Diversidade

Em 7 anos, população que se autodeclara preta cresce 32% no Brasil

por: Kauê Vieira

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Em sete anos, o Brasil registrou aumento de 32% no número de pessoas que se declaram pretas. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostrou que entre 2012 e 2018, os declarados pretos aumentou quase 5 milhões no país.

Em 2018, o IBGE informa, o Brasil tinha 19,2 milhões de pessoas que se declaram pretas, ou seja, 4,7 milhões a mais que em 2012. Expondo alta de 32,2% no período. Os dados foram divulgados na quarta-feira (22).

Ações afirmativas e representatividade atravessam o orgulho de ser negro

2014 foi o último ano em que o número de negros se manteve estável em relação ao ano anterior. Desde então, a autodeclaração subiu. Embora não aponte uma causa específica, o IBGE enxerga o reforço das ações afirmativas como responsável.

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“O motivo específico para o aumento dessa declaração, de fato, a gente não tem. O que a gente percebe é que nos últimos anos houve reforço das políticas afirmativas de cor ou raça”, constatou a analista do IBGE, Adriana Beringuy.

Por outro lado, a população declarada branca diminui. Em 2018 eram 89,7 milhões de pessoas, conta 92,2 milhões em 2012. Os brancos permaneceram maioria até 2014. Desde então, os pardos representam maior parte dos brasileiros, passando de 89,6 milhões em 2012 para 96,7 milhões em 2018.

O IBGE ressalta que o levantamento se baseou na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) – realizado a partir da noção de cor e raça de cada indivíduo.

Para a pesquisadora, não é possível eleger um fator para tendência de crescimento. Adriana, no entanto, cita a importância de compreensão do papel desempenhado pelas ações afirmativas.

“A gente não sabe se todo esse crescimento é baseado nas políticas afirmativas de cor e raça. Se for, vai depender da continuidade dessas políticas. Cria-se uma cultura nas pessoas que foram atingidas pelas referidas políticas e estas repassam o posicionamento delas em relação à própria cor para as demais pessoas, mesmo que estas não sejam beneficiadas diretamente”, encerrou.

Bahia, minha preta

A Bahia foi o estado que mais sentiu a diferença. De acordo com os dados, de 2017 para 2018, 308 mil pessoas a mais se declararam pretas na boa terra. Os brancos e pardos são 124 mil e 155 mil a menos, respectivamente.

Uma em cada cinco pessoas que vivem na Bahia se consideram pretas, representando em 2018 percentual de 22,9%. Os brancos eram de 18,1% no período. A Bahia é seguida do Rio de Janeiro, com 13,4%, Tocantins, com 12,4%, Maranhão, que tem 11,9% e Minas Gerais, com 11,8%.

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Aliás, a terra mãe do Brasil é o único estado no país em que pretos são maioria. Para analistas, culpa da mudança de mentalidade provocada pelas ações afirmativas. Representatividade.

Com o aumento da presença negra nas universidades, temas como racismo, pertencimento e relação com o continente africano estão saindo do fundo do baú. O trabalho vem de longe e esbarra em nomes como Sueli Carneiro, Vilma Reis e Lélia Gonzalez, que plantaram a semente do orgulho negro que brota hoje.

Em conversa com Hypeness, a jornalista soteropolitana Rita Batista exaltou a importância da representatividade para o caminho de fortalecimento da identidade.  

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“A identificação com o povo preto é imediata. Porque é aquilo né, é possível. Mesmo com todas as questões. Todos os problemas, é possível. Representatividade importa. Importa muito. Eu sempre me senti representada por exemplo por Glória Maria na televisão. E hoje eu vejo que sou representação para muitas meninas e meninos pretos que querem também estar na TV ou no rádio. Ou que somos tão próximos porque falamos de coisas muito nossas, né? Independente da classe social, da região em que nasceu e que foi criado no país ou mesmo fora do país, as questões, as ligações que nos unem, nós povo preto, são muito particulares. Peculiares. Então eu acho que isso nos torna mesmo. Somos todos nós lá. Onde quer que estejamos”, assinala.

Negros e negras brasileiras atravessam um momento importante de reconexão com a identidade historicamente negada. A intensificação do debate dentro e fora das universidades provoca questionamentos identitários importantes e que refletem nos números expostos pelo IBGE.

Marcilene Garcia, socióloga e professora do Instituto Federal da Bahia (Ifba), parece concordar.

“A categoria de pretos tem uma carga valorativa e um caráter político de resistência. Há uma mudança de conceito, as pessoas estão sendo convidadas a refletir: ‘Eu sou um negro? Negro preto ou negro pardo? A minha cor, dependendo da tonalidade, me torna preto?’. Na minha heteroclassificação, alguns pardos passaram a se identificar como pretos e, alguns pardos que, antes se identificavam enquanto brancos, agora, se veem pardos”, disse em entrevista ao Correio da Bahia.

Cotas. É lei!

A Lei Federal 10.558, de 13 de novembro de 2002, estabeleceu a criação do Programa Diversidade na Universidade. O processo de luta dos movimentos negros foi reconhecido pelo Estado brasileiro, que pouco fez para reparar os males de séculos de escravidão.

A constitucionalidade do sistema de cotas no Brasil foi endossada pelo Supremo Tribunal Federal, que em 25 de abril de 2012, definiu por unanimidade, a constitucionalidade do sistema de cotas. Invalidando ação proposta pelo DEM.

Nossos passos vêm de longe e passam por Vilma, Sueli, Zumbi e Lélia

“Essas medidas visam a combater não somente manifestações flagrantes de discriminação, mas a discriminação de fato, que é a absolutamente enraizada na sociedade e, de tão enraizada, as pessoas não a percebem”, declarou Joaquim Barbosa, único ministro negro da história do STF.

– Suicídio entre adolescentes negros cresce e é 45% superior que entre brancos

Avançamos, mas é preciso mais. Muito mais. O Brasil ainda é um dos países mais racistas do mundo. O Hypeness divulgou estudo do Ministério da Saúde mostrando que o índice de suicídio entre adolescentes negros cresceu e é 45% maior do que entre brancos.

Acesso, educação de qualidade e equidade racial, obrigações de um país que até aqui trata mal sua população negra.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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