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Premiado em Cannes, drama indígena ‘Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos’ é o Brasil que desconhecemos

por: Janaina Pereira

“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de João Salaviza e Renée Nader Messora, fez sua estreia mundial no Festival de Cannes do ano passado. De lá o filme saiu com o Prêmio Especial do Júri da mostra Un Certain Regard, a segunda mais importante do tradicional evento francês. Desde então, a história do índio Ihjãc, jovem da etnia Krahô que mora na aldeia Pedra Branca, em Tocantins, ganhou o mundo.

Ihjãc, que é casado e tem um filho pequeno, foge para a cidade após a morte de seu pai, rejeitando a ideia de se tornar um xamã. Longe de seu povo e da sua cultura, ele enfrenta as dificuldades de ser um indígena no Brasil. Totalmente falado na língua dos krahô, e filmado ao longo de nove meses, “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” já participou de mais de 50 festivais internacionais e conquistou 11 prêmios. O longa estreou neste mês nos cinemas brasileiros, para celebrar o Dia do Índio.

Existe uma história por trás dessa história: a cineasta brasileira Renée Nader Messora convive com a aldeia Pedra Branca desde 2009. Inicialmente, Renée participava de um projeto que usa o cinema para tentar ajudar a comunidade, usando a sétima arte como instrumento para a autodeterminação e o fortalecimento da identidade cultural. O projeto tomou outras formas, entre elas o coletivo de cinegrafistas indígenas Mentuwajê Guardiões da Cultura, e ganhou a adesão do cineasta português João Salaviza a partir de 2014.

“Nessa época vivenciamos de perto que um menino da aldeia, que era muito meu amigo, estava em um processo semelhante ao do personagem Ihjãc. Ele fugiu da aldeia e ficou um ano longe. Foi a partir daí que escrevemos o roteiro. Durante os nove meses de filmagem muita coisa aconteceu, e isso foi sendo incorporado na narrativa”, conta Renée que, junto com Salaviza, concedeu uma entrevista exclusiva ao Hypeness.

A cineasta, que estreia na direção com o longa, explica que um dos integrantes da equipe de filmagem é o antropólogo Vitor Aratanha, casado com uma índia da aldeia e que fez o som direto do filme. Como ele fala a língua da comunidade, se tornou o intermediador entre os diretores e os índios.

“Acho que filmar em uma língua que a gente não conhece traz uma coisa incrível, que é colocar a hierarquia do filme no mesmo nível. Porque quando você é o diretor, todos ao redor fazem o que você imagina, transformando a sua ideia em imagens, do jeito que você quer. Mas, quando você não fala a língua, essa confiança tem que ser mútua. Eles [os índios] não tinham a noção total do que íamos fazer com as imagens, mas nós também não sabíamos o que eles estavam falando”, ressalta a diretora, acrescentando que, ao longo dos nove meses, eles iam organizando as imagens para ver o caminho em que o filme estava tomando.

É justamente quando o jovem Ihjãc chega à cidade que ele precisa falar português, e assim começa a abordagem sobre o choque cultural entre o índio e o Brasil contemporâneo. Para João Salaviza, que faz com “Chuva” seu segundo longa – ele estreou em 2015 com o elogiado “Montanha” – esse é o momento em que o filme ganha um outro ritmo. “Ali vemos tudo que a língua representa. O Ihjãc passa a ser questionado sobre qual é seu nome branco, e onde estão seus documentos. Isso mostra um contraste claro. A questão do choque linguístico existe, e testemunhamos todos os dias na aldeia, por isso queríamos que ficasse bem marcante”.

Ao longo da história do Brasil, os índios perderam suas terras e sua identidade. Ainda que algumas aldeias, como a Pedra Branca, resistam (são 500 pessoas vivendo no local), a forma como o homem impõe que os indígenas sejam algo que não são ainda persiste em nossa sociedade. Esse é um dos pontos fortes de “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”.

“A ideia de integração do indígena nunca foi pensada em como eles podem encarar isso. Acho que essa integração tem que ser a partir da perspectiva dos índios. De repente colocaram dentro da aldeia um posto de saúde. Tudo bem, mas quando o indígena vai para o hospital, ele quer que o pajé esteja com ele neste momento também. Então porque as coisas não são pensadas dessa forma? Que os índios possam se apropriar do que serve, mas a partir do que eles conhecem, do que eles sabem que funciona. Na aldeia tem uma escola onde os índios aprendem inglês, mas para quê, se mal sabem falar o português?”, questiona Renée.

A cineasta vê com preocupação a intenção do governo Jair Bolsonaro em transformar os indígenas em cidadãos brasileiros, para que possam ter o direito de vender ou alugar suas terras. A cineasta alerta que isso é uma forma de se apropriar dessas terras, fazendo com que os índios se tornem parte da população mais pobre do país. Por tudo isso, ela acredita que “Chuva” estreia em um momento muito delicado.

“Nunca imaginei que fossemos estrear em uma época tão bizarra. Mas, por outro lado, acho que pode trazer alguma coisa boa, ampliando esse Brasil, porque não somos só o eixo Rio-São Paulo. A cegueira que as pessoas na cidade têm desse Brasil mais profundo traz consequências perigosas, principalmente para esses povos que estão onde o braço do Estado não chega. Porque eles não têm ferramentas para enfrentar evangélicos, agronegócios e fazendeiros que estão ali só esperando para dar uma facada. Acredito que nem todo mundo que votou no Bolsonaro não se preocupa com a natureza e com a biodiversidade que existe no Brasil. Acho que “Chuva” chega nesse momento para ampliar o debate, para falar do assunto nas escolas e universidades. Talvez alguma coisa boa saía daí”.

Já Salaviza acredita que o filme estreia ao mesmo tempo em que o Brasil está não só em uma disputa de ideias, mas de enfrentamento de forças. “Chuva pode participar dessa gigantesca rede de alianças da interseccionalidade que está acontecendo no país. Os movimentos sociais do Brasil estão 20 anos à frente da Europa. Então já se sabe que o problema de um negro na favela do Rio de Janeiro é o mesmo de um transexual assassinado na Avenida Paulista e também é o mesmo de um índio Krahô. Essa interseccionalidade  é o que pode gerar no futuro, não sei se próximo ou distante, novas instituições. Porque não dá mais para pensar só em sindicato e em operário que luta por 5% de aumento do salário. Isso já passou, temos outras coisas agora”, conclui.

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Janaina Pereira
Jornalista e publicitária. Especializada em cultura - principalmente cinema - e gastronomia. Desde 2009 cobre os principais festivais da sétima arte, como Veneza, Cannes, San Sebastian, Berlim, Rio e Mostra Internacional de São Paulo. Participou dos livros "Negritude, Cinema e Educação" (escrevendo sobre o filme "Preciosa", de Lee Daniels) e "Guia de Restaurantes Italianos" (escrevendo sobre 45 restaurantes ítalo-brasileiros de São Paulo).

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