Futuro

As implicações da prisão de Julian Assange para a transparência global de dados

por: Kauê Vieira

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Foram quase sete anos abrigado na embaixada do Equador em Londres. Eis que em uma tarde de sol de quinta-feira (11), Julian Assange, que nunca colocou o pé pra fora do edifício, é preso pela polícia britânica. Barbudo e com um coque no cabelo, o australiano deixou o prédio aos gritos e carregado pelos oficiais.

O fundador do WikiLeaks e responsável por deixar os Estados Unidos nu perante o mundo convive agora com o temor da extradição para os EUA, onde pode ser condenado pela divulgação de documentos e imagens confidenciais.

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“O fundador do Wikileaks está detido em nome das autoridades dos Estados Unidos e em virtude da Seção 73 da Lei de Extradição. (Ele) está em custódia policial e vai depor à Corte de Magistrados de Westminster (Londres) o mais rápido possível”, declarou um porta-voz da polícia.

Prisão de Assange é vista como fim de décadas de ativismo digital

Desde 2010, quando jogou na rede um vídeo de soldados norte-americanos executando 18 civis de um helicóptero no Iraque, Assange utiliza o WikiLeaks para expor os abusos de poder do governo norte-americano, sobretudo no Iraque e Afeganistão.

Em 2016, já asilado na embaixada do Equador em Londres divulgou, na véspera do dia D das eleições dos EUA, e-mails da campanha de Hillary Clinton interceptados a partir da invasão de computadores do Comitê Nacional Democrata por hackers russos.

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O WikiLeaks apontou conexão entre Hillary e o jihadismo no Oriente Médio. O e-mail se refere ao período em que a então candidata foi secretária de Estados dos EUA.

A atuação de Assange divide opiniões. Existem os que, como autoridades norte-americanas, enxerguem atitude criminosa nos atos. De outro lado, os que exaltam os esforços em defesa da transparência

Alguns especialistas classificam a prisão de WikiLeaks como ponto final em décadas de ativismo digital. Opinião compartilhada pelo jornalista Ivan Mizanzuk no Twitter.

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Julian Assange temia pela liberdade desde a eleição de Lenín Moreno. O atual presidente jogou por terra os benefícios, como o asilo político, concedidos pelo antecessor Rafael Correa, de quem foi vice entre 2007 e 2013.

Correa criticou o colega nas redes sociais. “Lenín Moreno revelou ao mundo sua miséria humana, entregando Julian Assange à polícia britânica, não somente um asilado, como também um cidadão equatoriano”, pontuou.

O WikiLeaks chegou a dizer que Assange foi espionado dentro da embaixada. Os administradores da plataforma asseguram que o australiano teve vídeos, fotos e documentos analisados por um grupo na Espanha, que pedia 3 milhões de euros para impedir a divulgação. A prisão aconteceu um dia depois da descoberta.

Ainda sobre os Estados Unidos, Assange jogou na rede ao menos 250 mil documentos confidenciais sobre os bastidores da Guerra ao Terror de George W. Bush no Iraque e Afeganistão.

WikiLeaks: ataque de tropa dos EUA em Bagdá, em 2007

O Brasil também está no radar. A Agência Pública diz em reportagem que pelo menos 3 mil documentos se referem ao país sul-americano. São 63 despachos do departamento de Estado e 2919 telegramas enviados entre 2002 e 2010 (1947 oriundos da embaixada em Brasília e 909 dos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife). Somente 1/5 são classificados – 468 são confidenciais e 73, secretos.

“A preocupação política sobre as imaginadas ameaças à soberania na Amazônia, no entanto, pode servir para o objetivo prático de impor aos militares uma maior capacidade para projetar seu poder à região, que é a mais vulnerável à instabilidade dos países vizinhos”, escreveu em correspondência Clifford Sobbel, ex-embaixador dos Estados Unidos em Brasília.

Sobbel qualificou a política de segurança do Brasil na Amazônia de “paranoica”, de acordo com os vazamentos de WikiLeaks. O norte-americano é radicado no Brasil e possui trânsito com grandes empresários do país, manteve inclusive encontros com nomes influentes, como o publicitário Nizan Guanaes.

Pelo menos 3 mil documentos falando sobre Amazônia, Lula e segurança

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos já emitiu pedido de extradição contra Assange. Os EUA acusa o fundador do WikiLeaks de hackear computadores e vazar informações secretas e a Justiça estabeleceu pena de cinco anos.

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O presidente do Equador, Lenín Moreno, revela ter garantias do governo britânico de que a extradição não será realizada para países que autorizem a pena de morte. Seus defensores custam a acreditar.

Jennifer Robinson, advogada do ativista, informou que vai lutar contra a extradição. Ela sugeriu a abertura de um “precedente perigoso” para qualquer jornalista que “publicar informações verdadeiras”, especialmente sobre os Estados Unidos.

Acusação de estupro

Julian Assange é acusado de ter estuprado uma mulher na Suécia em 2010. O caso, contudo, foi arquivado pela Justiça sueca em maio de 2017, três anos antes da prescrição. As investigações não conseguiram avançar enquanto ele esteve preso na embaixada do Equador.

Elisabeth Massi Fritz revelou que pedirá a reabertura do caso. “Faremos tudo para que os procuradores voltem a abrir a investigação sueca e que Assange seja entregue para a Suécia e julgado por estupro. Enquanto o crime não prescrever, minha cliente tem esperança de que a justiça seja feita”, garantiu a advogada.

A France-Presse informa que um porta-voz da procuradoria sueca não quis comentar a situação. “Veremos (o que acontecerá) sobre o caso”, afirmou.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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