Reportagem Hypeness

Elas provam que maternidade é mesmo uma viagem e caem na estrada com os filhos

por: Mari Dutra

Já houve um tempo em que a maternidade era um acontecimento que parecia brotar em algum momento entre o casamento e a aposentadoria. Só então, com dinheiro entrando no banco, tempo livre e os filhos crescidos, é que chegava a hora de conhecer o mundo. Acontece que ninguém mais está disposto a esperar uma aposentadoria cada vez mais incerta para colocar os pés na estrada.

Em um contexto em que somos bombardeados com imagens de todos os cantos do mundo, é quase impossível não despertar aquele wanderlust que existe dentro de cada um de nós. Viajar passou de ser um luxo para se tornar o maior desejo de consumo dos brasileiros de acordo com uma pesquisa de 2015 realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) em conjunto com o portal Meu Bolso Feliz.

De olho nessa tendência, mamães de todas as idades embarcam em uma jornada ao lado dos filhos, tenham eles dois meses ou trinta anos. Afinal, se a maternidade é uma viagem, por que não cair na estrada com os pimpolhos?

Bebê a bordo

A relações públicas Jéssica Venerável e o psicólogo Bruno Costa ganharam um novo parceiro de aventuras com o nascimento de Bernardo, há dois anos. A chegada do novo integrante da família fez com que o planejamento sofresse pequenas adaptações. Deixar de viajar, no entanto, nunca esteve nos planos do casal.

Algumas coisas precisaram mudar para que Bernardo fosse integrado nas viagens. Agora, a família foca em buscar hospedagens que ofereçam mais estrutura, como locais com berço ou cozinha aberta, para que possam esquentar a comida do bebê ou cozinhar alguma coisa. Se o lugar tiver fácil acesso a mercados, restaurante próprio e for próximo de um posto de saúde ou hospital, ainda melhor.

Jéssica, Bernardo e Bruno. Foto: Deixa de Frescura

Quando Bermardo tinha pouco mais de dois meses, Jéssica encarou a primeira viagem da vida materna, com destino a Arraial do Cabo. Antes dos seis, o menino já havia conhecido Ubatuba, Maresias e Tiradentes, mas foi quando completou meio ano de vida que a família fez seu primeiro grande roteiro juntos, com destino a Recife, Fernando de Noronha e Porto de Galinhas.

A gente gente calculou a viagem justamente para ser um momento em que ele pudesse também ir para praia, porque com seis meses você já consegue passar protetor solar na criança. Antes disso você não pode passar, porque a pele dele ainda não tá madura o suficiente, então não é aconselhável a questão da praia justamente por isso.

Para que a viagem fosse boa para todos, os passeios eram feitos pela manhã e a hora do almoço era reservada para voltar à acomodação e fazer uma boa refeição. Depois que o Bernardo tirava sua soneca habitual após o almoço, a família saia novamente, respeitando sempre o tempo do bebê.

Jéssica também não deixou a alma aventureira de lado. Ela e Bruno relatam suas experiências no blog de viagens Deixa de Frescura e essa frase continua sendo o lema de suas viagens. Em Noronha, apeasar de Bernardo ser ainda pequeno, nenhum passeio ficou de fora do roteiro.

A bordo do canguru, o bebê foi junto até mesmo para a Praia do Sancho, cujo acesso é difícil, feito através de uma escadaria vertical. “E aí todo mundo achou o máximo ter um bebê lá embaixo“, lembra a mãe. 

O que mudou é que basicamente precisamos levar mais coisas a cada vez saíamos com ele. Precisávamos pensar em fraldas, em comida, em água, em roupa extra, em toalha. Mas não deixamos de fazer nada. Ficamos 6 dias em Noronha e fizemos a Trilha do Sancho, a Trilha dos Abreus e a Trilha do Atalaia. Só prestamos mais atenção aos horários, para ele ter tempo de descansar e de comer, e também atenção ao clima.

Foto: Deixa de FrescuraO choro no avião também nunca foi um problema. Jéssica conta que aprendeu a entreter o Bernardo para que as viagens fossem menos estressantes para todos. Na bagagem, comidinhas, brinquedos, livros e, em último caso, um pouco de tecnologia.

Não sou muito fã de telas (celular ou tablet) . Agora com 2 anos libero mais tempo e uso também em último caso, quando já esgotei as possibilidades de fazer ele ficar sentado quietinho“, diz. Os pais tiram de letra e as reações dos outros passageiros se dividem entre aqueles que olham com cara feia e os que aproveitam para brincar com o bebê.

Mesmo priorizando o bem-estar de Bernardo, Jéssica já enfrentou críticas por viajar com uma criança pequena e lembra que as pessoas a julgavam abertamente. “Eu já me senti muito culpada, principalmente no início“, comenta. “Mas o Bernardo hoje é a melhor resposta a todos“. Mesmo sem nunca ter ido à creche, ele interage com todos a seu redor e aprendeu a falar cedo, o que ela credita ao estilo de vida da família.

A próxima viagem ainda não está planejada, mas o sonho da família é fazer uma roadtrip de motorhome com Bernardo. “Ainda estamos planejando, vendo quanto tempo, o roteiro e o orçamento também, claro“, diz.

Mãe na bagagem

Viajar com bebês está longe dos planos da pensionista Eva Almeida, ao menos por enquanto. Aos 67 anos, a mineira embarca nas aventuras organizadas pelas filhas Daniela, de 39, e Danubia, 36. Ela conta que não viajava para lugar nenhum durante a juventude. Quando casou, se mudou para São Paulo e as viagens se resumiam a visitar seus parentes em Minas Gerais.

Em 2012, a vida tranquila da idosa começou a mudar. Daniela, a filha mais velha, decidiu fazer um cruzeiro e levou Eva junto. Desde então, já encarou diversos roteiros ao lado das filhas, que registram as aventuras através do Instagram Mãe na Bagagem e do blog D&D Mundo Afora.

 

Apesar de conhecer o mundo, Eva não hesita ao lembrar de seu lugar preferido: Gramado, no Rio Grande do Sul.

Lá (em Gramado) é bonito e a gente come muito bem. Eu amo café da manhã e as meninas escolhem os hotéis que sempre têm café da manhã bom, pensando em mim. O de Gramado era maravilhoso. Tinha de tudo. Dá até água na boca de lembrar.

Além de comer muito bem na Serra Gaúcha, ela adorou conhecer os campos de tulipas na Holanda e ver as múmias no Egito. “Até hoje não acredito que aquilo era gente de verdade“, comenta com bom humor.

No último mês, a aposentada adicionou um novo destino aos lugares visitados e viu a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, em uma viagem ao Chile. As filhas foram junto, é claro. O trio é tão unido que ela brinca que “parece que tem uma cordinha que gruda a gente“.

As meninas não querem parar mais de viajar e eu vou junto. Não tenho compromisso mesmo. Estou por conta delas… Elas falam que viajar sem mim não tem graça.

E não tem mesmo. Daniela e Danubia organizam o roteiro e Eva embarca junto na aventura. Ela não é a única aposentada a fazer as malas para desbravar esse mundão. Uma pesquisa de 2015 do Ministério do Turismo aponta que brasileiros que passaram dos 60 anos respondem por quase 18 milhões de viagens ao ano no país.

Da esquerda para a direita, Daniela, Eva e Danubia. Foto: D&D Mundo Afora

Com o aumento da expectativa de vida, as pessoas dessa faixa etária também são cada vez mais propensas a cair na estrada. A mesma pesquisa mostra que os idosos eram os mais dispostos a fazer novas viagens. Se for com os filhos, melhor ainda.

Leia também: Família encara road trip sem data para terminar com os dois filhos pequenos

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Créditos das fotos sob as imagens


Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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