Entrevista Hypeness

Fernanda Montenegro, a matriarca da dramaturgia brasileira, diz: ‘Não sei porque o Brasil caminhou para o nada’

por: Rafael Oliver

Neste Dia das Mães, o Hypeness tem o enorme prazer de estar com uma mulher que é um farol, uma enorme referência para a produção artística brasileira. Tremendamente respeitada e admirada por seu extenso e profundo trabalho nas telinhas, telonas – lembrem-se da indicação ao Oscar – e também nos palcos do teatro. Fernanda Montenegro interpretou com perfeição tantas mães em sua carreira – incluindo seu trabalho mais atual, que nos rendeu o honroso convite por conta da Rede Globo para passar bons minutos ao lado dela. Não é exagero nenhum dizer que Fernanda é, sim, a grande matriarca da dramaturgia brasileira. 

Arlette Pinheiro Esteves da Silva Torres, conhecida pelo seu nome artístico, Fernanda Montenegro, é a primeira dama do cinema, da televisão e do teatro, apesar de não sentir-se à vontade com o termo. Única brasileira a concorrer ao Oscar. Primeira a ganhar um Emmy. Há poucos meses de completar 90 anos de vida e 75 de carreira, o Hypeness foi ao encontro dessa mulher que inspirou gerações de mulheres para uma entrevista exclusiva.

Quatro da tarde, hotel Copacabana Palace, Rio de Janeiro. Coletiva de imprensa da nova novela da Globo, “A Dona do Pedaço”. Enquanto a festa começava no primeiro andar, nos preparávamos em uma das suítes para receber Fernanda. Daria somente uma única entrevista exclusiva na noite. De todos os veículos presentes, fomos os escolhidos para falar com “Dona Fernanda”, como é chamada pelos próprios funcionários da casa. Pouco antes da sua chegada, encontramos outros atores do elenco da próxima novela, que, claro, se apressaram em se derreter pela a atriz.

Assim que chegou, disposta e de bom humor, Fernanda Montenegro fez questão de dividir a glória, dizendo não estar sozinha e que há muitas outras atrizes e atores dividindo o posto mais alto com ela. Não é exatamente o que diz que vive da dramaturgia brasileira. A soberania de Fernanda é raramente contestada entre críticos, colegas de trabalho, diretores e autores. 

É algo impressionante escrever um texto e ver o ator encontrar tantas camadas, tantas reações. A Fernanda é capaz de tornar tão grande a personagem. Dar cada movimento, cada olhar. Ela está simplesmente sensacional nesse novo papel, como Dona Dulce E é algo fantástico dar um papel novo pra uma atriz com a carreira que ela tem. Ela ficou muito feliz e eu também. – Walcyr Carrasco

Presente X Passado

Como uma artista que se entrega a cada novo personagem, Montenegro está mais uma vez feliz e confiante no que vem por aí. Viverá dona Dulce, avó de Maria da Paz, protagonizada por Juliana Paes. A personagem se destaca pelo amor à família e a coragem, já que fará de tudo para proteger a neta. Em seguida, fizemos uma comparação,  relembramos sua primeira novela, “A Muralha”, de 1954, exibida ao vivo, duas vezes por semana. Ela garante sentir saudades dessa época, mesmo com uma estrutura de produção inferior à atual.

“Dá pra sentir saudades, porque nós estamos com um sistema de trabalho cinematográfico, sem tempo. Os capítulos são grandes, há uma necessidade de uma estética contemporânea, e não há tempo. Por enquanto, temos as necessidades, estamos dando conta, mas ainda não está no ideal, no sentido do tempo corresponder a necessidade do fazer”.

Poder Feminino

Apesar de não aceitar rótulos de reverência, Montenegro admite que através do seu trabalho, pode exaltar o poder feminino, inspirando muitas outras mulheres.

“Ah, sim… Acho que consegui fazer isso.  A gente não pode deixar pra amanhã. Sou uma mulher que sempre me assinei, sabe?  E também tive um homem, por 60 anos, o Fernando Torres, que jamais disputou masculinidades inúteis. Pelo contrário. Um homem que sempre me apoiou. E se não fosse assim, não estaríamos juntos. Nem ele, nem eu”.

 

Estou realizando um sonho de contracenar com ela. Nós temos cenas de pura emoção, olho no olho, cenas que a gente briga, que faz as pazes, tudo. Estamos muitos próximas em cena. E ela é realmente essa mulher que todo mundo imagina e muito mais. Uma mulher disponível, entregue, generosa. Ela tem sempre um componente a mais, algo que não está no texto, mas que pode vir a ser melhor. Outra coisa que me deixou apaixonada por ela, é a humildade de perguntar: “Você gostou, acha que é por aí?”. Ela ainda questiona. O grande ator nunca perde isso, a dúvida, a pergunta, o “será”. – Juliana Paes. 

A decepção com o país

Há 20 anos, durante uma entrevista, Montenegro deu o seguinte depoimento: “O jovem deve viver seu presente, seus valores, devem se agrupar e devem discutir o Brasil de agora. E não jogar isso para o futuro um dia. Por que pode dar no que deu o Brasil.” Questionada se o discurso continua atual, ela foi enfática.

“Totalmente. Não sei porque o Brasil caminhou para o nada. Com a idade que estou, atravessei nove décadas. Sempre havia uma esperança para daqui a pouco. Uma esperança de governo. A maior parte não aconteceu. Chegamos no fundo do abismo. Talvez alguma coisa ainda venha pra nos salvar, nos trazer uma saída honrosa, que está desesperador. O brasileiro tem que ter uma esperança ativa. Não adianta ter esperança e ficar sentado. Tem que acordar e ir à luta.”

Uma das atrizes que eu mais trabalhei. Sou amigo da família. Sou próximo dela. É muito emocionante. Eu, que tenho 55 anos, vejo a Fernanda com 90, cheia de energia, bem disposta, decorando texto, cabeça boa, animada, empolgada. Ela acrescenta muito ao elenco. Ela carrega ainda um espírito, no melhor sentido da palavra, de amadorismo, de querer fazer. A gente aprende assistindo, conversando, convivendo. Ela é isso. Ficam as lições de como a vida é maior do que tudo isso. A Fernanda é um símbolo da resistência artística no Brasil. – Marcos Palmeira

O que a faz feliz

Para Montenegro, a felicidade está nas coisas mais simples da vida:

“Olha meu filho, o que me faz feliz é ainda acordar e andar, ter conexões no meu viver, estar ainda trabalhando, conseguindo ter uma dinâmica de vida que não posso deixar de agradecer à Deus, à natureza, aos meus pais. É ter conexão com a vida.”

Eu tive a sorte de conviver muito com a dona Fernanda durante um mês numa outra novela. Ela tem muita coisa pra contar, desde lá de trás. Ela é muito generosa. O que acho mais incrível dela é o estímulo pelo presente. Essa vontade de descobrir. Não só contar com a bagagem que ela tem. É uma delícia, uma benção ter essa oportunidade. Se eu tivesse que resumir Fernanda em uma palavra, diria “disponibilidade”. Ela está sempre disponível. – Reinaldo Gianechinni

 

Um conselho

Por fim, deu um conselho que demorou para aprender e gostaria de passar adiante para os jovens:

“Se você tem uma vocação, vá nela. Se fizer isso, metade da sua vida está resolvida. Se você dribla a vocação, não terá sossego, eu acho. Pode até viver bem. Mas para o que for, na vida, faça isso, se não, metade do teu sentir tá desconectado”.

Estar ao lado dessa mulher é uma experiência incrível. Dona Fernanda é um exemplo, um orgulho. Atuou em tantas histórias que acabou fazendo história como uma das maiores atrizes dos últimos tempos. Não é exagero reverenciar essa atriz que, dentro da dramaturgia brasileira, impera como nossa grande matriarca. 

Assista ao vídeo com o que de melhor rolou em nossa conversa com a atriz Fernanda Montenegro.

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Rede Globo / Divulgação

Agradecimentos: Thais Martinelli, Sara Paixão, Cíntia Lopes e Fabiana Silva.

Dedicad0 a todas as mães, em especial a minha mãe, Lilian.


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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