Arte

Me apaixonei quando ela disse que meu baço era lindo | Do Amor #105

por: Jader Pires

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Sentiu-se patético. O sorriso bobo estampado na cara, como se fosse debutante, bem de frente à doutora que, há pouco, estava com as duas mãos entre a nona e a décima primeira costela, procurando seu recém examinado baço. Semanas antes, estava reclamando de dores naquela região, depois de fazer exercícios, às vezes ao acordar. Decidiu, então, ir ao médico para saber se estava tudo bem com ele. Primeiro no clínico geral, que, por via das dúvidas, o encaminhou para um especialista, dando recomendações para que visitasse um gastroenterologista.

E lá foi ele, com a guia debaixo do braço, consultar-se. O garoto que atendia o balcão de chegada o informou para se dirigir à sala de número três, ao final do corredor. Lá dentro, estava a sua espera o que ele chamaria, no fim daquele dia, de “o meu verdadeiro propósito de vida”, como forma de brincadeira, claro. Quando foi atendido pela doutora, manteve sua feição imutável, como se estivesse completamente acostumado em estar frente a frente com o grande amor de sua vida. Olhos atentos, acompanhava com um “sim” feito com a cabeça enquanto ela explanava o que era o baço, como ele funcionava, quais as possíveis causas dos incômodos e assim por diante.

Enquanto ele respondia, com total serenidade na fala, sobre seus hábitos se bebia, que largava o cigarro já tinha uns anos, que estava em dívida com os exercícios físicos, por dentro, seu coração estava a galope, e ele não sabia direito dizer se era para reclamar de algo ou se estava abertamente agradecendo ao outro órgão, o que estava reclamando das agonias e pinçadas, pelo encontro com aquela figura encantadora. Foi embora com um pedido de ultrassom e a memória fotográfica que repetiu a semana todinha o jeitinho com que ela falava com ele, a doçura com que tentava mantê-lo calmo, a sabedoria com que conduzia seu trabalho.

Foi lá fazer seu exame, aguardou com ansiedade pelo resultado, não mais para saber o que lhe acometia, mas para ter de novo com a médica, mesmo sabendo que dali nada aconteceria, que ele não faria a patifaria de paquerar uma profissional que estava ali unicamente para tratá-lo, para auxiliá-lo com uma questão específica, que seria do pior tom ele, um homem, abusar de sua posição de cliente para sair de qualquer decoro com uma mulher, com uma figura técnica. Restava-lhe apenas o trato platónico, o deixar-se afetar pela ideia que ele teria criado dela. Já que era apenas para ficar na lembrança, no mundo das ideias, que fosse, então, o melhor encontro do mundo. Retornou perfumado e com os cabelos alinhados. Trazia consigo o desfecho da análise, seu exame concluindo que não havia nada de anormal com seu baço.

Foi congratulado por ela e seu sorriso perfeito, alinhado, terno. Para garantir, ela solicitou que ele se senta-se na maca para uma última avaliação. E, nesse momento, que ele se sentiu tolo, por sair por um milésimo de segundo de seu papel de paciente para virar um adolescente fascinado pela estrela da tevê. Não a tocou nem tentou nada, seguiu sendo uma pessoa comum e tomada de senso. Mas, quando ela terminou de profissionalmente tateá-lo, e disse que seu baço estava “lindo”, ele perdeu um pouco a compostura e tropeçou nas palavras para dizer um simples “obrigado”, gaguejando e alterando o tom de sua voz, engolindo a seco enquanto voltava a se cobrir com a camisa.

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Recebeu como requerimento da doutora que tomasse mais água, que voltasse a se exercitar, que seu desconforto provavelmente vinha do sedentarismo, que, ao fazer suas coisas do dia a dia com algum stress, numa velocidade um pouco mais exigida, as dores apareciam. Ele agradeceu e se cumprimentaram com um aperto de mão profissional, não demorado demais, também sem ser molenga. Perguntou se poderia ou deveria deixar a porta aberta e ela se despediu dizendo que sim, que a deixasse escancarada e agradeceu a gentileza.

Ele atravessou o corredor com seu exame abraçado entre os braços, juntinho de seu peito. Tinha na cara a figura mais estúpida que alguém poderia ver.

Dos amores que a gente tem de terça-feira.

Que coluna é essa? Conheçam a Do Amor.

Oi gente! Jader falando aqui. =)

Para quem ainda não me conhece, sou escritor. Tenho três livros publicados (o Ela Prefere as Uvas Verdes, o Do Amor e o Deserto Negro) e estou já publicando histórias, crônicas e contos de ficção na Internet tem doze anos. Primeiro em um blog (vocês se lembram deles?), depois no portal PapodeHomem, de florescimento humano que mostra uma masculinidade mais positiva e diversa. Lá, fui colaborador, editor do site por seis anos e depois colunista, justamente com essa coluna Do Amor, com mais de 2.4 milhões de acessos, colocando um pouco do amor romântico em xeque, deixando ele meio sujo e na sarjeta para aprendermos a lidar melhor com as relações amorosas.

Disso, surgiu o livro Do Amor, viabilizado com financiamento coletivo em 2017, ultrapassando a meta inicial e chegando aos 111%, arrecadando mais de 20 mil reais e alcançando mais de 300 apoiadores.

Agora a coluna está de casa nova, aqui no Hypeness, e será publicada quinzenalmente, sempre às sextas-feiras. Então, sexta sim, sexta não, estarei aqui com uma nova história de amores tortos e deliciosos. E tô bem feliz de estar aqui, agora. Obrigado, Hypeness! Cheguem mais pertinho que tem coisa boa pra acontecer. Aqui na assinatura tem os links das minhas redes sociais. Só se aproximar.

Um beijo!

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Reprodução e Divulgação ("Her")


Jader Pires
Jader Pires é escritor. Largou a publicidade, a experiência de sete anos em um banco e foi escrever. Começou a ler livros depois dos vinte e teve que correr atrás do tempo perdido. Já lançou três livros: o Ela Prefere as Uvas Verdes e o Do Amor, de contos, e agora, lança o seu primeiro romance, Deserto Negro, já disponível para compra. Siga-o no Instagram! @jaderpires.


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