Debate

3 meses muito malucos: 5 confusões e bizarrices do agora ex-ministro da Educação

por: Kauê Vieira

Como esperado, o presidente anunciou pelo Twitter a saída de Ricardo Vélez Rodríguez. Em pouco mais de três meses à frente do Ministério da Educação, o agora chefe da pasta demitido, acumulou crises, defesa da ditadura, ofensas aos brasileiros que viajam ao exterior e poucos avanços consistentes.

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Vélez é colombiano naturalizado brasileiro. Desde que foi nomeado por indicação de Olavo de Carvalho, o ministro foi engolido por uma verdadeira guerra entre militares e seguidores do astrólogo e guru da presidência.

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Foram pelo menos 14 demissões em cargos importantes na estrutura interna, destaque para a saída do secretário-executivo.

“A aliança pode sair da mão de Vélez e ir para a gaveta”, disse Bolsonaro na sexta (5)

O desligamento se consumou ainda na manhã de segunda-feira (8), depois de reunião entre Bolsonaro e Vélez Rodríguez no Palácio do Planalto. Na sexta-feira (5), o político do PSL assegurou aos jornalistas uma mudança de curso na pasta.

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“A aliança pode sair da mão de Vélez e ir para a gaveta”, declarou durante café da manhã com membros da imprensa.

O escolhido para comandar o Ministério da Educação é Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub. O economista já atuava na equipe de Onyx Lorenzoni na Casa Civil.  Formado em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo, Abraham atuou por mais de 20 anos no mercado financeiro. Foi executivo da Votorantim em encontros do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Vélez ainda não se manifestou sobre a demissão. No meio tempo, o Hypeness preparou uma seleção com algumas das trapalhadas do ex-ministro da Educação.

1- Ditadura nos livros

Assim como Jair Bolsonaro, Ricardo Vélez não considera o golpe de 1964 o início de uma ditadura militar. A última polêmica antes de cair foi a sugestão de alterações no conteúdo dos livros didáticos sobre os anos de chumbo.

O ministro conversou sobre o assunto com o Valor Econômico. Entre outras pérolas, Vélez ressaltou que a destituição de João Goulart foi “uma decisão soberana da sociedade brasileira”. Ele ainda classificou a ditadura como  um “regime democrático de força”.

Como boa parte do governo, Vélez defende a ditadura. E queria mudar a história nos livros

“Foi a votação no Congresso, uma instância constitucional, quando há a ausência do presidente. Era a Constituição da época e foi seguida à risca. Houve uma mudança de tipo institucional, não foi um golpe contra a Constituição da época, não”, opinou.

A última postagem do colombiano no Twitter foi em 4 de abril. Além de sugerir que veículos de comunicação não podiam mais “barganhar às custas de trocas de favores”, ele defendeu a alteração.

2- Canibais no exterior

Rodríguez não teve dúvidas ao ofender brasileiros que viajam ao exterior. Ele declarou que o turista do Brasil é um “canibal”. E acrescentou, “rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”, encerrou em entrevista à Veja.

Diante da repercussão negativa, pediu desculpas “a quem tiver se sentido ofendido”. Porém, seguiu a tática de acusar a imprensa de distorção.

Para o ex-ministro, brasileiros agem como ‘canibais’ no exterior

3- Universidade não é para todos

A educação brasileira passou por avanços substanciais em função de ações como a implementação de cotas raciais e sociais. O agora ex-ministro da Educação, pasmem, declarou que as universidades não são para todos.

No vídeo divulgado no Twitter, ele falou que universidade “não é para todos”, mas, “somente para algumas pessoas”.

O colombiano não acredita em universidade acessível

A fala estarrecedora foi proferida em entrevista ao jornal Valor Econômico. “A ideia de universidade para todos não existe… As universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”.

Pegou mal. Mais uma vez, ele voltou atrás. Reafirmou a crença no espírito democrático das instituições de ensino.

4- Tabata Amaral e o Power Point

Em reunião na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados Tabata Amaral (PDT-SP) expôs o despreparo de Ricardo Vélez Rodríguez.

A deputada federal em primeiro mandato deu uma lição de planejamento ao homem de mais de 70 anos. Tabata criticou a insistência em priorizar o combate ao fantasma do comunismo e a militarização de escolas públicas como trunfos para a elevação do nível de ensino no Brasil.

Tabata expôs sangria no MEC

“Eu não espero mais nenhuma resposta, já entendi que isso não vai acontecer. A mim, me resta lamentar o que está acontecendo, continuar o meu trabalho de educação, que não começa com este mandato, e esperar que o senhor mude de atitude – o que parece completamente improvável – ou saia do cargo de ministro da Educação”, complementou.

5- Ciência e matemática baseadas na palavra de Deus

A fala acima não foi dita por Vélez. Veio da então número dois do MEC. A pastora evangélica Iolene Lima, ligada à Igreja Batista, pontuou em uma entrevista de 2014 que “o autor da história é Deus. O realizador da geografia é Deus. O maior matemático foi Deus”.

14 demissões em pouco mais de 3 meses de gestão

“É uma educação baseada em princípios, ou seja, baseada na palavra de Deus. É uma cosmovisão cristã. O aluno aprende que o autor da história é Deus. O realizador da geografia é Deus. Deus fez as planícies, fez os relevos, fez o clima. O maior matemático foi Deus. Os alunos menores de primeiro ano, o primeiro contato que eles têm com a matemática é pelo livro de Gênesis”, pontuou.

Tal como outras 13 pessoas, a pastora evangélica indicada por Vélez Rodríguez foi demitida dias depois.

 

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Fotos: foto 1: EBC/foto 2: Marcello Casal Jr/Agencia Brasil/foto 3: EBC/foto 4: EBC/foto 5: Reprodução/foto 6: EBC


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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