área externa dá para passear entre 17 esculturas e instalações. Próximo da entrada está o histórico penetrável Macaleia, de 1978, obra de Helio Oiticica. A instalação é representante de um período em que a arte brasileira estava rompendo com estéticas e padrões. Os penetráveis surgiram para que as pessoas pudessem interagir com a obra, entrar, ver de outros ângulos e se sentir parte. Até o casal de cães que passeava pelo parque aproveitou a experiência.

Obra "Ciclotramas" de Janaina Melo Landini, da Zipper Galeria

Obra “Ciclotramas” de Janaina Melo Landini, da Zipper Galeria

Ao lado do penetrável, a artista carioca Amanda Costa apresentava uma série de peças em cangas estendidas no gramado. Em vários bairros do Rio é comum ver o famoso Shopping Chão, onde vendedores expõe os mais variados produtos, de roupas a brinquedos, em tecidos nas calçadas.

O Shopping Chão É Show Lixo de Artista – sério, que maravilhoso! – de Amanda vai nessa linha, mas com objetos doados por artistas. “Eu venho recolhendo lixo de vários artistas e vendo na frente de feiras e vernissages”, conta a artista com a risada mais gostosa de todo o rolê. “Eu peço para cada artista escolher um lixo para me dar e eles escolhem o que melhor lhe representa”, explica. Apenas genial!

Latino-América, si!

Dentro do pavilhão, uma infinidade de artistas e possibilidades a serem exploradas. Logo na entrada, obras de Beatriz Milhazes, Di Cavalcanti, Alfredo Volpi e Djanira da Mota e Sila – que aliás ocupou as paredes do Masp neste ano.

Beatriz Milhazes

Djanira Mota e Sila

Destaque para o setor solo, com curadoria da chilena Alexia Tala, que chegou para desconstruir a visão eurocêntrica que a América Latina tem de si mesma. A seleção de 12 artistas começa com os bordados de Randolpho Lamonier (Periscópio, Brasil) com frase críticas maravilhosas como “Em 2040 legalizamos o amor e outras drogas menos intensas”.

Alexia Tala

Alexia Tala

Ainda por ali, passei pela Sé Galeria que apresenta quadrado do duo carioca Manata Laudares. “O trabalho deles é sempre esse diálogo entre o tradição e o erudito, entre o popular e o contemporâneo”, conta a galerista Maria Monteiro. Eles colecionam imagens em 8 bits, que foram as primeiras imagens digitais, e apresentam bordados nas telas Leme 8 Bits onde cada ponto é um bit.

Outro solo que vale ver e se aprofundar é o do artista brasileiro Rafael Pagatini, da Oá Galeria. A pesquisa gira em torno da ditadura militar e as memórias deste período. A obra “Bandeirantes” mostra várias fotos de políticos e empresários da época impressas em caixas de arquivo morto. “As caixas abertas fazem uma discussão sobre o imaginário desse período que tem documentos ainda não foram abertos e como esse período ainda reverbera”, conta o artista.

Atenção à obra “Da dificuldade em nomear” onde Rafael cataloga uma série formas como historiadores nomearam esse período mostrando a dificuldade em dar nome a um período de tantos traumas. “A gente fala mais em frustração por que não tem uma discussão efetiva sobre o tema”, explica. Megafones compõe o stand, mostrando que o que seria usado para amplificar está concretado e silenciado no chão. “É uma referência a falta de discussão sobre esses traumas e também o quanto o nosso discurso da arte ecoa as vezes só para dentro do meio da arte”.

Além dos solos, a série de Masters também traz boas referências em quase 100% de obras latino-americanas. Fica ali o retorno de trabalhos que estiveram em duas das principais exposições paulistanas de 2018, a necessária “Mulheres radicais”, que visitamos na Pinacoteca do Estado, e a incrível “Histórias da sexualidade”, do Masp.

Destaque para as mulheres do setor, como a artista Letícia Parente que marca presença como uma das pioneiras da videoarte no Brasil. A ela se junta a também precursora do vídeo Analívia Cordeiro, bailarina e coreógrafa que investiga as artes do corpo em associação com as mídias eletrônicas. Outra artista fundamental na arte brasileira presente na mostra é a carioca Lygia Pape, um dos principais nomes do movimento neoconcreto que deixou um legado experimental único ao lado de Helio Oiticica.

Dentro e fora da SP-Arte

Além das mostras na feira, artistas da América Latina também ocupam as galerias de arte de São Paulo. Na semana da 15ª SP-Arte, e se estendendo pelo mês todo, galerias da cidade recebem mostras mais aprofundadas de diversos artistas.

Vale passar pela Galeria Luisa Strina que recebe Paisajes de Trabajo, nova exposição do cubano Carlos Garaicoa. As ruínas aparecem mais uma vez no trabalho do artista na nova série Puzzle. Nela, uma fotos de edifícios destruídos do período pré-revolucionário têm as laterais cobertas por peças de quebra-cabeça que mostram o espaço ao redor reconstruído. Só as ruínas ficam aparentes quanto as peças que as cobririam estão caídas no fundo da caixa acrílica que cobre a obra. A mostra fica em cartaz até 25 de maio, de segunda a sexta, das 10h às 19h, e aos sábados, das 10h às 17h.

O artista está na SP-Arte com duas obras também bastante críticas. Em “Louis Vuitton Voyage avec Karl Marx et Nous Voyageons avec Louis Vuitton” (Louis Vuitton viaja com Karl Marx e nós viajamos com Louis Vuitton) ele apresenta uma bolsa Louis Vuitton com o livro “O Capital”, de Karl Marx, encadernado em vermelho, saltando para fora.

Outro artista que está dentro e fora da feira é o fotógrafo Roberio Braga. Ele apresenta “Ventos, luzes e tranças” na Galeria Mario Cohen até o dia 18 de maio, com 22 imagens das séries Luz Negra (2013), Tranças (2016) e a inédita Ventos da África (2019). Todas as obras são inspiradas nas culturas africanas, em seus símbolos de resistência e preservação de tradições ancestrais e de como se mantiveram no Brasil.

Ao longo dos dias de SP-Arte, o roteiro de Visitas Guiadas, os debates com especialistas no Talks, o programa Meet the Artists e os lançamentos editoriais convidam os visitantes a mergulhar mais a fundo na mostra. Vale ver a conversa “A iniciativa privada no setor cultural” que discute caminhos possíveis para o intercâmbio entre os setores privado e institucional com Marcos Amaro, artista e presidente da Fundação Marcos Amaro, Silvio Frota, colecionador e fundador do Museu de Fotografia de Fortaleza, e Ricardo Pessoa de Queiroz, fundador da Usina de Arte em Pernambuco.

Outro papo interessante e que fecha o evento no domingo, às 16h30, é o “Novas narrativas curatoriais”. Nela, os antropólogos Hélio Menezes e Lilia Schwarcz, do time curatorial da mostra “Histórias afro-atlânticas”, e Diane Lima, curadora do Valongo Festival Internacional da Imagem, comentam sobre a inclusão de artistas até então excluídos da narrativa da história da arte.

Parece muito, mas o que vi foi só um aperitivo da dimensão da SP-Arte. Um dia certamente não é suficiente então programe-se para visitar em pelo menos dois e aproveitar as visitas guiadas com o tema que mais te interessar. O mapa da mina cada um pode montar. Explore!

SP-Arte – Festival Internacional de Arte de São Paulo
Pavilhão da Bienal – Ibirapuera
4 e 7 de abril, das 13h às 21h; e 7 de abril, das 11h às 19h
R$50 e R$ 20 (meia-entrada) – gratuito para crianças de até dez anos

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Fotos:

Geral do pavilhão e Alexia Tala por Ênio Cesar
Obras por Gabriela Rassy


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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