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25 anos depois de Mandela, África do Sul aposta no turismo e diversidade para crescer

por: Kauê Vieira

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A África do Sul tomou a dianteira do debate imigratório. Esqueça políticas reacionárias, muros e fronteiras fechadas, a nação arco-íris, como bem ensinou Nelson Mandela, enxerga o fomento ao turismo como oportunidade de crescimento e protagonismo.

Fluxos migratórios que muito interessam ao Brasil. Em tempos de revisões históricas e uma nova interpretação sobre o ser negro e os reflexos da escravidão deste lado do Oceano Atlântico, estreitar relações com um dos países mais ricos e importantes do continente africano é fundamental para a escrita de novos capítulos.

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Conversamos com exclusividade com o ministro do Turismo da África do Sul

Além de conferir todas as novidades da maior feira de turismo do continente negro, o INDABA, conversamos com exclusividade com o ministro do Turismo, Derek Hanekom, sobre medidas consistentes de entrelaçamento entre turismo e diversidade racial.   

“Estamos lidando com um legado pós-apartheid, que se não tomarmos cuidado, beneficiará apenas os privilegiados. Nos últimos cinco anos, criamos medidas para incentivar a entrada de novos rostos no setor de turismo e ajudar o crescimento de negócios”, declarou Danek Hanekom, ministro do Turismo sul-africano, em entrevista exclusiva ao Hypeness em Durban.  

A empolgação do ministro deu o tom dos três dias de evento. A África do Sul vive um momento especial. São avanços substanciais, como o sinal verde para o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o amadurecimento do debate sobre a legalização da maconha, a consolidação como um dos principais centros produtores de vinho e a dispensa de visto para entrada de turistas, exemplos do multiculturalismo de um país banhado pelos oceanos Atlântico e Índico. Ô sorte!

Durban, sede do INDABA 2019, é uma das cidades mais diversas do mundo

Lá se foram 25 anos desde da inesquecível eleição de Madiba como primeiro presidente negro da história de uma nação marcada pela violência e segregação racial. Quase 30 anos preso por lutar pela emancipação de negras e negros, Mandela deu o pontapé inicial na reconciliação de um país com 11 línguas oficiais.

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“Um dos seus [Mandela] diferenciais era a transparência e humildade. Você tem esse homem incrível ao seu lado e ele é tão humilde. Ele faz com que você se sinta especial. E se ele era grande antes de você se encontrar, acredite, ele é muito maior pessoalmente. Era esse o efeito que ele tinha nas pessoas”, reflete Derek.

Novas gerações aplicam agora os conceitos disseminados por Nelson e Winnie Mandela, Desmond Tutu, Steve Biko, Oliver Tambo, entre tantas outras figuras emblemáticas para a existência, de fato, da nação arco-íris.

25 anos após a eleição de Mandela, a África do Sul abraça a diversidade

“Como país, posso dizer, temos muita sorte de ter tido uma pessoa como Nelson Mandela. E outros, devo salientar. Era uma geração de pessoas notáveis como Oliver Tambo, pessoas maduras, líderes que conseguiram nos auxiliar no que poderia ser uma transição muito mais difícil do apartheid para o período pós-apartheid”, salienta Hanekom, que foi amigo pessoal de Mandela e membro do Congresso Nacional Africano.  

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O tom otimista se misturou com o ar dos corredores do ICC, moderno centro de convenções em Durban, sede da edição 2019 do INDABA.  Pudera, já que a África registrou crescimento de 7% no número de visitantes em 2017. Diga-se, acima da média mundial de 6%.

Precisamos de números positivos, afinal um dos grandes desafios da África do Sul é o desemprego. Turismo que cresce, gera empregos. Então, o alvo recente e anunciado pelo presidente é atrair 21 milhões de turistas até 2030. O dobro do que temos agora. É um desafio, mas a estimativa é de criar ao menos 2 milhões de vagas de emprego diretas ou indiretas. Muito importante para nós, ressalta Derek.  

Mesmo com o fim do apartheid, tensões raciais estão presentes

A África está se transformando aos olhos do mundo.  Em 2018, o continente recebeu 67 milhões de turistas, crescimento de 14 milhões em comparação com 2017 e a África do Sul é um dos destinos mais procurados entre viajantes. Derek Hanekom reconhece os avanços e cita a Etiópia como exemplo.

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“A Etiópia foi a economia que mais se beneficiou com o turismo, acumulando crescimento de nada menos do que 48% em 2018. O avanço extraordinário se deu, sobretudo, pelo estabelecimento da país como um hub de transporte”, salientou.

A África do Sul, porém, quer mais. Dono de um clima agradável e muito parecido com o do Brasil, o país luta pelos holofotes para além dos safaris. Nada contra, mas assim como a África não é um país, suas 54 nações não podem se restringir apenas ao campo de belezas naturais e passeios nas savanas.

Estamos falando de 25% do PIB do continente africano concentrando em um único país. Ou seja, além da biodiversidade, a África do Sul atende aos anseios gastronômicos e culturais de qualquer viajante. No caso dos brasileiros a experiência é ainda maior.

Safári? Sim, mas a África do Sul pode oferecer muito mais

O Brasil responde pela maior população de negras e negros fora do continente africano. O país da América do Sul perde apenas para a Nigéria. Trocando em miúdos, a vivência de um afro-brasileiro nas ruas de Joanesburgo ou Durban tem tudo para ficar gravada na memória. Diáspora.

Dinky Malikane é diretora nas Américas da South African Tourism e em entrevista ao Hypeness durante o INDABA, ela ressaltou a busca por parte do departamento de turismo para atrair e viabilizar o trânsito de viajantes negros brasileiros.

“Tatiana Isler [há 15 anos representando a África do Sul no Brasil], em particular, colocou o enfoque nos negros brasileiros. E começou, na verdade, no ano passado na celebração do centenário de Nelson Mandela. Então, todas as ativações que fizemos no Brasil esteve centrada em Madiba e seu legado. Obviamente, isso diz ‘venha para a África do Sul. Esse é o berço do maior líder do mundo’.Veja o que Madiba significa”, assinala.

Siki Jo-An, estrela do The Voice, em show no The Chairman, em Durban

A sul-africana de Joanesburgo reafirma a intenção de consolidar o país como um destino de multiplicidade racial, respeito e apreciação aos direitos humanos e liberdade de gênero.

Neste ano, obviamente, temos a celebração dos 25 anos de democracia e tudo que cerca os direitos humanos e diversidade. Estamos atentos na promoção do turismo para gays e lésbicas. A diversidade é muito importante para nós. Então, estamos dizendo, olhem para a constituição da África do Sul e tudo o que a cerca diz: a África do Sul está aberta para todo mundo.  

De acordo com dados oficiais, em 2018 a África do Sul teve crescimento de 10% na quantidade de turistas vindos do Brasil. Foram 70 mil em 2017. Dinky Malikane sublinha a força do real diante do rand – moeda oficial sul-africana – além do estabelecimento de voos diários diretos ligando os dois pontos.

“O time tem sido incrível na promoção da África do Sul para todo mundo. Temos agora a Latam, que voa direto, com pacotes incríveis. É importante dizer, você pode vir qualquer época do ano. Somos atrativos em termos financeiros, o real, você sabe, é quase quatro vezes mais forte que o Rand”.

O turismo no continente africano cresceu 7% em três anos seguidos

Dinky valoriza ainda as relações Sul-Sul e aponta similaridades climáticas entre Brasil e África do Sul.

“Temos um estilo de vida atraente, com ótimos vinhos. Eu sei que vocês no Brasil têm praias incríveis, no entanto, temos praias tão lindas quanto por aqui. Então, a África do Sul pode oferecer tudo. Não importa o que você esteja procurando, você pode encontrar na África do Sul por preços atraentes”, finaliza.

Falando nisso, a África do Sul integra o BRICS ao lado da Rússia, China, Índia e Brasil. O acordo de cooperação entre os países beneficia turistas brasileiros, que não precisam de visto para entrar no aeroporto internacional Oliver Tambo, em Joanesburgo.

Mesmo em termos de distância, paira uma percepção de que estamos longe. Mas, você consegue chegar depois de pouco mais de 7 horas, dependendo do voo. Que é direto. O jetlag não é nada para se estressar. Temos um clima parecido. A partir de um ponto de vista diplomático, estamos perto. Sul-africanos podem visitar o Brasil e permanecer por 90 dias sem um visto. O mesmo para os brasileiros. A relação diplomática é cordial, porque muitas trocas acontecem em termos comerciais e financeiros entre os dois países. As relações sul-sul são muito importantes. Nossas economias se comportam de formas parecidas. Nós, moradores do hemisfério sul, temos muitas coisas em comum. Resumindo, as relações diplomáticas vão muito bem, Dinky Malikane

Diáspora negra

Desembarcar em um país africano para uma pessoa negra é especial. Durante séculos foi construída uma falsa imagem de democracia racial no Brasil, que acabou deixando o país distante de África. Os efeitos são diversos, paira um desconhecimento sobre as particularidades e diferenças entre países. A África do Sul, por exemplo, está no Hemisfério Sul e tem temperaturas ligeiramente mais baixas que o Brasil.

Mas, como nossos passos vêm de longe e como já dizia Mandela, “a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. O cenário está mudando. Seja por ações destacadas por Dinky ou pelo trabalho de pessoas como a turismóloga Thainá Santos.

A paulistana de 22 anos trabalha pela democratização e enegrecimento dos aeroportos. Mulher negra e viajante solo, ela falou sobre o assunto durante palestra realizada no INDABA. “Ainda somos invisibilizados e raramente somos vistos aproveitando atrações e nos divertindo”.

Thainá é formada pela Universidade de São Paulo e acredita que o negro é mal representado quando o assunto é turismo. Fator, aliás, ligado diretamente na promoção do turismo para a África do Sul. Você já parou para pensar na construção imagética do continente africano? Quando se fala em África você pensa primeiro em violência ou inovação? Fome ou gastronomia? Bingo!

Thainá, em Soweto, diz que negros são mal representados no turismo

A constatação está diretamente ligada ao inócuo debate racial do Brasil. Ora, um país que não se reconhece negro não tem condições de manter relações com o continente de origem de grande parte dos ancestrais de seu povo. Thainá provou a teoria em números. Em conversa com cerca de 150 pessoas, por volta de 47% viveram ou presenciaram situações de racismo durante viagens.  

“Não é apenas sobre representatividade. É sobre como nos sentimos acolhidos como pessoas. Pessoas negras querem se sentir em casa”, encerra.

Recentemente, o Hypeness conversou com Sauanne Bispo. A soteropolitana é dona da Go Diáspora, agência de turismo afrocentrada e que como o nome já diz, pretende promover o turismo de jovens negros brasileiros para o continente africano.

“A Go Diáspora está aberta para todos os públicos, mas aquele público negro que percebemos que viaja menos, quando puder viajar, eu não quero que tenha uma experiência como eu tive na Rússia. Quero propor uma imersão entre cultura e história.  O que tem se tornado cada vez mais forte nos estudos aqui, que é a história africana”, enfatiza a empresária que já esteve 11 vezes na África do Sul. 

Dinky Malikane considera o fim dos estereótipos e o incentivo ao turismo livre como aliados importantes. A gerente da South African Tourism nas Américas defende a diversidade e interação com as pessoas.

Podemos sempre melhorar. Para as pessoas que vem para a África do Sul pela primeira vez, é claro que buscam explorar reservas, ver a vida selvagem. Eles querem, claro ir para Cape Town, todo mundo quer ir pra lá. Isso é incrível. Sempre digo, no seu tempo de visita, encontre tempo para conhecer outros lugares. A África do Sul não é só sobre o Kruger National Park e Cape Town. Nós temos programas excitantes acontecendo nos arredores de Joanesburgo, temos coisas incríveis onde estamos hoje, em Durban. Então, nós queremos interagir com as pessoas. Interaja, vá aos restaurantes locais, se envolva com atividades como alpinismo, ciclismo. Experiencie tudo que a África do Sul pode oferecer a preços acessíveis.

O ministro Derek Hanekom, por sua vez, destaca os esforços para tornar o turismo democrático e seguro, sobretudo para mulheres.

“Temos um desafio (como no Brasil) de deixarmos de ser patriarcais e precisamos de políticas fortes de prevenção. Assim como a ANC, queremos uma sociedade livre do racismo e machismo. Somos um dos primeiros países no mundo a permitir casamento de pessoas do mesmo sexo. E nos orgulhamos disso. Na maioria dos lugares, eu devo dizer, incluindo os mais turísticos, mulheres que viajam sozinhas para a África do Sul se sentem mais seguras do que em outros países no mundo.”

A Organização Mundial do Turismo prevê que até 2030 1.8 bilhões de pessoas vão viajar pelo mundo e continente africano deve receber 126 milhões de voos, o dobro de hoje. Já planejou o próximo roteiro?

Que tal deixar Mickey e companhia limitada de lado por um momento e embarcar para uma experiência gastronômica, cultural, diaspórica em um dos países mais interessantes e complexos do mundo? Se liga no Hypeness para mais dicas sobre como passar momentos inesquecíveis na África do Sul.

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Fotos: Kauê Vieira


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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