Matéria Especial Hypeness

OITENTA tiros e a marcha do deboche racista do Brasil

por: Kauê Vieira

A Constituição Federal de 1988 diz que somos todos iguais perante a lei. Vale pra você, desde que não seja negro. Se ainda estiver perdendo tempo relativizando ou se negando em enxergar a vida como ela é, aproveite para pegar um pano e limpar o sangue em suas mãos.

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

A política de extermínio de corpos negros fez mais uma vítima no Brasil. O músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos. Ao lado da família, seguia para o chá de bebê de uma amiga. Por escolha da esposa, que se sentiu mais segura com o patrulhamento na via, optou pela Estrada do Camboatá, no bairro de Guadalupe.

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Evaldo dos Santos Rosa, foi assassinado, morreu no ataque do Exército brasileiro contra um carro. O veículo, você deve saber, por atingido por mais de 80 balas. Os tiros, todos eles, disparados por soldados do exército. Segundo o delegado Leonardo Salgado, que assumiu o caso, tudo indica que os militares fuzilaram um ‘cidadão de bem’ por engano. Eu te disse que ele era negro? Então, você já sabe de onde o tal engano vem. Evaldo dos Santos Rosa foi confundido com bandidos. Que aos olhos do sistema racista do Brasil também são pretos.

80 tiros dados pelo exército contra o carro de uma família negra

“80 tiros por engano? Essa é a necropolítica. População negra vem sendo exterminada historicamente. Uma família indo a um chá de bebê e o carro onde estavam levando 80 tiros. Evaldo dos Santos Rosa, músico, quem dirigia o carro, morreu e seu sogro foi ferido. Os militares não prestaram socorro. Algumas pessoas dizem que todas as vidas importam, se esquecendo daquelas que foram construídas para não importar. Quando afirmamos que vidas negras importam, é disso que estamos falando, refutando essa necropolítica. Crime contra a humanidade”, escreveu Djamila Ribeiro em seu Instagram.

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O conceito de necropolítica, segundo o sociólogo camaronês Achille Mbembe, parte do poder de ditar quem deve viver e quem deve morrer. Ao olhos do escritor, a política de morte se sustenta na dimensão da racialização.

Isso se dá pela ampliação da condição subalterna reservada aos negros. O mundo neoliberal como se sustenta cria “indivíduos descartáveis, favelados, refugiados, imigrantes, toda uma horda de seres matáveis e expostos à morte”.

Na realidade brasileira, o racismo se sustenta como política de Estado. Desde que Gilberto Freyre apresentou a falaciosa teoria da democracia racial, o Brasil encontrou o álibi necessário para dar sequência ao empilhamento de corpos negros.

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“Sempre é essa questão, ‘a gente vai discutir os problemas maiores e depois a gente discute essa questão’, sem entender que não tem problema maior no Brasil hoje do que discutir o racismo, que acaba gerando várias desigualdades. Num País em que a cada 23 minutos um jovem é assassinado, num País em que aumenta em 54% o feminicídio de mulheres negras, o que é a grande questão?”, pergunta Djamila Ribeiro.

O Brasil nunca debateu o racismo. Com o cinismo conveniente de um país que enterra mais de 60 mil pessoas por ano (foram 40 mil negros mortos em 2016), a nação mais preta fora do continente africano segue assistindo impassível o extermínio de homens e mulheres pretas em pleno horário nobre. Nenhum pio.

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‘Era bandido’. ‘Esse mereceu’. ‘Tava fazendo o que ali?’. ‘Devia ter parado o carro’. São algumas das falas proferidas por uma sociedade racista e bem treinada pelos herdeiros dos senhores de engenho.

Afinal, quem tem medo de debater a desigualdade racial no Brasil?  Não é por nada, mas enquanto homem negro com 2,5 mais chances de morrer do que um branco, gostaria de saber.

“Só existe racismo porque tem gente que pratica a discriminação racial e gente que é conivente com essa prática porque acredita que os povos ladrões de outros povos são congenitamente superiores. E porque há os praticantes de racismo e aqueles que fazem de conta que não têm nada com isso?”, reflete o escritor Cuti no artigo Quem tem medo da palavra negro.

Qual é da fixação da bala com peles negras?

“O racismo é uma problemática branca”. Ouvi da boca da escritora Grada Kilomba e nunca me esqueci. A artista portuguesa com origens nas ilhas de São Tomé e Príncipe e Angola ressalta a ausência de humanidade presente no racismo. Para ela, que nasceu em Lisboa, é preciso que pessoas brancas entendam que a discriminação não nasce na diferença. A diferença é que surge a partir da discriminação. Mais, é urgente que pessoas brancas se levantem, de fato, contra o racismo.

“É uma pergunta interessante. O racismo é muito complexo, lida com uma série de alienações e uma das alienações é exatamente a de que eu, enquanto pessoa e mulher negra, posso ter meu dia a dia interrompido e ser forçada a lidar com uma questão que não me pertence a princípio. Sou forçada a lidar com uma série de fantasias e de fantasmas que não são os meus. O racismo nos usa como depósito de algo que a sociedade branca não quer ser. Algo que é projetado em mim e eu sou forçada neste mise en scene, nesta encenação, a ser a protagonista de um papel que não é meu e com o qual eu não me identifico,” explicou durante conversa com este repórter em Salvador.

Trocando em miúdos, a noção escravocrata mora no assassinato brutal de Evaldo dos Santos Rosa, morto com 80 tiros, nos mais de 100 disparos de policiais militares contra jovens negros dentro de um carro. A negra Cláudia Ferreira, morta arrastada por viatura conduzida por PMs, Marielle Franco, assassinada por milicianos no centro do Rio ou em você, negra ou negro, quem não se sente à vontade nem dentro de casa.  

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Desumanização e extermínio de corpos negros é política de Estado

A já citada desumanização do objeto de violência é compartilhada pela filósofa alemã Hannah Arendt. O entrelace da anulação da humanidade com violência é refletido na violência praticada no Brasil, nos crimes (sem culpados julgados) citados acima, mas também na naturalização da morte disseminada pelos programas policialescos todos os dias.

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Tal como na escravidão, onde a população se reunia em praças para assistir negros sendo castigados e mortos em Pelourinhos, o passatempo da sociedade moderna é acompanhar corpos, parafraseando Gil e Caetano “pretos ou quase pretos de tão pobres”, sendo perseguidos ou mortos. Tá Childish Gambino, this is not America (isso não é a América), mas é Brasil.

E a desumanização se envereda por um caminho estratégico, o da invisibilização. Não é um homem ou uma mulher com história, passado e sonhos, mas um bandido, um assaltante, ladrão ou um negro, como consideraram (e ainda consideram) os cidadãos de bem membros da Ku Klux Klan, antes de saírem caçando afro-americanos.

“O racismo é uma problemática branca”, Grada Kilomba

“Essas relações são marcadas por diversos sistemas de opressões como machismo, racismo, lgbttfobia e ou preconceito de classe. Todas são geradoras de sofrimento, que acaba sendo intensificado quando estudantes se deparam com dificuldades comuns na  leitura e produção textual, porque a vivência dessa dificuldade somada à vivência do preconceito, pode levar ao entendimento de que aquele não é o seu lugar, conforme o mito da meritocracia”, explica ao Hypeness a psicóloga Ivani Oliveira.

O racismo é um sistema meticulosamente preparado para dar certo. A mudança só vai acontecer quando a sociedade entender, de uma vez por todas, que vidas negras importam. Do contrário, leia novamente, porque você não compreendeu nada.

Inciso 47 da Constituição Federal diz que não haverá pena de morte, “salvo em caso de guerra declarada”. O Código Penal Militar, de 1969, atesta que a pena de morte “deve ser executada por fuzilamento”.

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Fotos: foto 1: Reprodução/foto 2: Reprodução/foto 3: Ribs/Reprodução/Instagram/foto 4: Aline Valek/foto 5: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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