Entrevista Hypeness

Falcão fala sobre machismo, cornos e crava: ‘Se não fosse o brega, o Brasil tava é lascado’

por: Caio Delcolli

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Quando criança, o cantor Falcão, 61, queria ser um ator dramático, “como Francisco Cuoco ou Tarcísio Meira”, mas a vida dá voltas e ele foi parar na faculdade de arquitetura. Depois, a veia artística falou ainda mais alto e trabalhar como arquiteto não foi o suficiente. Marcondes Falcão Maia tornou-se músico, carreira na qual ele está há 30 anos, tempo o suficiente para tornar-se um ícone do brega adorado nacionalmente. Agora, uma nova vertente está em formação na trajetória do cearense: a de ator.

Em “Cine Holliúdy 2 — A Chibata Sideral”, que entra em cartaz nesta quinta-feira (4), ele volta ao papel de Cego Isaías, um grande fã do cinema de ficção científica, “de Fritz Lang a Stanley Kubrick” — mencionar os dois autores de cinema foi ideia do próprio Falcão —, em que seu conhecido humor debochado amplamente aproveitado pelo diretor Halder Gomes.

“O primeiro filme foi um tanto quanto novidade para mim, porque eu não sou ator”, conta em entrevista ao Hypeness. “Eu virei uma espécie de cantor-ator, uma mistura de Frank Sinatra com Elvis Presley e quem sabe o Roberto Carlos.”

Além de trabalhar com Gomes em ambos os “Cine Holliúdy” — em que o diretor homenageia e satiriza o cinema norte-americano pela via de uma caricatura da cultura nordestina —, Falcão também atuou em “O Shaolin do Sertão” (2016), dando a vida ao personagem “Chinês”. Para ainda este ano, Falcão tem no gatilho o lançamento de duas comédias, a série de TV “Os Roni” (Multishow) e o longa-metragem “O Amor Dá Trabalho”; ele planeja também fazer uma turnê pelo Brasil todo com uma apresentação de stand-up musical.

O enredo do filme é centrado em Francisgleydisson (Edmilson Filho), um cinéfilo no interior do Ceará que decide unir os moradores da cidadezinha em que vive para fazer um filme de ficção científica em que alienígenas invadem o sertão e entram em conflito com Lampião e outros cangaceiros. “‘Cine Holliúdy 2’  é um divisor de águas no cinema mundial. Hollywood, inclusive, tem que ver esse filme pra mudar os conceitos deles”, afirma enquanto ri da própria fala.

Em paralelo ao trabalho no audiovisual, Falcão planeja lançar “quatro, cinco” músicas em um EP — “é assim que se chama atualmente” — e o primeiro DVD da carreira — “eu sou o único artista do mundo, nem o Michael Jackson conseguiu isso, que não tem um DVD” — em comemoração dos 30 anos de carreira.

Na entrevista ao Hypeness, o mais adorado portador de um girassol no bolso do paletó e detentor da impressionante estatura de 1,93m conversou sobre Cine Holliúdy 2, ficção científica, política e, é claro, a figura do corno na música brega.

Hypeness: Em Cine Holliúdy 2, você interpreta um aficionado por filmes de ficção científica, que manja de “Fritz Lang a Stanley Kubrick”. Mas e você? Você curte sci-fi?

Falcão: Sempre curti! Inclusive, esses dois autores aí foi uma ideia minha de colocar. Graças a Deus, o Halder aceitou, porque eu sou fã tanto do Fritz — assisti àquele longa-metragem dele, “Metrópolis” — e assisti também a “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Sou fã de outras ficções [também], como “Star Wars”, o seriado dos anos 1960 “Perdidos no Espaço” e “Star Trek”. Sou fã desde menino. Ficção científica para nós, cearenses, é uma coisa que tiramos de letra. Está no sangue do cearense.

Você acredita em alienígenas?

Rapaz, eu não só acredito como acho que sou uma espécie de híbrido [de alienígena e humano]. Porque, uma vez, eu conheci um cabra que disse que eu vinha da Constelação de Orion, olhou para mim e disse: “Você tem um sinal”. Pensei que era um chifre, porque todo mundo que tem a cabeça nesse mesmo formato que eu dizem que é descendente de Orion. Aí fiquei com isso na cabeça e acho que fui enviado de lá para cá. Aliás, tem uma coisa que nunca vi, mas gostaria de ver, rapaz. Faço muito show pelo interior de Brasil, andando pelas estradas de madrugada, e fico torcendo pra aparecer um disco voador. Mas, rapaz, nunca apareceu. Queria bater um papo com um ET, tomar uma cana com ele, talvez.

Você começou sua carreira musical antes de a música nordestina, como o brega e o forró, ser esse fenômeno nacional. A Pabllo Vittar, por exemplo, faz imenso sucesso e traz elementos do forró na música dela. O que você acha a respeito disso, de o brega se tornar esse ícone cultural que tem um grande mercado?

O brega é uma coisa que é como o samba, ele tem ciclos. Às vezes some um pouco, mas aparece de novo, porque o brega está na alma do povo brasileiro. Somos um povo altamente brega desde o descobrimento [do país]. Tem coisa mais brega que o descobrimento, rapaz? [Pedro Álvares] Cabral era corno, deixou a esposa sozinha lá [em Portugal] e veio descobrir o país aqui. Nós gostamos da música melosa, que fala das traições e tal. O brega, para quem está nos grandes centros urbanos, tem uma hora em que ele diminui e outra em que não, mas no interior ele sempre está pulsante. E também tem os novos movimentos que acham que não brega, mas alimentam o brega, como o sertanejo e o pagode mela-cueca que apareceu aí. No fundo, tudo é brega. O Brasil, rapaz, se não fosse o brega, a gente tava é lascado.

A figura do corno é frequente no brega. Você tem três músicas sobre corno: “Vida de Corno”, “Todo Castigo pra Corno É Pouco”, “Só É Corno Quem Quer” e tem também um disco chamado “500 Anos de Chifre”. Na sua opinião, por que o homem traído pela mulher é um personagem frequente na música brega?

É uma coisa que, antes de ser muito trágica, é bem humorada. Quando a gente fala de corno, todo mundo ri, todo mundo acha interessante. E o humor musical dá voz à causa do corno e também para desmistificar o corno. Não sei se você sabe, mas teve um tempo que [ser traído pela parceira] era muito triste. Existiam casos até de assassinato, o cabra não aceitava o chifre e matava a mulher, matava todo mundo [Nota do editor: Infelizmente, como você deve saber, o machismo segue como um dos maiores casos de violência no país. E casos de feminicídio por casos de traição não são, como diz o músico, coisa do passado. Muito pelo contrário]. Aí, a partir de certo momento, que acho que começou com o Waldick Soriano, quando ele gravou “Eu Não Sou Cachorro Não”, botaram o humor no meio, começou a estender a história. Aí veio Reginaldo Rossi, Alípio Martins e eu peguei o gancho. Eu não sou o brega autêntico, faço uma caricatura, uma brincadeira em cima desses grandes ídolos. Resolvi me centrar no tema da ‘cornagem’ porque ele é muito mais engraçado. Vai se tornando uma coisa corriqueira ao ponto de o cabra que toma chifre não liga mais, vê que isso é uma coisa muito mais bem humorada do que trágica para a vida dele. Nesse sentido, o brega foi bastante didático porque transformaram o chifre numa coisa nobre na vida do cidadão. O cabra que hoje não leva um chifre, não sabe o que é bom na vida.

“Corno” é um termo pejorativo para descrever um homem traído pela parceira. É uma coisa que pega mal, fere a honra do homem. Na sua opinião, por que ser traído fere a honra do homem?

Isso é herança da sociedade altamente machista que a gente sempre teve. E vai demorar muito para mudar. Embora os novos tempos estejam apontando para a quebra do machismo, no interior do Brasil, ele é muito grande. É tão grande que o cara se sente no direito de trair — e quase todo homem no interior trai a mulher —, mas quando a mulher dá uma escapulidinha, o cara se sente altamente ofendido. Mas, graças a isso que falei, do advento da música brega e toda essa brincadeira, já não é tanto. Hoje em dia, você chama o cabra de corno no meio da rua e ele já dá aquele sorrisinho amarelo e tal, já não fica zangado como antigamente. Acho que daqui uns 50 anos, mais ou menos, vai acabar essa história. Ser corno, inclusive, vai pro currículo do cidadão [risos].

A sociedade parece estar repensando seu conceito de masculinidade. O feminismo tem conscientizado muita gente por aí a respeito de desigualdade de gênero. O que você pensa a respeito disso?

Eu acho [o feminismo] importante, é a evolução natural do ser humano. O Brasil tem uma sociedade muito patriarcal e arcaica, principalmente no interior. Mas, graças a Deus, com o advento da internet e da televisão, a gente está abrindo um espaço maior. Agora, é claro que tem muito “mimimi”, você não pode falar mais de nada. “Cine Holliúdy 2″, que se passa na década de 1980, mostra o pensamento daquela década, mas tem gente achando o filme ruim, falando que discrimina homossexual e cego, mas não vê que aquilo se passa nos anos 1980. Mas hoje em dia o pensamento é outro. Essa história da mulher estar se empoderando e o homem estar sentindo que a mulher tem seu espaço e é igual a nós, isso é muito importante e tem mais é que haver mesmo. Nós estamos aqui doido pra dar todo apoio a isso.

O Brasil vive um momento político muito difícil, de embrutecimento. A questão de desigualdade de gênero, segundo vários sociólogos e ativistas, tem papel central nisso. Nunca falamos tanto sobre machismo e feminismo. Como você vê isso, sendo um conhecedor do Brasil, que já viajou tanto pelo país fazendo shows?

Pois é, acho que estamos vivendo uma época difícil. Ao mesmo tempo em que há modernidade, as mídias sociais e tudo, estão empurrando a gente para acabar com a desigualdade de gênero, a gente está em um retrocesso político que está puxando a gente pra outro lado. Mas acho que nós vamos vencer. Essa história da eleição passada, que parece que a gente caiu em um abismo. Tem até um amigo meu que diz que o Brasil pisou em rastro de corno. Quer dizer, quando o cara “pisa em rastro de corno” dá um azar danado. Acho que o Brasil pisou em rastro de corno. Mas acho que isso é uma coisa passageira. Na realidade, tem uma geração de crianças e jovens que está crescendo e já vem adaptada para o novo mundo. Nós vamos sair desse abismo negro em que a gente caiu aí.

A xenofobia é algo bastante presente na sociedade brasileira. Ainda é comum, por exemplo, um cearense ser ofendido com o uso do termo “cabeça-chata”. Você já passou por uma situação como essa?

Rapaz, no começo da carreira, eu não era conhecido. Em São Paulo, fui um pouco rejeitado pelo fato de ser nordestino, cearense. Mas depois que fiquei conhecido e o pessoal viu que o lance de ser nordestino, um fuleiro igual a nós, principalmente o cearense… A primeira coisa que a gente faz é fazer piada com a gente mesmo. Então, como sou um cara conhecido, a xenofobia não me atinge muito não. Mas tenho notado bastante e faço tudo pra rebater qualquer tipo de preconceito. Contra o negro, contra os gays, contra o nordestino, contra índio. Seja o que for, eu não aceito. E acho que é o papel do artista, principalmente o formador de opinião que nem eu, rebater isso. É uma coisa em que estamos devagar, tentando vencer, mas vamos acabar vencendo, com certeza.

Você já foi chamado por um partido para concorrer à presidência, mas política nunca foi seu lance. Mas imagine que você fosse presidente do Brasil: o que faria se estivesse nessa posição?

Se eu fosse presidente, faria um ministério só de cornos e em cada ministério colocaria um corno, igual a uma “corna”. Mas é claro que isso nunca iria acontecer. É por isso que eu digo: se fosse presidente, minha meta principal seria renunciar no dia seguinte [à posse]. Não tem condição de um cabra como eu, que não tem o mínimo de conhecimento de política e administração, nem traquejo para os conchavos dos altos comando de Brasília, ser presidente. Então, se eu renunciasse, seria melhor para o Brasil [risos].

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