Debate

Coleção com rosto de Marielle e tiros na SPFW gera debate nas redes sociais

por: Redação Hypeness

O 47° São Paulo Fashion Week (SPFW) aconteceu no último fim de semana. No evento, o estilista Ronaldo Fraga apresentou duas peças com a imagem de Marielle Franco: um sapato, com o rosto da vereadora com um alvo na testa, e uma camisa com círculos vermelhos, que representavam tiros. O conceito, segundo o estilista, era imaginar o que Cândido Portinari faria se os painéis ‘Guerra e Paz’ fossem pintados nos dias de hoje. A alusão a Marielle, vereadora assassinada no ano passado, foi feita na intenção protestar contra a morte de negros no Brasil.

A homenagem, no entanto, gerou debate nas redes. A discussão se dividiu entre quem compreendia a intenção das peças e defendia a moda enquanto instrumento de protesto e, por outro lado, quem julgava as peças como um desrespeito à família e à imagem da ex-vereadora.

Peças foram interpretadas como um desrespeito à memória de Marielle Franco

De acordo com a Marie Claire, com a repercussão negativa, o estilista entrou em contato com Anielle Franco, irmã de Marielle. Para o Ronaldo, a conversa “Foi uma ótima acolhida, estamos no mesmo barco, na mesma luta. Estamos defendendo e lutando pelas mesmas causas”.

Segundo ele, o país não está habituado ao uso político da moda. “Obviamente eu entendo quando as pessoas se sentiram agredidas. Não existe no Brasil o costume de ver a moda como vetor político. Me surpreendeu toda a história porque foi fogo amigo, veio justamente de grupos com os quais eu compactuo“, explicou.

Anielle se manifestou pelo Instagram, expressando o incômodo de ter a imagem da irmã usada mais uma vez sem o consentimento da família, embora entenda que sua irmã representa uma luta muito grande para o Brasil. “Eu entendo que ela é gigante e sempre será. Mas as pessoas precisam entender que a morte da Mari vai muito além de ideologia política e que por trás dessa morte existe uma FAMÍLIA DESPEDAÇADA que ainda hoje sofre com essa violência. Essa guerra de valores que estamos vivendo tem lado, e quase sempre o lado esquecido, é o lado do negro, pobre, homo, trans e etc! Isso sim me incomoda mais do que qualquer outra coisa. E com toda essa indignação, eu não medi esforços para postar, falar, fazer stories e comentar sobre esse caso“, desabafou.

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Nos últimos dias fui bombardeada com uma enxurrada de mensagens e fotos sobre o desfile da fashion week e sobre a coleção do @fragaronaldo. Eu realmente não entendo quase nada de como funciona o mundo da moda. Mas me incomodei com a imagem da minha irmã sendo mais uma vez exposta sem aviso prévio da família. Mas o meu incômodo nunca foi só esse. E sim, o fato de muita gente usar a imagem dela de forma errada. Que não foi o caso dele! Eu entendo que ela é gigante e sempre será. Mas as pessoas precisam entender que a morte da Mari vai muito além de ideologia política e que por trás dessa morte existe uma FAMÍLIA DESPEDAÇADA que ainda hoje sofre com essa violência. Essa guerra de valores que estamos vivendo tem lado, e quase sempre o lado esquecido, é o lado do negro, pobre, homo, trans e etc! Isso sim me incomoda mais do que qualquer outra coisa. E com toda essa indignação, eu não medi esforços para postar, falar, fazer stories e comentar sobre esse caso. Até que hoje, de maneira sensata e digna, recebo uma ligação do próprio Ronaldo Fraga, pedindo desculpas por não ter entrado em contato anteriormente com a família. Me explicou o que o motivou a fazer tal coleção, e disse que tais itens NÃO SERÃO comercializados e que ainda serão enviados aos meus pais. Que essa atitude dele seja reconhecida. Em tempos de fascismo, ódio, e fake news, agradeço a ele por sua forma de pensar, empatia e sensibilidade em se preocupar com a família mesmo após toda essa repercussão. E que isso sirva de aprendizado e aviso, pra dizer que a família não permitirá a exposição indevida da imagem de Marielle! Parabéns pela atitude @fragaronaldo e obrigada por sua postura em nos procurar!

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A irmã da vereadora também explicou que na conversa com Ronaldo, ele deixou claro que as peças não serão comercializadas, mas entregues a seus pais.

Nas redes sociais, porém, a discussão se aprofundou muito mais. Através do Instagram, Stephanie Ribeiro, colunista da Marie Claire Brasil, afirmou que não viu sentido na homenagem e que, se o objetivo era político, havia outras medidas mais efetivas que poderiam ser tomadas. “Acho que é possível denunciar o racismo estrutural, a violência e repudiar esse assassinato que marcou todos nós, de uma forma que não seja essa. Muitas marcas estão no @spfw trazendo profissionais negros, seja nas equipes de produção, beleza, etc… seja entre modelos que deixaram de ser apenas um na passarela e passaram a ter presença mais significativa”, contestou.

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Fotos do Instagram @ffw Urgente que a gente faça uma discussão entre nós, negros e pessoas que de fato são empáticas a essa luta, ou que tem o mínimo de ética, sobre a forma que estão usando a imagem de Marielle Franco. Ontem no desfile do estilista Ronaldo Fraga foram apresentados duas peças, um sapato com o rosto dela em que é possível ver um alvo em sua testa, e uma camisa com seu rosto em que aparentemente esses círculos vermelhos representam tiros, é isso mesmo? São tiros? Caso não, o que são? Caso sim, qual a necessidade disso? Quero deixar claro, que não vi esse desfile e não compreendo o contexto que foi abordado. Mas mesmo que o estilista trabalhe sobre um viés político, não considero essas peças dignas e éticas. Acho que é possível denunciar o racismo estrutural, a violência e repudiar esse assassinato que marcou todos nós, de uma forma que não seja essa. Muitas marcas estão no @spfw trazendo profissionais negros, seja nas equipes de produção, beleza, etc… seja entre modelos que deixaram de ser apenas um na passarela e passaram a ter presença mais significativa. Considero isso tão importante, EMPREGUEM pessoas negras, e deem a elas a possibilidade de ESCOLHER onde QUEREM e COMO QUEREM ESTAR. Não esperem a gente morrer pra dizer que nossas vidas importam. Usar figuras negras dessa forma é estranho e desnecessário se é para ter um enfoque crítico e político, no meu ponto de vista. Temos que também questionar, como um amigo bem pontuou, os limites da representação artística e de um certo sadismo. Quem vai usar esse tênis e sobre qual contexto? Toda a família dela, e isso inclui a mulher, filha, irmã e pais foram consultados sobre essa peça? Essa camiseta vai estar sendo vendida? Se sim, quais os valores e quem irá usar e em qual espaço? Caso não sejam vendidas, mas sejam usadas para representar tendências, o ativismo está em alta, mas as custas de quem? Independe do nosso clamor, Marielle está morta e tem pessoas diretamente impactadas, como elas se sentem com esse uso de imagem? Acho válido cobrar justiça e respostas, mas existem limites éticos que não me parecem ter sido respeitados.

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Foto: Divulgação


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