Arte

Banksy passa por Veneza e deixa recado sobre crise dos refugiados e turismo predatório

por: Vitor Paiva

Ora criticando a sociedade e o capitalismo, ora mirando o próprio mundo das artes, o anônimo artista inglês Banksy reuniu seus dois alvos preferenciais em sua última incógnita aparição – dessa vez em Veneza, para a Bienal de Artes da cidade, uma das mais importantes do mundo. Mantendo sua misteriosa identidade ainda secreta, Banksy obviamente não era um dos artistas convidados, confinados às quatro paredes e à institucionalização do evento oficial – como de costume, ele preferiu utilizar suas táticas de guerrilha, e montou literalmente sua barraca no meio da rua, na praça San Marco, para expor seu olhar sobre a paisagem de Veneza – ou quase.

Pois o olhar de Banksy jamais revela o óbvio, mas sim um real sentido escondido – e as tantas camadas críticas em seus trabalhos sempre se acumulam. No lugar da bela vista da praça, o artista expôs, na tal barraca (devidamente por uma pessoa, ele próprio ou um de seus “agentes”, escondida atrás de um jornal) nove quadros que, combinados, formam o cenário da cidade italiana encoberto por um imenso navio transatlântico – que, conforme mostra o vídeo postado na conta do artista no Instagram, de fato polui a vista veneziana. O título da obra? “Veneza em óleo”.

“Instalando minha barraca na Bienal de Veneza”, diz a legenda no post. “Apesar de ser o maior e mais prestigiado evento de arte no mundo, por algum motivo eu nunca fui convidado”, diz Banksy. Além das críticas evidentes à Bienal e ao turismo predatório na cidade, em outra obra o artista parece ter mirado a questão dos refugiados: na parede de um canal, o estêncil de uma criança, com um sinalizador nas mãos e vestindo um colete salva-vidas, lembra a atual crise dos imigrantes na Itália.

O vídeo revela que a polícia local exige a autorização do “artista” para expor na praça e, por fim, o expulsa das imediações, levando junto seus quadros. Em ação semelhante realizada em 2013, Banksy colocou à venda, sem se identificar, quadros seus por 60 dólares cada – e somente três foram vendidos. Um dos sortudos – ou seriam visionários? – compradores revendeu a obra pechinchada por cerca de 158 mil dólares (o equivalente a quase 500 mil reais) em um leilão.

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© fotos: reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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