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Voodoohop celebra 10 anos na cachoeira e te contamos por que o evento merece mais 10 anos

por: Gabriela Rassy

Era fevereiro de 2018 quando uma grande amiga me convidou para ir a Heliodora, em Minas Gerais, curtir e conhecer o festival da Voodoohop. O coletivo que revolucionou a noite paulistana 10 anos atrás ocupa, uma fez ao ano, a Cachoeira do Pedrão (de pedra grande estranhamente no masculino, não de Pedro) na pequena cidade mineira. Ali construíram uma parte da história movimenta, até hoje, nossa cena cultural.

Criada por francesa Laurence Trille e o pelo alemão Thomas Haferlach, e somada a um grupo potente de artistas, DJs e performers, a Voodoohop abriu espaço para que as mais diversas pessoas tivessem um lugar livre para dançar. Quebrando o estereótipo elitista que as festas de São Paulo tinham até 2009, o coletivo levou – e elevou para os padrões que tínhamos por aqui – as festas eletrônicas para a rua, com luzes, cores e performances.

Não lembro ao certo a primeira vez que fui numa Voodoo – com o tempo só fica o nome carinhoso -, mas lembro a primeira vez que me impactou. Depois de uma temporada fora de São Paulo, voltei e acabei no centro, em frente à Trackers. Fazia um frio terrível, mas ainda sim uma pequena multidão estava na rua, curtindo a festa que acontecia virada para fora do prédio, com projeções, performances na varanda e DJs. Ainda não sendo a maior fã de música eletrônica, aquilo era tudo diferente do que rolava nas festas em clubes fechados. Paixão à primeira vista.

Ainda lembro também, lá em 2012 da edição “Descendo as escadas da Babilônia”. No texto do evento vinha um convite no mínimo psicodélico: “Se perca no tríptico dum submundo prazenteiro e fantásticos! Levite em brancas nuvens, desinibe seus sentidos, experimente os prazeres da carne e entre num labirinto de voluptuosidade. Uma noite de perdição antes das eleições… e se existisse uma saída do Inferno?”. Com 3 pistas em lugares diferentes do centro, na região do Estadão, circulávamos em grupo perambule entre céu, purgatório e inferno. Ouvimos por ali um time pesadissímo com Márcio Vermelho, Rodrigo Bento, Carlos Capslock, Pilantröpóv Pausãnias, além dos criadores Laurence, como a Macaca, e Thomash.

Virada Cultural mistura algumas das melhores festas de São Paulo com shows que a gente ama

Da Voodoohop surgiram muitos braços que hoje são algumas das melhores festas da cidade. Mamba Negra, Capslock, Calefação Tropicaos e uma infinidade de coletivos vieram deste encontro e floreceram como novas possibilidades para a cena já mais aberta ao novo. Em 2015 os criadores da Voodoo seguiram para cantos diferentes, o álbum Entropia Coletiva foi lançado e uma nova fase de produção começou. O que segue unindo e nos dando aquela experiência de anos atrás de volta é o encontro na cachoeira.

“Vocês vão na festa dos pelados?”

Assim fomos questionados na chegada à Heliodora, quando perguntávamos pela direção para a cachoeira do Pedrão. “Isso mesmo”, respondi sem dúvida lembrando das fotos lindas dos amigos sem roupa, cobertos de argila, posando na queda d’água. Muitos encontros e reencontros, num misto de alegria e nostalgia rolaram naqueles dias.

Mas por que Heliodora? A pequena vila ao sul de Minas Gerais tem em sua história o fator de ser agregadora e respeitosa com as diferenças. O nome foi dado depois que a população local recebeu a poetisa Barbara Heliodora, conhecida como a “Heroína da Inconfidência Mineira”. A matriarca foi a primeira mulher a participar de um movimento político no Brasil, ainda no século 18. O lugar também foi refúgio para hippies e pessoas insatisfeitas com a ditadura militar, como conta o evento de 10 anos da Voodoo.

Ainda não frequento a cena eletrônica, mas aqueles 4 dias entre cachoeira e pista abriram mais uma vez a minha mente e a dos que estavam lá. Não tem nada de rave ali – ou pelo menos a ideia que se tem de rave. É uma experiência completa de conexão entre natureza e música. Os espaços são ocupados com respeito e o som feito com qualidade.

Como não se apaixonar mergulhando em uma piscina de água natural da cachoeira, com artistas circulando com bambolês, DJs tocando ao vivo em um quiosque tomado por trepadeiras. Parece de mentira. Ou ainda deitar na cúpula da Geodésica, montada em meio à mata, e se deixar levar pela mistura de sons da natureza com as criações live dos DJs. Subir na casa da árvore para mais uma leva de apresentações em um cenário de luzes e bonecos característicos da festa. Os dias foram tão lindos e intensos que só ficou o desejo de voltar.

10 anos e a volta para a cachoeira

Neste 2019, os artistas que hoje moram espalhados pela Europa, Chapada Diamantina e São Paulo, voltaram a se reunir para o festival. O evento “Voodoohop 10 Anos Na Cachoeira” prova que, independente do tempo e da distância, o coletivo não perde uma chance de festejar. “Sempre foi claro que a maior razão era a própria festa: os encontros que acontecem nela e as descobertas e experiências que cada pessoa leva ou recebe”, escreveram no texto que convidada para mais uma edição na Cachoeira do Pedrão.

A grande maioria das pessoas acampa no próprio terreno onde rola a festa, lugar equipado com banheiros químicos e ecológicos, chuveiros e uma área de alimentação. Fui de camping mesmo que, vai por mim, é a melhor opção. Com ou sem chuva, é o lugar mais próximo da festa, diferente das casas que ficam há pelo menos 30 min de caminhada.

Não fiz muito roteiro, mas pedi valiosas dicas para o músico e DJ Ricardo Vincenzo. Ele, que é também um colecionador de beats, samples e timbres, organiza dentro e fora da Voodoohop a Roda de Sample. Ali rolam experimentos ao vivo com computadores, sintetizadores e instrumentos musicais. Uma viagem pelos sons orgânicos e referências dos artistas que participam a cada edição. A pesquisa de Vincenzo, para a minha alegria, abocanha batidas africanas, funk carioca e até latinidades deliciosas. Um live set para quem quer sair da caixinha colocar no radar.

Na programação, a sequência Hystereofônica fez da noite de sábado uma grande descoberta. Começando com a apresentação de Saskia, que você pode/deve procurar por Sal na Salada. O que começou com um grupo de 30 pessoas sentadas na casa da árvore, assistindo calmamente, virou uma pistona fervidíssima em pouco tempo. Pudera. Ela canta, discoteca, remixa, monta beats, faz samples, tudo intensamente. Impossível ouvir-la parada. Vai do experimental eletrônico ao trap, passando pelo indie e pelo funk. Pontente, entregue e empoderada, ainda vamos ouvir muito falar dela.

Entra então uma união entre a Cigarra, Raiany e Alma Linda levaram as mão de todo mundo para o ar e uma pista que se abraçava ouvindo “Love Is In The Air”. Que momento! Depois uma pausa de poucos minutos na programação para os fogos que celebravam os 10 anos do coletivo. Artistas de circo completavam a homenagem com malabares e bambolês de fogo. A celebração seguiu noite adentro com set todo bagaceiro da dupla Vovó Hop, formada por Pilas e Nei, indo de MC Loma ao funk da Betina. Bundas iam ao chão sem limites. Vincenzo completou a sequencia poderosa com sua pesquisa de batidões. Haja pélvis!

Teve ainda boas doses de brasilidades picocando pelo festival. O Bloco Me empana que eu frito veio diretamente do Rio com um cortejo especial para a cachoeira. Já o DJ Rodrigo Bento, do coletivo Pilantragi, mostrou que dá para ir do rock ao reggae em um set mais do que diverso.

Marca registrada das festas na cachu, o VJ Suave fez suas projeções de good vibes nas pedras e na água. Onças, unicórnios e pássaros voavam acompanhados de um som leve e relaxante. Mensagens de amor e respeito fechavam a apresentação que rolou em dois dos dias do evento. As projeções do Labluxz_ ocuparam mais uma vez a piscina em uma brisa visual que compunha com o som vindo do quiosque. Outra performance que acontece a cada ano é o banho de lama, proposta de happening coletivo do artista Hugo Perucci.

Muitas boas ondas, muitos banhos nas águas frias, muito sol e som. A Voodoohop não é uma festa. É um mundo paralelo para onde cada ano quero voltar. É não deixar a conexão com a natureza morrer, é abrir a cabeça e os ouvidos para o novo. É existir e resistir. Que venham mais 10 anos!

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Foto fogos: Marcelo Paixão
Fotos: Gabriela Rassy


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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