Matéria Especial Hypeness

Mulheres e autocuidado: somos uma rede em expansão

por: Gabrielle Estevans

Foi em 2015 que um grande amigo apresentou a mim aquele que se tornaria um dos meus filmes preferidos. O italiano Respiro, da diretora Emanuele Crialese, mexeu comigo para além da narrativa explícita — e que, por si só, já era imensa. Grazia, a personagem principal, boiava nua em banhos de mar, desafiava machismos e tinha suas liberdades tolhidas por leis primitivas e por uma comunidade conservadora e patriarcal. Com as opressões, passaria, então, a ter diversos ataques nervosos. No longa, a personagem é discriminada e taxada de louca. Quantas de nós, aliás, já não fomos?

Lanço mão do nariz-de-cera — parágrafo introdutório que retarda a entrada no assunto específico do texto — porque há, em Respiro, uma ligação profunda entre a mulher que subverte as normas postas à mesa e o que esse enfrentamento é capaz de desencadear em sua saúde mental.

Cena do filme Respiro (2002)

A medicalização excessiva dos corpos femininos e a maneira como, historicamente, lidamos com casos de transtornos psicológicos fez com que nos afastássemos do conhecimento dos nossos próprios processos físicos e mentais. Aos outros, despendemos cuidados, atenção, presença. A nós, e as nossas demandas, reservamos a invisibilização ou as soluções paliativas. Estamos sempre nos colocando em segundo plano. A verdade é que o machismo, como expressão de uma sociedade patriarcal, que nos relega a essa posição coadjuvante de nossas próprias vidas, promove um cotidiano violento para as mulheres e gera adoecimentos. Só procuramos ajuda quando a bomba estoura.

Mas quando as barragens se rompem, há um mecanismo preparado para nos acolher? Falo de rede de apoio, claro, mas também de um sistema de saúde apto a receber e a tratar das mulheres. Em 2006, o cuidado foi um dos pilares da criação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), que, hoje, oferece 19 serviços gratuitos à população, como meditação, yoga, terapia comunitária integrativa, medicina tradicional chinesa, quiropraxia, reiki, entre outras. Uma vitória e tanto se considerarmos que, atualmente, 70% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS. Dessa porcentagem, 80% se autodeclara negra.

Mas a Emenda Constitucional 95, que limita por 20 anos os gastos públicos, veio como um golpe que afeta duramente as políticas de Atenção Básica e de Saúde Mental. Apenas em 2019, serão R$ 9,5 bilhões a menos investidos — atingindo, claro, mais intensamente as mulheres e, massivamente, as mulheres negras.

Na linha de frente da militância e do ativismo, a luta é diária. Há necessidade de vigilância incessante para que não percamos aquilo que já foi alcançado e também para que avancemos na conquista do bem-viver feminino. Mas se nessas trincheiras o desgaste é ainda maior, quem cuida das mulheres que estão levantando nossas bandeiras?

Mulheres na linha de frente

Um levantamento feito pela Iniciativa Mesoamericana de Defensoras de Direitos Humanos mostrou que, no México, 91% das defensoras pelos direitos femininos e pela liberdade da mulher convivem com o estresse diariamente. Suicídios como o de Sabrina Bittencourt, uma das ativistas mais engajadas em denunciar os abusos sexuais de João de Deus, e de Daniel Marques, do movimento negro do Capão Redondo, jogam luz à importância de cuidarmos da saúde mental de quem está na linha de frente.

Organizações como o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFMEA) tentam reavaliar suas práticas e colaborar para que o cenário da saúde mental de ativistas seja positivamente transformado. É o caso do Bem Viver para a Militância Feminista, um manual com metodologias e experiências de autocuidado entre mulheres ativistas.

Para feministas que atuam como militantes, o desgaste emocional é evidente. Por mais que tenhamos conquistado direitos significantes, as oportunidades não reduziram o empobrecimento de mulheres, nem inverteram a lógica da estratificação social em que negras, periféricas e indígenas estão estagnadas na base da pirâmide. Isso nos leva a outro grupo vulnerável dentro das discussões feministas: estamos olhando para a saúde mental das mulheres negras?

“É preciso estar atenta e forte”

Certa vez, uma colega, feminista negra, disse que o termo “mulher forte” era uma sobrecarga. Explicou que, para aquelas que tiveram de ser fortes desde os tempos da escravidão, desde a chegada dos navios tumbeiros, ter de carregar, ainda, a obrigação de parecerem inabaláveis, resistentes, feitas de aço era mais uma pressão. Relembrar a fala, dia desses, me fez pensar em um comentário que li em uma postagem de Stephanie Ribeiro, arquiteta e escritora que muito admiro.

“A pessoa negra precisa provar que é forte o tempo todo, que somos exemplo de ‘força de vontade’ e “guerreiros”. Isso cansa e desumaniza. Não sei se você já reparou, mas pouquíssimas pessoas negras frequentam psicólogos. Primeiro, pelo valor da consulta que não condiz com a realidade da maioria da população. Em segundo, vem esse estereótipo que nos foi criado do negro forte. Somos impenetráveis, fortes como uma rocha, indestrutíveis. Até quando fortaleceremos isso?

 

Segundo levantamento do Ministério da Saúde e da Universidade de Brasília (UnB), a cada dez jovens que se suicidam no Brasil, seis são negros. Recorro aos textos da jornalista Aline Ramos — e ao que aprendo com eles — para que joguemos luz ao impacto do racismo na saúde mental das pessoas negras.

Eu não estou doida e muito menos me vitimizando. Feito entre 2012 e 2016, o levantamento mostrou que a taxa de pessoas brancas com idade entre 10 e 29 anos que tirou a própria vida permaneceu a mesma no período. Já entre jovens e adolescentes negros, o índice subiu de 4,88 mortes para cada 100 mil, em 2012, para 5,88, quatro anos depois. Nós, jovens negros, não só temos mais probabilidades de morrer de forma violenta, mas também temos mais chances de nos matar. Isso até me lembra um verso do Baco na música “Minotauro de Borges“: “Você me mata ou eu te mato primeiro?”

 

O trecho faz parte da newsletter semanal enviada por Aline, em que aborda saúde mental de forma profunda, cheia de dados, referências e pinceladas, quando possível, de leveza.

A verdade é que precisamos, com urgência, desenvolver de maneira consistente, sustentável — e para além dos modismos — o autocuidado. Mais: precisamos, também, olhar para os lados e ajudar aquelas que estão em situação maior de vulnerabilidade. Voltando ao longa Respiro, do começo deste texto, e tentando não exagerar no spoiler, a cena final traz, de forma sutil, uma metáfora bonita demais para aplicarmos entre as nossas: estamos todas unidas — e isso não é um papo hippie. Somos uma rede em expansão em que uma puxa a outra. Por que não seremos livres enquanto outras de nós não forem. “Mesmo que suas algemas sejam muito diferentes das minhas”, dizia Audre Lorde.

 

 

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Gabrielle Estevans
Jornalista, escreve sobre gênero, cultura e política. Também trabalha com pesquisa, planejamento estratégico e projetos com propósito e impacto social.

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