Roteiro Hypeness

Tarsila do Amaral e Lina Bo Bardi dão sequência à série de exposições feministas no Masp

por: Gabriela Rassy

Quem for hoje no Masp tem a oportunidade maravilhosa de ver os espaços expositivos ocupados por mulheres. O eixo temático do ano, “Histórias das mulheres, histórias feministas” já apresentou a artista Djanira da Motta e Silva, que contamos tudo para vocês por aqui, e agora traz mais duas grandes representantes mulheres da arte e da arquitetura nacional. “Tarsila Popular” e “Lina Bo Bardi: Habitat” chegam ao museu mostrando a força dos trabalhos femininos – e, claro, feministas.

O eixo temático e a valorização do trabalho das mulheres é de fato um dos temas mais importantes para tratarmos atualmente. Aparte do feminicídio e da violência contra a mulher que está ainda longe do fim, dar destaque aos trabalhos feitos pelas mãos delas trata de educação.

Como bem pontuou o coletivo estadounidense Guerrilla Girls, em 2016, no ano de “Histórias das Sexualidades”, as mulheres precisam estar nuas para entrar nos museus. A presença das artistas mulheres na história da arte e nos museus e galerias se limitou por muitos anos às “musas”. Expor os trabalhos de importantes nomes e dar visibilidade a elas estimula que esse lugar siga sendo ocupado por novas mulheres.

 

‘Tarsila Popular’

Tarsila do Amaral (1886-1973) é uma das maiores artistas brasileiras do século 20 e figura central do modernismo. Seu nome ainda move multidões, como podemos ver com a abertura de sua exposição no Masp. Tanto a vernissage quanto a primeira terça gratuita estavam lotadas. Fui em um dia mais tranquilo, pela manhã, e mesmo assim a fila já se esticava pelo vão do Masp. Famílias, turistas e apaixonados pelas artes circulavam atentos pelo espaço que abriga hoje a mais ampla exposição já dedicada à artista.

Ali, 92 obras – sendo 52 pinturas e 40 desenhos – apresentam novas perspectivas e leituras com o enfoque “popular” de Tarsila. Ainda que nascida em uma família de fazendeiros endinheirados do interior de São Paulo, Tarsila desenvolveu um  trabalho conectado com debates sobre uma arte ou identidade nacional e a invenção ou construção de uma brasilidade.

O famoso “Abaporu”, de 1928, volta ao Brasil depois de alguns anos de vivência no acervo do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. Mas sugiro uma atenção especial ao quadro “Antropofagia”, que integra a coleção da Pinacoteca de São Paulo. O quadro une a figura do “Abaporu” com “A Negra”, outra conhecida obra da artista, em uma nova imagem.

Carregada de crítica social, vale olhar atentamente a obra “Segunda Classe”, na qual um grupo de pessoas magras e exaustas aparecem bem próximas, como uma família, em frente à um vagão de trem. Tarsila retrata ali os migrantes que, na década de 1930, deixavam a parte rural do nordeste fugindo de uma seca que assolava a região – e da falta de auxílio dos governantes. Das poucas imagens que fogem do otimismo e das cores quentes comuns à artista.

A tela “Operários” aparece também como crítica e como marco na carreira de Tarsila. A obra foi pintada depois de uma temporada na união soviética, onde era comum a representação dos rostos dos trabalhadores. Na volta ao Brasil, a artista seguiu com ideais ligados ao socialismo e retrata o povo trabalhador oprimido pelas elites na Era Vargas.

‘Lina Bo Bardi: Habitat’

A passagem pelo Masp vale ainda para os amantes da arquitetura e do design com a mostra panorâmica da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914–1992). Você deve se lembrar dela por obras icônicas, como o prédio do Sesc Pompeia e o Teatro Oficina, ambos em São Paulo, e o Museu de Arte Moderna de Salvador. Mas a artista reserva ainda lugares mágicos a serem descobertos.

“Lina Bo Bardi: Habitat” é organizada em três momentos: O habitat de Lina, Repensando o museu e Da Casa de Vidro à cabana. Desenhos e imagens mostram o legado da artista, começando por sua obra com o Masp. O prédio de Niemeyer foi reformado com base na linguagem única que Bo Bardi aplicou no Brasil, de um modernismo adaptado às condições do país.

Um dos momentos fundamentais da carreira da arquiteta foi a ida a Salvador e toda a experiência desenvolvida nos espaços culturais da cidade. A Casa do Benin, o Teatro Castro Alves e o Teatro Gregorio Mattos, além do MAM, atraem hoje muitos turistas interessados no trabalho de Lina.

Fiquei com vontade de conhecer a Casa de Vidro, em São Paulo, seu primeiro projeto no Brasil. O espaço, que hoje é tombado e abriga o Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, foi residência do casal por mais de 40 anos. A fachada imponente de vidro que parece flutuar sobre pilares está preservada como local de pesquisa e promoção da arquitetura, design, urbanismo e arte popular.

A exposição reserva ainda espaço para mobiliário característico de Lina: as cadeiras. Desde o relativamente incômodo acento do Sesc Pompeia até a superconfortável Cadeira Bowl, passando pela cenográfica Cadeira de Bola de Latão. Esta última data 1951, mesma idade da Casa de Vidro.

Ano feminista

 Com esse combo de três mulheres absolutamente diferentes e inspiradoras, a visita ao Masp se faz mais uma vez necessária. Além de Djanira, Tarsila e Lina Bo Bardi, o Masp ainda deve receber neste ano as obras de Anna Bella Geiger, Leonor Antunes, Gego e uma mostra coletiva internacional que levará o título do eixo temático. Para ir, levar as crianças e estimular que tenhamos muitas Tarsilas e Linas num futuro próximo.

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Fotos: Divulgação e Gabriela Rassy


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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