Entrevista Hypeness

Black Alien se abre sobre dependência química e saída do ‘fundo do poço’: ‘É saúde mental’

por: Kathleen Santiago

“Se vem baseado no passado, só há um resultado / ‘Cê vai se foder / Porque eu sou o agora”. “Que Nem o Meu Cachorro”, quarta das nove faixas de “Abaixo de Zero – Hello Hell”, soa tão direta como todas as outras do álbum mais recente de Black Alien. Lançado em abril, esse é o terceiro trabalho solo de Gustavo Ribeiro, que emergiu ainda nos anos 1990, quando formou dupla com o rapper SpeedFreaks, e depois, na mesma década, com a banda Planet Hemp. Logo na primeira faixa, “Area 51”, ele manda o recado: “Vim pesadão ninguém vai me derrubar”.

O álbum “Abaixo de Zero: Hello – Hell”, de Black Alien, foi lançado no dia 12 de abril de 2019

Nascido em São Gonçalo e criado em Niterói, duas cidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Gustavo de Nikiti, como também é chamado, passou por poucas e boas. “Meu fígado não concordou com meu estilo de vida”, canta em “Take Ten”, quinta faixa de “Hello Hell”. E complementa com algumas memórias em “Aniversário de Sobriedade”: “Me olho no espelho ‘mas Gustavo, o que fazes?’ / Cadê as letras? Esqueceu da caneta / Fica só cheirando em cima do cd de bases”.

Em 2004, lançou o primeiro álbum de sua carreira, “Babylon by Gus – Vol. 1: O Ano do Macaco”, que foi gravado em apenas um mês e ainda hoje é considerado um dos melhores discos de rap do Brasil. O segundo trabalho só veio em 2015, depois de uma série de internações devido à dependência química. “Babylon By Gus – Vol. II: No Princípio Era o Verbo”, foi financiado via crowdfunding e veio para, além de preencher o vazio, abrir o caminho de sobriedade que Black talvez nem imaginasse que percorreria.

Black desfilando para a Cavalera durante o SPFW/2019

Quase completando 47 anos de vida, Mr. Niterói vive uma nova fase: “Não estou bebendo, nem de ressaca, leio e escrevo com frequência, cuido da minha saúde, e o principal: Agora não falo mais por cima das pessoas que realmente sabem o que estão falando, quando falam comigo, eu as ouço”, conta ao Hypeness.

“Por pura e simples empatia”, o novo projeto foi realizado com a produção do beatmaker Papatinho, relevado pelo grupo carioca Cone Crew Diretoria, e agora  requisitado a ponto de produzir “Kisses”, música de Anitta com participação de Snoop Dogg e Ludmilla. Permeado de soul, R&B e jazz, como um bom rap deve ser, e conduzido com doses extra punk & extra funk, o disco retrata de forma corajosa sua luta (e vitória) diária contra a dependência química, de forma autocrítica, mas sem ditar regras ou impor moralismos.

No seu português-inglês, o rapper fala ainda de amor, recomeço, estilo de vida, sobriedade e, sobretudo, poesia. É Gustavo Black Alien se reinventando, sem deixar de ser o que sempre foi: “Ainda sou o Gustavo, filho de Dona Gizelda e Seu Rui”.

Em conversa com o Hypeness, fala sobre cinema, música, carreira, tecnologia, drogas e muito mais. Confere aí:

Por que a decisão por algo novo e não a continuação da trilogia “Babylon By Gus”?

Black Alien: Não foi “decisão”, foi natural. E eu nunca comentei nada sobre trilogia. Nunca pensei em “3”. Um dos meus discos prediletos é “Led Zeppelin lV”. Minha relação com minha arte é de seguir o fluxo natural dessa energia. Não racionalizo muito as coisas, apenas o que pede isso. Mas como o próprio nome diz, “Babilônia por Gus”, é olhar pro que está em volta. Em “Abaixo de zero: Hello Hell”, nada escapa à esse olhar, mas ele está muito mais apontado pra dentro do que pra fora.

Como funciona a parceria com o Papatinho? No álbum fica claro que houve uma troca entre vocês, mas como foi esse processo?

Nós fizemos duas músicas juntos em 2012. No ano passado, após decidir pelo Papatinho como produtor do disco, nós conversamos sobre beats, texturas, timbres e climas, trocando informações e referências. Mas isso foi apenas a intensificação do que já acontecia de 2016 pra cá, por pura e simples empatia. Fui mandando as primeiras guias a partir de outubro, e em novembro fui pro Rio começar a gravar de fato. Os papos de música continuaram durante toda a gravação e a escrita também. O disco foi composto enquanto era gravado. Tem beat composto em março de 2019, e beat de 2009 nesse disco.

Ao longo das 9 músicas do álbum é fácil identificar sinceridade nas suas palavras, até uma certa autocrítica. Você é ao mesmo tempo seu melhor amigo e seu maior inimigo?

Minha mente no caso é minha inimiga, né. Quando digo “eu”, é a minha mente à que me refiro. Ou eu a domino, ou ela me domina. Quando estamos eu e minha autocrítica, sobra quase nada pra criticar os outros ou as coisas, né… Primeiro arrumo meu quarto, aí sim, vou pra cima com base pra arrumar o mundo.

A recuperação da dependência química é uma parte da sua vida e, acredito que por isso é retratada no álbum. Mas, sem ditar regras, acha que falar sobre esse assunto, que é uma questão íntima, é um serviço que você presta à sociedade?

Questões íntimas são família, dinheiro, vida amorosa. Isso é saúde mental relacionada a um verdadeiro flagelo mundial que é a dependência química. Esse assunto vem à tona porque faz parte da minha vida, e é assim que eu escrevo. Escrevo o que vêm. O fundo do poço de alguém sempre se torna público até pra quem não é pessoa pública, então meu fundo do poço foi bem público. A partir daí, não havia nenhum motivo lógico pra minha recuperação não ser pública. Guardados os devidos cuidados, e claro, detalhes-chave mantidos privados, segui me recuperando abertamente. Em primeiro lugar é um serviço que eu presto a mim mesmo, pois o tratamento é contínuo, constante e vitalício, e o ouvido mais próximo da minha boca é o meu. Então falo muitas vezes o que eu mesmo preciso ouvir. E sim, atrapalhar não atrapalha, creio eu, no sentido de ajudar a informar e prevenir as pessoas sobre a doença.

Como é o processo para escrever love songs como “Vai Baby” e “Au Revoir”, mesmo que o amor seja o amor próprio, ainda é falar de amor, né?!

O processo pra escrever uma love song é o mesmo pra escrever de qualquer outro assunto. E são sim, sobre amor. Amor sobre tudo, e sobretudo amor. Além do “eu e você, você e eu”. Pois fora ser um casal de atores pornô, alguém vai ter que trabalhar, né… É sobre amores reais e possíveis, sábios no sentido da dosagem. Pois não existe lua de mel contínua, nem orgasmo intermitente. Tem que haver um equilíbrio entre o gostosinho e as pedreiras da vida. E sem amar a mim mesmo, não é possível ser amado ou  amar nada de verdade. Tanto em “Au revoir”, como em “Vai baby”, eu falo de vida própria de cada indivíduo, de esperar, de ir, de chegar do trabalho, das missões da vida de cada um. Vejo muitos vivendo a vida do outro. A meu ver, temos de ser nosso próprio projeto, pra amar e sermos amados.

 

Você sinaliza que o que te “preocupa é o celular vibrando ao lado do seu saco”. Dá onde vem essa preocupação? Onde, para você, a tecnologia mais atrapalha que ajuda?

Essa linha quer dizer: “Trato pequenos problemas como se fossem grandes, e grandes problemas como se fossem pequenos”. Ela é mais sobre “o resto todo que dá câncer”, do que o aparelho em si. Meus detratores, inimigos,  o que quer que seja, foram eles decidiram por isso, não eu. Eu decidi me defender e cuidar da minha vida, o que em si já é defesa. Se esses aí já foram nulos um dia enquanto soma ou fechamento, hoje enquanto “problema”,  se saem pior ainda. Nem tomo conhecimento. Suas manobras, falácias, e forte emissão de energia negativa, são pequenos perto do mal que causa uma bateria de lítio permanentemente perto do saco, ou colada na orelha. Como sobre o tabaco até um tempo atrás, os estudos e suas conclusões sobre aparelhos celulares são sonegados para o grande público. A tecnologia atrapalha quando dá voz a idiotas, ignorantes e cretinos. Os 15 minutos de fama profetizados por Warhol, duram bem mais hoje em dia, e isso é o início do fim. Como qualquer arma, não pode estar em qualquer mão, e hoje, é exatamente isso que acontece. Como vários outros adventos da humanidade, o que era pra curar, nos adoece mais.

 

Questões íntimas são família, dinheiro, vida amorosa. Isso é saúde mental relacionada a um verdadeiro flagelo mundial que é a dependência química. Esse assunto vem à tona porque faz parte da minha vida, e é assim que eu escrevo. Escrevo o que vêm.

 

Em “Capítulo Zero” e ao decorrer de “Hello Hell” você cita diversos filmes… O que o cinema representa pra você?

O cinema é a minha forma de arte predileta. O último predileto que vi foi “O fantasma do paraíso”, de Brian de Palma. De cabeceira, entre outros poucos, “Ghostdog, O caminho do Samurai”, de Jim Jarmusch, é consulta permanente.

O que você tem escutado no momento?

Miles Davis, Busta Rhymes, Run the Jewels, Sean Pryce, Fugazi, Rincon Sapiência, De Leve, Vince Staples, Pixies, Daft Punk e Patti Smith.

Está curtindo o chamado “novo rap”? Alguém te chama atenção?

Não, ninguém me chama a atenção.

Você rapidamente comenta nosso contexto político em “Jamais Serão”. Como você avalia esse momento? Acha que faz parte da vida de um artista se posicionar publicamente sobre tais questões?

A coisa mais chata da sociedade no momento é o fato de todo mundo agora ser especialista em todo e qualquer assunto. Não, ninguém sabe de porra nenhuma do que acontece, e nem do que fala. Se eu tivesse aqui pra falar por falar, lançava disco todo ano. No meu refrão, canto o que é fato, verdade simples: Presidentes são temporários, e música boa é para sempre. Porque é assim que é.

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Fotos: @roncca  e divulgação.


Kathleen Santiago
Jornalista, suburbana e leonina. Capixaba de nascimento, se fez carioca do coração. Ligada a 220 volts, mas com ar de tranquilidade por fora, busca incansavelmente a realização de seus sonhos. O maior deles? conhecer o mundo, apenas! Apaixonada pela natureza, cinema, música, praia no fim de tarde, café, amigos e uma boa conversa de bar! Se te fizer muitas perguntas, não se assuste.

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