Entrevista Hypeness

Criadora diz que ‘Teste de Bechdel’ era apenas uma piada: ‘Sumiria se não fossem as feministas do cinema’

por: Caio Delcolli

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Se você assistiu a algum filme recentemente, pergunte a si mesmo: ele tem mais de uma personagem feminina? Se tem, elas conversam entre si? E, se conversam, o assunto não é homens?

Caso você tenha respondido “sim” para todas estas perguntas, então o filme — ou qualquer outra peça de cultura pop — passa com louvor pelo Teste de Bechdel, criado pela quadrinista norte-americana Alison Bechdel em “Dykes to Watch Out For”, uma cultuada tirinha desenhada e escrita por ela nos anos 1980 que circulou por mais de 20 anos.

“As feministas com quem eu saía naquela época e eu nos sentíamos ignoradas pela cultura, porque ela era dedicada a homens brancos e héteros”, diz a artista de 58 anos em entrevista exclusiva ao Hypeness. “Nós fazíamos piadas a respeito de como não tínhamos filmes com mulheres que se parecessem com pessoas verdadeiras. Parecia ser algo impossível.”

A tirinha — algo como “Sapatões para se Tomar Cuidado”, em tradução bastante livre para português — nunca foi lançada comercialmente no Brasil, mas isto vai mudar neste ano. A Todavia vai publicar “Dykes to Watch Out For”, embora por enquanto não tenha confirmado a data, depois de colocar nas lojas uma nova (e necessária) edição de “Fun Home” depois de muitos anos fora do mercado brasileiro.

Toda centrada em mulheres lésbicas e feministas, “Dykes” é pioneira por abordar com bom humor e sinceridade o cotidiano das personagens; os temas tratados na obra vão da vida sexual dessas mulheres às percepções políticas delas sobre o que acontece no mundo em que vivem, por exemplo.

“Eu me importo de verdade com a subjetividade feminina e este tem sido um dos focos do meu trabalho”, explica.

Estreia do Teste de Bechdel foi na tirinha “The Rule”, publicada em 1985, com as personagens Mo e Ginger

Além de “Fun Home”, Bechdel é autora de outro livro importante para os quadrinhos contemporâneos: “Você É Minha Mãe?” (Quadrinhos na Cia). Lançados originalmente em 2006 e 2012, respectivamente, ambos são memórias profundamente íntimas sobre a família da quadrinista.

Em Fun Home, ela tira o pó do passado para contar a história dela com o pai, Bruce Allen Bechdel (1936–1980), um professor de literatura e gerente de funerária que era um homossexual frustrado e possivelmente cometeu suicídio. Já em “Você É Minha Mãe?”, a autora investiga o relacionamento com a própria mãe, Helen Augusta (1933–2013), uma atriz amadora que não realizou os próprios sonhos.

Ambas as obras são até hoje elogiadas pela crítica e adoradas pelos fãs; Bechdel faz nos livros um uso até então inusitado de técnicas narrativas da literatura autobiográfica, mas nos quadrinhos, para tratar das complexas relações de sua família. Além disso, a autora recorre à psicanálise e à própria literatura, além do bom humor e do olhar fraterno, para entrar em temas tão delicados e íntimos.

A quadrinista mora em Vermont com a esposa, Holly, e gata delas, Donald — um nome sem relação com o atual presidente dos Estados Unidos. Na verdade, trata-se de uma homenagem ao psicanalista inglês Donald Winnicott. “Este é um efeito colateral bastante triste”, ri a artista. “Winnicott é o oposto de Trump.”

Ela atualmente trabalha em uma nova memória em quadrinhos — que promete ser mais leve — sobre o papel que o esporte tem em sua vida, além das décadas de psicoterapia, “para permanecer sã”.

Na conversa com o Hypeness, concedida no último Dia Internacional da Mulher, Bechdel falou também sobre a exposição de conflitos particulares em sua obra, a adaptação de “Fun Home” para um musical — que tornou-se o primeiro da Broadway a ter uma lésbica como protagonista —, como surgiu o Teste de Bechdel e o valor político de “Dykes to Watch Out For”.

Hypeness: Todos seus livros são memórias, menos “Dykes to Watch For”. Isso é proposital ou espontâneo?

Alison Bechdel: Eu realmente gosto do desafio de escrever sobre minha vida, porque a vida em geral é bem aleatória, caótica e não tem um significado inerente. Acho importante que nós encontremos um significado para termos uma vida feliz e satisfatória. Então, para mim, parte de como faço isso é criando uma história a partir da minha vida. Tento relembrar e encontrar algum significado em todas as coisas que fiz e já aconteceram comigo.

Antes de “Fun Home” sair, como você se sentiu a respeito da exposição? O conteúdo do livro é bastante íntimo.

Eu comecei a fazer esse livro quando tinha quase 40 anos. Era um estágio da vida em que sentia ser importante contar a história verdadeira da minha família, da minha infância, os segredos da minha família de acordo com o que eu acredito ser a verdadeira história. Naquela época, eu não tinha muita consideração por privacidade. Era como se minha vontade de contar a história atropelasse a de ter privacidade; senti que a privacidade ajudou a manter todos esses segredos por muitos anos. Eu não quis ser reservada, quis ser pública [risos]. E é claro que não era apenas minha história, mas a do meu pai também. Ele já estava morto àquela época, então eu não poderia dizer que [a publicação de “Fun Home”] o machucaria. Mas expôs minha mãe, que ainda estava viva. Ela era uma pessoa bastante privada — nem os amigos mais próximos dela sabiam que meu pai tinha se envolvido com outros homens e que provavelmente tinha cometido suicídio. Para mim, foi um confronto contar a história e fazer dela algo público. Minha mãe, embora não tenha ficado feliz com isso, entendeu meu sentimento de dever, o que foi muito generoso da parte dela. Minha mãe tinha muito orgulho do sucesso de Fun Home, mas não queria falar sobre as especificidades do livro, não conversava comigo sobre ele. Parte dela tinha orgulho, mas era muito doloroso.

Criar “Fun Home” e “Você É Minha Mãe?” mudou a sua maneira de perceber seus pais?

Sim, e muito. Porque, para escrever os livros, tive que pesquisar sobre meus pais, sobre suas vidas e histórias, como se eles fossem um objeto de pesquisa acadêmica. Tive que pensar sobre como devia ser ser meu pai, ter sentimentos por amigos homens antes de isso ser considerado natural. Tive que pensar na minha mãe e suas ambições em um mundo antes do feminismo: ela poderia ter sido professora ou enfermeira, eram essas as opções. Colocar-me no lugar deles me fez ter mais compaixão, entendê-los mais a fundo. E teve também o processo de desenhá-los quando criança e jovens adultos. Isso formou um tipo de identificação que, no fim, ajudou a criar livros que fossem generosos em relação a eles.

Vamos falar sobre o musical de “Fun Home”. No início, você disse que deixou fazerem a adaptação porque a ideia lhe parecia ser inofensiva. Mas a peça faz bastante sucesso desde a estreia em 2013, chegou a ser indicada ao Tony e teve passagem pela Broadway. “Fun Home” é algo ainda maior agora. Como você se sente a respeito disso?

Foi meio doido ser parte desse show que tornou-se tão bem sucedido [risos]. Eu não entendia muito sobre musicais, não entendia como poderiam ser populares. Se um musical faz sucesso, um grande número de pessoas vai o conferir. Tendo feito as tirinhas de “Dykes to Watch Out For” por tantos anos, eu estava habituada a ser uma personagem marginal, nas franjas da cultura [risos]. Então foi bem esquisito e confuso receber tanta atenção em espaços mainstream. Fico feliz por isso e por terem atingido tanta gente, porque é uma ótima história. Foi engraçado ser exposta assim. Sinto que provei do meu próprio veneno, pois fiz o mesmo com minha família.

Uma companhia de teatro itinerante levou a peça para cidadezinhas dos Estados Unidos e uma delas é a em que você cresceu: Beech Creek, Pensilvânia. Como foi a experiência?

Foi surreal! Toda a experiência foi surreal. Eu provavelmente usei essa palavra mil vezes naquele ano [2016]. Foi bizarro estar no pequeno teatro amador em que minha mãe atuou bastante. Eu ia ver peças lá, às vezes a via ensaiar lá. Era um lugar familiar, mas estranho também, porque tem uma parte toda em “Fun Home” dedicada ao verão em que meu pai quase foi colocado para fora do armário. Ele quase se encrencou por ter se envolvido com um estudante colegial; eles conseguiram deixar isso quieto. Foi durante um período em que minha mãe estava atuando naquele teatro em uma peça de Oscar Wilde. Tem um capítulo todo [no livro] sobre como são estranhas essas coincidências, meu pai se comportando como Oscar Wilde se comportava quando a peça estava no West End, em Londres. Tem várias camadas de estranheza nisso que se desfecham em um círculo. A homossexualidade de meu pai foi representada [em Fun Home] no mesmo palco em que minha mãe já esteve. E isso numa época em que ambos estavam dedicados a fazer disso um segredo. No entanto, tornou-se público, mas desta vez tudo bem, porque tanta coisa mudou entre 1976 e 2016, tanto mudou socialmente. Foi realmente incrível. Quando eu fui ver a peça, pensei “nossa, vão fazer igual aos anos 1970 de novo e todo mundo vai me linchar”, mas foi o oposto, as pessoas apoiaram bastante.

Vamos voltar um pouco mais no tempo e falar sobre o Teste de Bechdel, que hoje em dia é famoso e usado frequentemente. Qual é a história por trás dele?

É uma história bastante engraçada, porque eu nunca o criei para declará-lo como uma métrica que as pessoas deveriam usar. Foi meio que uma piada entre mim e minhas amigas nos anos 1980. As feministas com quem eu saía naquela época e eu nos sentíamos ignoradas pela cultura, porque ela era dedicada a homens brancos e héteros. E nós fazíamos piadas a respeito de como não tínhamos filmes com mulheres que se parecessem com pessoas verdadeiras, que falassem umas com as outras. Parecia ser impossível. Foi uma piada que sumiria se não fossem por algumas estudantes feministas de cinema, mais ou menos 20 anos depois, que a encontraram e acharam que expressava bem as dificuldades delas para contarem histórias sobre a vida delas. E aí, quando surgiu a internet, começou essa tração. Vinte anos depois de ter sido feita, tornou-se essa coisa. É bem engraçado ser associada a isso.

Como você se sente ao ver o Teste de Bechdel ser usado? Você reage dizendo “olha só, fiz um ótimo trabalho!”?

Não [risos]. Sinto que não é completamente aleatório ver isso esteja ligado ao meu nome. Eu me importo de verdade com a subjetividade feminina e este tem sido um dos focos do meu trabalho, mas eu não me responsabilizo por isso. É só uma peculiaridade cultural engraçada.

Você acredita que hoje em dia as personagens femininas são mais interessantes?

As coisas mudaram em um nível bastante notável. Não estão perfeitas, mas — meu deus! — tem tantas séries de TV e filmes com mulheres verdadeiras. As jovens mulheres estão vindo e contando suas histórias de um jeito que, algum tempo atrás, não poderiam. Não quero perder de vista o quanto isso mudou. É importante.

Depois de Donald Trump vencer as eleições, você fez a primeira tirinha de Dykes to Watch For” em quase dez anos. Hoje, as próximas eleições presidenciais dos EUA estão perto. Você pretende fazer uma nova tirinha nesse contexto?

Não. Talvez até faça, mas agora tenho vários projetos no meu horizonte e não sei se terei tempo para fazer as tirinhas. Mas não estou definindo as coisas. Especialmente porque desenhá-las é uma maneira de jogar um retalho de sanidade nesse mundo cada vez mais insano. Um dos projetos que tenho no meu horizonte agora é uma versão animada da série para TV. Não sei se vai acontecer, é apenas uma possibilidade.

A tirinha começou nos anos 1980 e ficou ativa rodou por mais de 20 anos. Naquela década, ver esse tipo de coisa não era comum. Entretanto, parece que o mundo de hoje ainda está precisando de tirinhas como essa, parece que elas ainda são subversivas. O que você acha disso? Quando você olha para essas tirinhas, sente que elas estão datadas ou atuais, dado o atual contexto político?

De certa maneira, elas são datadas, porque são sobre acontecimentos políticos de dez, vinte, trinta anos atrás. Mas, quando eu as releio — especialmente as que saíram nos primeiros anos da gestão Bush —, percebo muita ressonância em relação ao nosso atual momento. Tristemente, ainda acho que as tirinhas ainda têm um valor de circulação [risos].

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Reprodução e Divulgação


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