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‘Não era pra ninguém estar aqui’: Rapper dá recado após morte de modelo na SPFW

Tarsila Döhler - 29/04/2019 | Atualizada em - 02/05/2019

Neste final de semana ocorria a 47ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW). Na sexta-feira (26), o modelo Tales Cotta, de 25 anos, sofreu de um mal súbito na passarela, enquanto desfilava para a marca Ocksa. Socorrido às pressas, Tales morreu no hospital.

Esperava-se o cancelamento do SPFW, em respeito à morte do rapaz. O restante do evento, no entanto, aconteceu normalmente, o que gerou indignação.

No desfile da Cavalera, no sábado (27), que encerrou a semana de moda, o cantor Rico Dalasam, que fazia parte do casting da marca, resolveu se manifestar: “Não era pra ninguém estar aqui. O garoto acabou de morrer e vocês estão aqui como se a vida não valesse nada. Não era pra ninguém estar aqui”, protestou o rapper.

Em nota divulgada neste domingo (28), a organização do SPFW se esforçou para justificar o injustificável. Segundo o texto, todos envolvidos no evento optaram por manter a programação após a confirmação do óbito. “A organização se reuniu com as marcas, diretores de desfiles, stylists e modelos que tinham desfiles na programação e foi dada a opção de cancelar os mesmos. Mesmo abalados, todos decidiram manter os desfiles. Foi decidido também pelo minuto de silêncio na abertura de cada um”, explicou.

O SPFW destacou que, ao desmaiar na passarela, Tales “foi prontamente atendido pelos socorristas” e que está prestando assistência à família do modelo: “Lamentamos profundamente a morte de Tales, e mais uma vez prestamos nossas condolências a família”.

As causa da morte não foram esclarecidas. As informações disponíveis caracterizam o caso como um “mal súbito”. De acordo com o Correio Brasiliense, as causas do óbito serão investigadas. Imagens do momento da morte do modelo demonstram que ele não foi imediatamente socorrido. A situação levanta discussões sobre a moda enquanto indústria, que representa a construção de uma imagem que não pode ser abalada de forma alguma.

Causas da morte do modelo serão investigadas

Segundo informações do Modefica, depois que os bombeiros prestaram socorro, as portas da sala do desfile se mantiveram fechadas para que ninguém pudesse sair e para que o evento pudesse recomeçar.

A cobertura da mídia continuou como se nada tivesse acontecido e as marcas seguiram apresentando suas criações. A moda que prosseguiu seu show após a morte de Tales é a mesma que mata trabalhadores em condições análogas à escravidão nas fábricas, que vitima jovens de anorexia no backstage, que cala denúncias de assédio e violência nos bastidores. Tudo em nome da falsa imagem de perfeição.

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Foto: Reprodução/Instagram


Tarsila Döhler
Jornalista, pisciana, apaixonada por brechó, cerveja gelada e livros. Natural do interior, com sonho na cidade grande. Divide a vida entre textos, diagramação, bordados e os 360 dias de espera pelo carnaval.