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Cinema brasileiro brilha em Cannes com ‘Bacurau’ e ‘Vida Invisível de Eurídice Gusmão’, mas luta para sobreviver

por: Murilo Costa

O cinema nacional está brilhando. Neste sábado (25), o Festival de Cinema de Cannes anunciou os vencedores de sua principal mostra competitiva. “Bacurau”, dos cineastas pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, recebeu o Prêmio do Júri – terceiro maior em importância, atrás apenas do Grand Prix e da emblemática Palma de Ouro. O troféu, inédito para o país, se soma a honraria ganha um dia antes pelo cearense Karim Ainouz: seu longa, “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, o vencedor da mostra Um Certo Olhar, destinada aos filmes mais autorais e inventivos do Festival.

Mas, se não ganhamos a Palma de Ouro, porque esses prêmios são tão importantes? Para começar, o Brasil não tinha uma participação tão marcante em Cannes desde 1964. Naquele ano, fomos representados por nada menos que “Deus e o Diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha, “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, e “Ganga Zumba”, de Cacá Diegues. Era o Cinema Novo pedindo passagem e iniciando um caminho de reconhecimento internacional que atravessaria a
década.

O aspecto mais importante na comparação entre esses dois momentos do Brasil em Cannes está além do tapete vermelho. O maior motivo para comemorar é o fato de não se tratarem de casos isolados. Assim como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Cacá Diegues eram apenas a ponta de um iceberg chamado Cinema Novo, os prêmios de Kleber, Juliano e Karim são um reconhecimento da diversidade cultural de nossa cinematografia.

Nunca fizemos tantos filmes, e eles nunca foram tão diferentes entre si. Desde 2013, a produção nacional ultrapassa seguidamente a marca de 100 lançamentos por ano; estados como Goiás, Mato Grosso, Pará e Maranhão tiveram seus primeiros longas lançados em circuito comercial. Neste mês, o filme “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos”, rodado em Tocantins – e vencedor da mostra Um Certo Olhar em 2017 – estreou na França, vendendo mais de 10 mil ingressos na primeira semana.

Viramos presença costumeira nos principais festivais do mundo: Veneza, Roterdã, Toronto, Sundance, e, principalmente Berlim, onde já somos de casa: somente esse ano foram 12 indicações e cinco prêmios na Berlinale.

Paradoxalmente, o reconhecimento no exterior chega a seu ápice no momento em que o governo do país trava uma queda de braço com a cultura e a educação. A verba destinada a montagem do estande brasileiro em Cannes foi cortada, e os cineastas precisaram angariar fundos com o setor privado para a divulgação de seus filmes. No exato mesmo dia em que Cannes anunciava “Bacurau” como um dos selecionados para a mostra competitiva, a Ancine, agência nacional do cinema, paralisava suas operações por conta de um questionável imbróglio burocrático.

Dias depois, Kleber Mendonça seria condenado pela mesma agência a devolver as verbas utilizadas para realizar seu filme anterior, Aquarius. É bom lembrar que no lançamento do longa, também no Festival de Cannes, Kleber Mendonça fez um protesto contra o governo brasileiro em pleno tapete vermelho. O estranhamento entre o cineasta e autoridades torna a decisão, no mínimo, controversa.

Embora esteja vivendo sua melhor fase, o cinema brasileiro precisa superar importantes desafios internos. Além das questões financeiras e políticas, a dificuldade de alcançar o grande público tem sido uma constante para as produções autorais. Resta saber se os louros colhidos no exterior vão ajudar “Bacurau” e “A vida invisível de Eurídice Gusmão” quando desembarcarem em nossas telas. As películas tem estreias agendadas para setembro e novembro, respectivamente.

Para quem ama o cinema nacional, permitam-me uma rápida propaganda. O debate continua no Central Cine Brasil, podcast que participo e acompanha o cinema brasileiro de perto. Vamos lá?

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Murilo Costa
Formado em cinema pela Universidade Metodista, já fez de tudo um pouco — roteiro, produção, direção — entre videoclipes, cinema e publicidade. Editor do documentário "A primeira vez do Cinema Brasileiro", atualmente faz parte da bancada do podcast Central Cine Brasil, que semanalmente entrevista diretores, produtores e figuras do audiovisual brasileiro para comentar os lançamentos e principais notícias do setor.

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