Debate

Alunos decidem indenizar descendentes de negros vendidos como escravos por universidade dos EUA

por: Vitor Paiva

A Universidade de Georgetown, localizada nos arredores de Washington, D.C., capital dos EUA é uma das mais importantes e respeitadas instituições de ensino superior do mundo. Acontece que, em meados do século 19, a universidade jesuíta precisou levantar fundos para sua manutenção – e, em 1838, colocou à venda 272 pessoas negras escravizadas pelo valor equivalente hoje a 3,3 milhões de dólares.

Os seres humanos escravizados haviam sido “doados” à universidade por fazendeiros e empresários que apoiavam Georgetown. Passados 181 anos de tal negociação sombria e absurda, os atuais alunos da universidade votaram por ao menos tentar reparar ou amenizar o terrível impacto desse passado assombroso e racista para os descendentes dos negros escravizados de Georgetown.

Sede da Universidade de Georgetown, nos EUA

Assim nasceu a proposta de criação de um “fundo de reconciliação”, que foi endossado por 66% dos estudantes da universidade. Agora a medida precisa ser aprovada pelo conselho da instituição para entrar em vigor. Caso venha a ser criado, o fundo será o primeiro do tipo em uma grande universidade americana.

Mais de 60% dos estudantes de Georgetown participaram da votação, que argumenta não só diretamente pelos descendentes dos escravizados da universidade, como argumenta o óbvio: que muito da riqueza dos EUA foi construída às custas do comércio e da mão de obra de pessoas escravizadas.

Patricia Bayonne-Johnson com foto de seus antepassados vendidos por Georgetown

O projeto prevê que todos os alunos da graduação paguem uma taxa semestral de 27,20 dólares para “fins de caridade que beneficiem os descendentes” das pessoas escravizadas.

“Como estudantes de uma instituição de elite, reconhecemos o grande privilégio que temos e desejamos ao menos pagar parcialmente nossas dívidas àquelas famílias cujos sacrifícios involuntários tornaram esse privilégio possível”, diz trecho do projeto. Estima-se que atualmente algo entre 15 mil e 20 mil descendentes das pessoas escravizadas vendidas ou que viviam na universidade vivam hoje nos EUA.

Os críticos do projeto afirmam que a taxa não deveria ser compulsória, mas sim opcional, e que a universidade deveria sim oferecer educação de qualidades aos descendentes dos 272. No mesmo sentido, questiona-se de que forma o valor a ser arrecadado anualmente – cerca de 400 mil dólares – será reinvestido. O presidente de Georgetown deve se pronunciar ainda essa semana.

Estátua de jesuíta na Universidade

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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