Meu Guarda Roupa é Hype

‘Estar fora do padrão é minha própria existência’. O estilo emo rock de Caco Baptista

por: Brunella Nunes

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O emocore estava no auge da cena musical em meados de 1980, com toques de punk rock e hardcore. Depois que veio o grunge ele deu uma leve sumida, mas voltou com tudo nos anos 2000 com suas guitarras melódicas e aquela sofrência lírica que muita gente amou odiar e odiava amar. Para o publicitário e youtuber Caio “Caco” Baptista, nem o rock, nem o emo nunca morreram. Através da moda, procura expressar essa avalanche de sentimentos, mesmo quando tudo conspira contra sua própria existência e representação.

Revelar as emoções mais profundas faz parte da raiz emocore. Fala-se abertamente sobre temas amorosos, depressão e solidão. Ao mesmo tempo, implantou novidades na ala fashion, misturando referências góticas, punks, clubbers e street wear. Caco faz a linha oldschool, mantendo bandas mais antigas no radar, como The Used, Paramore, Escape the Fate, Bring Me the Horizon e My Chemical Romance. “O emo me conquistou porque mesclava tudo que eu já gostava no rock: sentimento, instrumental, gritos e referencial de estilo”, contou ao Hypeness. 

Para o taurino de 27 anos com ascendente em peixes e lua em sagitário (o que diria Madama Br00na sobre essa combinação?), também não há problema algum em trazer os temas mais sentimentais à tona. Tanto que ele criou um canal, o Vamos Falar, para abordar assuntos como ansiedade, consciência negra, autoimagem, heteronormatividade e privilégios. Além disso, faz parte do podcast Poc de Cultura, que fala sobre as dores e os amores cotidianos.

Todo estilosão, ostenta dreads nos cabelos, ora com toques de cor, ora escuros, unhas pintadas, piercing, tattoos e alargadores. Não passa despercebido pela ala mais careta da sociedade e, seja por meio de palavras ou pela aparência, encontra meios de conscientizar o próximo de algo simples: ninguém têm direito algum sobre o corpo do outro.

Veja mais: A força do movimento Afropunk, que impactou a moda e o comportamento em escala global

– Qual é o seu maior pecado na moda, aquilo que já te fez gastar pequenas fortunas?

Meu maior pecado da moda foi um período meio obscuro em 2010 onde eu herdei uma coleção de polos do meu irmão e comprei um Crocs branco. Ambos já foram descartados, graças ao meu bom senso.

Na verdade eu não gasto fortunas, minha aventura é frequentar fast fashions do bairro, na Zona Norte de São Paulo, e garimpar coisas que possam conversar bem com meu estilo. E detalhe, a maioria das peças custou em torno de R$ 40 ou menos. Odeio pagar caro em roupa, moda consciente pra mim é importante não só pelos motivos que já sabemos, mas também porque eu não vivo num conforto onde eu possa dedicar uma grande parte do meu salário em looks (infelizmente hahaha).

– Quais estilistas/marcas você mais admira e por quê?

Laboratório Fantasma: pessoas pretas fazendo coisas para pessoas pretas, desfilando pessoas pretas, enaltecendo a negritude. Foda.

Isaac Silva: alguém na moda fazendo coisa foda pensando nos mais diferentes corpos sem pensar em gênero. É algo revolucionário, eu tive no bazar Pop Plus e troquei uma ideia rápida sobre as roupas dele e me fez admirar MUITO.

Alexandre Herchcovitch: a gay deu o nome na moda desde muito tempo e segue fazendo coisas incríveis, é referência.

– Vi que no seu estilo tem bastante street e sport wear. Mas, ao mesmo tempo, que você também curte ser LaQuisha (sua persona drag). Como é essa parada?

Meu estilo é basicamente composto por: tem isso em preto? Então eu quero. Claro que tem uma forte influência do street wear e do Sport wear, mas tem muita referência do rock e do emo, por exemplo.

Agora a LaQuisha…ela nasceu na necessidade de uma performer para uma festa da agência que eu trabalhava. Minha drag mother e amiga Nina Fur saiu da agência e aí nasceu LaQuisha Minaj Knowles, uma drag afirmativamente negra. Com o nome mais “strong black woman” possível, seguido do sobrenome de outras duas mulheres negras poderosas, Beyoncé e Nicki Minaj.

Eu acho legal poder transitar nesse espaço, do normativo (nem sempre masculino) ao feminino. Isso me trouxe uma consciência corporal diferente, vivenciei várias coisas, infelizmente até assédio. Mas lamentavelmente, pela falta de tempo e até vontade, LaQuisha não é presente sempre na minha vida, só me montei umas 4 ou 5 vezes.

– Namorado pode palpitar no guarda-roupa?

Poder, pode. Mas não quer dizer que eu vá seguir ou vá respeitar o gosto dele. Felizmente, nós dois entendemos que o lado legal de estarmos juntos é que cada um é do jeito que é. Não só no comportamento mas no estilo também.

Ele respeita minhas decisões, adora minhas unhas pretas, curte meu cabelo comprido e adora alguns penteados meus. Elogia minhas roupas, da mesma forma como eu sempre faço questão de elogiar os looks dele. Respeitar a individualidade é fundamental num relacionamento, só dessa forma a gente tá livre pra ser o que quiser/puder.

– Como que a gente consegue derrubar a barreira dos gêneros na moda? Por que homem não pode usar vestido na rua em paz?

Eu acho que a moda derruba barreiras desde sempre. A partir do momento que a gente entende que a moda consiste em ser o que a gente é e se sentir livre com isso, a gente rompe barreiras. Quando entendemos que somos todos muito plurais, enxergamos que a moda vai muito além da cor, do gênero, que esses limites não fazem sentido.

A gente tá muito focado no ser ainda, no binário, preto no branco, e as pessoas são bem mais complexas que isso pra gente definir quem quer usar calças, saia, vestido, camiseta ou maquiagem

Sobre a segunda pergunta, é porque a gente vive numa sociedade machista, homofóbica, preconceituosa e misógina que acha que algumas pautas não devem ser discutidas porque ferem o bem coletivo, ou seja, a ignorância toma conta e entramos em retrocesso.

Veja mais: Homens de saia derrubam tabus, questionam padrões e reforçam que roupa não tem gênero

– Você se considera fora do padrão? Como esse tipo de coisa te afeta?

Com toda certeza hahaha Preto, gay, gordo, com um grande número de piercings e tatuagens. Minha existência acaba sendo um ato político só por eu querer ser desse jeito. A normatividade constantemente me confronta, de modo que eu tenho que me lembrar constantemente de que eu não preciso me adequar só por medo de me destacar de alguma forma. Estar fora do padrão, pra mim, é minha existência, de modo que eu transmito tudo que eu bebi de referência na minha imagem.

Me afeta quando eu não encontro coisas para me vestir, me incomoda quando eu sou olhado em lojas por diversos motivos. Me incomoda por nem sempre traduzir a normatividade e me sentir “errado” por não comprar algo que eu gostaria, por exemplo. A forma como afeta vai além do visual, vai para o social. É isso.

– Já deixou de usar alguma coisa pensando mais nos outros do que em você?

Várias vezes infelizmente. E o pior, começou muito cedo, lá para os 10 anos de idade.

A sociedade me ensinou a odiar meu corpo, seja pelo excesso de peso, seja pelo formato, seja pela cor. E durante um bom tempo eu me questionei sobre várias coisas por falta de consciência e consideração com o meu corpo.

Não usava roupas justas por sempre ter tido o famoso “peitinho”, não usava calças justas por conta da bunda gigante que eu sempre tive, até que eu comecei a pensar um pouco mais em mim em alguns aspectos, o que me ajudou a não fazer mais isso (ou pelo menos ser mais consciente).

– Mas, no final das contas, a moda ajuda na sua auto-estima? Quando o Caio se olha no espelho e se sente completamente satisfeito? 

Nossa, muito. Foi através da moda que eu mudei muita coisa a meu respeito e de certa forma me aceitei melhor. Estar 100% satisfeito pra mim é uma ilusão sabe? Acho que o conceito de satisfação ter que vir muito antes na real. É entender que não existe o 100%.

A gente muda muito, vive momentos diferentes na nossa vida, e nosso corpo e estilo refletem isso. Aprender a se amar e se respeitar de forma que a gente não se agrida é fundamental, faz parte de uma consciência. Entender quem a gente foi é fundamental pra traduzir ainda melhor quem a gente é.

O meu processo de empoderamento, mesmo quando eu nem sabia que era isso, começou muito cedo, entendendo que o fato de ser único era importante, porque por mais que eu tentasse, eu não poderia ser outra pessoa.

Respeitar o meu corpo foi entender que não preciso de métricas, pelo menos não as impostas socialmente. Que eu posso ser quem eu quiser, me expressando através disso, com auxílio moda e estando em conexão comigo mesmo.

 

– Qual foi a última “invenção” ou notícia do mundo da moda que te chocou?

O caso de racismo envolvendo uma grande marca mundial. No caso, o racismo envolvia a comunidade asiática, onde ela foi representada através de milhões de estereótipos. Eu não me conformo em ver que, ao criar algo baseado na cultura de um povo, as pessoas se achem no direito de fazer deboche.

Vivenciando isso enquanto negro em sociedade, sei como a nossa cultura pode ser ridicularizada, embranquecida e desmerecida. A moda ainda segue sendo muito branca, elitista e afins.

– Vi você com uma camiseta das Kardashians. Acha que existe apropriação cultural da parte delas? Como você vê o limite entre a liberdade de usar o que quiser e “roubo” de propriedade cultural/histórica/criativa?

Amo elas. Minha preferida inclusive é a Khloe! Já vi boa parte das temporadas e acho uma família incrível, embora diversas situações sejam extremamente problemáticas. Existe apropriação pra um caralho. Mas eu parto do princípio do seguinte: quase todas elas estão em relações interraciais. Em relacionamento é normal que a gente use muito da referência dos parceiros e, no caso delas, o uso é constante. Jamais passaria pano, mas entendo que isso influi muito na questão.

O limite vem do bom senso, puro e simples. Ao decidir por usar algo, é normal que se busque referência. Estudar um pouco mais a fundo e garantir que a peça usada não representa um símbolo de resistência de um povo oprimido é um dever, sabe?

Se somos capazes de criar referência, somos capazes de não cagar em cima da ancestralidade de um povo. Respeito à ancestralidade de povos que tiveram sua história apagada é o mínimo de reparação histórica merecida.

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Fotos: Caco Baptista


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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